A Muiraquitã

Zoe de Camaris


Conta a lenda amazônica que a tribo das mulheres guerreiras tinha como espaço sagrado o Lago do Espelho da Lua. O ritual mais importante do grupo consistia em confeccionar um talismã que mais tarde seria entregue ao homem que lhes dessem filhas. Algumas versões dizem que a Muiraquitã era feita do barro que ficava no fundo do Yacyuaruá e que, ao receber os raios da lua cheia, ou ainda do Sol, se solidificava. Outras versões contam que o sangue das Icamiabas, ao ser pingado sobre um peixe ou alguma pequena rã da lagoa transformaria o animal em pedra.
Ao chegar da meia noite, estando a lua cheia no céu - a época da "malvadeza da lua", segundo expressão indígena - e antes do astro branco completar o seu auge, as Amazonas caminhavam até o Lago, carregando vasilhas com feitiços perfumados que seriam usados para liberar o espírito das águas, a Mãe da Muiraquitã. O ritual, tinha inicio com cantos e danças seguidas de banhos purificadores. Na hora exata, as Amazonas mergulhavam e do fundo do lago traziam um barro esverdeado ao que seria dada a forma desejada. Depois de sólido, as Icamiabas cortavam uma parte do cabelo suficiente para fazer uma trança e nela penduravam a sua Muiraquitã, o emblema da Mãe das Pedras Verdes, a Yacumana.

Fernando Sampaio comenta que a Muiraquitã, antes de ser relacionada à fertilidade, teria sido um símbolo do poder feminino. Aqueles que negaram a existência das Amazonas, não convencidos pelo relato de Carjaval (fantasia espanhola para agradar o Rei de Espanha) e ignorando o tema mítico comum à diversas tribos brasileiras, esbarram estrondosamente na existência do verde talismã ...

As Muiraquitãs, artisticamente confeccionados em jadeíte, nefrite, ardósia, diorito, estratite ou pedra-cristal, guardam várias formas: cilíndricas, antropomorfas, zoomorfas. As especulações sobre os artefatos, espalhados por diversos museus do mundo e em coleções particulares, são inúmeras. No continente europeu o nome da pedra com a qual era confeccionada a Muiraquitã é chamada de Amazonenstein . A maior parte das Muiraquitãs foi encontrada no baixo Amazonas, adjacências do Rio Nhamundá, local do encontro da expedição de Orellana com as Amazonas. Miticamente, a região das Muiraquitãs é chamada de País das Pedras Verdes.
Barbosa Rodrigues via nos objetos de jade a evidência de antigas migrações asiáticas. Seus estudos foram refutados, mas é certo que até hoje na região amazônica, nas proximidades do rio Nhamundá e Tapajós não são encontradas jazidas do mineral, embora estudos revelem jazidas de pedras verdes na cidade de Amargosa, na Bahia. Normalmente esverdeadas, as Muiraquitãs apresentam, salvo exceções, forma zoomórfica representando sapos, peixes ou tartarugas. A forma mais comum do talismã é o sapo, animal relacionado à magia amazonense e também à cura.

Os mitos que cercam esse pequeno e curioso animal, que tem relações com os elementos fogo, ar e água, são inúmeros. Um dos mais interessantes é o do sapo Aru, aquele que se transforma em homem bonito e seduz a mãe da Mandioca. O Aru é um protetor dos roçados - quando ele surge, a colheita está garantida. Dizem os nativos que a Mãe da Mandioca o acompanha nessas incursões e que, se a roça estiver limpa e organizada, a chuva irá fertilizar a terra. Se a plantação estiver mal cuidada, as pragas impedirão que se retire o sustento. Aru está sempre ligado à sua contraparte feminina, Mani-Cy.
Uma lenda Karajá conta a história do sapo Ar-hã que nas noites de solidão espanta a tristeza cantando - sua canção chama a chuva. Quando a água cai, infiltrando-se no oco das árvores, mistura-se à seiva que o sapo utiliza para fazer os gargarejos que limpam sua garganta e assim ele pode cantar, atraindo a futura companheira. Essa mistura de seiva, água da chuva e saliva formam uma baba que escorre do seu corpo e acumula-se em torno do sapo. A baba, depois de seca, torna-se uma resina que, após ser retirada de dentro da árvore, é usada para fins afrodisíacos, para resolver questões amorosas e ainda guarda propriedades medicinais.
Às Muiraquitãs são atribuídas virtudes terapêuticas e propriedades mágicas que trariam sorte ao seu portador. Quem o trouxer ao pescoço, ao dizer muirakitã catu, será bem recebido onde quer que chegue . Deve ser guardada em um estojo da mais pura prata.
Mário de Andrade, no clássico modernista Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, faz com que o protagonista esteja sempre à procura da Muiraquitã, continuadamente roubada pelo gigante Piamã. O talismã é um presente de Ci, a Mãe do Mato, aqui mostrada como uma valorosa Icamiaba, eterna paixão de Macunaíma.
Pablo Cid , em seu estudo sobre as Amazonas, grafa o vocábulo da seguinte forma: Muiracytã, como sendo de autoria de Barbosa Rodrigues. Fui verificar a veracidade da informação, por me parece razoável e significativa, e encontrei ainda outras denominações para a Muiraquitã, entre elas Nanacy , como no mito de Izy-Jurupary relatado pelo mesmo Barbosa Rodrigues .
A meu ver, existe uma transição entre o tempo do talismã Muiraquitã e o tempo do amuleto Itatuxauá, objeto similar ao Tembetá, transição esta que estaria relacionada à transformação social indicada pelo mito de Jurupary. Não é à toa que Mário de Andrade faz com que Macunaíma transforme a Muiraquitã que lhe foi entregue por Ci em tembetá, assim que a Icamiaba sobe aos céus...
Teodoro Sampaio nos fala de uma peça que representa Yacy, a mãe dos frutos, a Lua; o mês lunar: um ornato feito de um pedaço de concha branca e talhado em forma de crescente . A peça citada é usada unicamente pelos homens, que a trazem pendurada ao pescoço, em uma variação do tembetá, usado tradicionalmente nos lábios. Parece haver também uma relação desta peça com a virilidade masculina, pois o homem que não porta o amuleto seria desprezado pelas mulheres. O brilho do tembetá estaria relacionado aos raios, uma alusão ao "deus Tupã" - uma concepção recente de deus criador, pelo menos para a grande maioria dos povos indígenas, exceção feita aos Guarani.
Alfred Russel Wallace nos descreve o tembetá como o mais valioso, estimado e esquisito ornato do nativo:

Cilindro opaco, de uma rocha esbranquiçada, parecendo mármore, porém de quartzo imperfeitamente cristalizado. Tem de 4 a 8 polegadas de comprimento e uma polegada de diâmetro. São polidas em roda e têm as extremidades achatadas, trabalho esse que exige muita paciência. Em cada uma das extremidades são furadas, e, através desses furos, é inserido um cordão, para conservá-las suspensas ao pescoço. Parece inacreditável que eles possam fazer esses furos em tão dura substância, sem qualquer instrumento de ferro adequado para tal propósito. Dizem os índios que conseguem fazer isso por meio da ponta flexível do broto de bananeira do mato, triturando-se a cavidade com finíssima areia e um pouco de água. Leva alguns anos para ser feito. Todavia, deverá consumir-se um tempo muito mais longo para furar-se a pedra que o tuxáua usa, como símbolo de sua autoridade. Essa pedra é de maior tamanho e fica em sentido transversal sobre o peito. Para esse propósito, é necessário abrir-se o buraco longitudinalmente, de uma extremidade à outra da pedra.


Segundo é informado a Wallace, leva-se duas existências para fazer a pedra do chefe. As pedras são trazidas de longa distância, rio acima, provavelmente bem de perto das cabeceiras do rio, na base dos Andes. Wallace conta que é muito difícil adquirir uma delas, pois tem um valor inestimável para o nativo. É chamada também de muruçú.
Muiraquitã e Itatuxaua, símbolos de poder dos nossos nativos - índices representativos de uma transformação social? Estariam estas peças marcando a mudança de um regime social ? Mudanças ideológicas dentro de um determinado grupo podem fundamentar o nascimento de um mito e a criação de um símbolo. E o mito das Amazonas atesta a existência de uma alteração social, de modo notadamente marcante.
Se as referências históricas não são suficientes para comprovar que em algum momento nas terras do Brasil existiram realmente núcleos que congregavam mulheres sozinhas, servindo como registro verídico, nos basta ter em conta que a vitalidade do mito como realidade psicológica é realmente inegável - afinal, verdades arquetípicas são verdades do espírito.

E o mito, dessa vez, encontrou uma referência bastante substancial - a Muiraquitã.


1CID, Pablo. As Amazonas amerígenas. Rio de Janeiro: Bruno Buccini, 1971.
2PERET, João Américo. Mitos e lendas Karajá, inã son we're. Rio de Janeiro, s/ed, 1979. p.29-31.
3RODRIGUES, Barbosa. O Muyrakytã - estudo da origem asiática da civilização do Amazonas nos tempos pré-históricos. Manaus: Typ. Do Amazonas, 1889.
4CID, Pablo. As Amazonas amerígenas. Rio de Janeiro: Bruno Buccini, 1971.
5RODRIGUES, Barbosa. O Muyrakytã - estudo da origem asiática da civilização do Amazonas nos tempos pré-históricos. Manaus: Typ. Do Amazonas, 1889. P. 29 e 32.
6PEREZ-MARICEVICH.(comp.) Los Fuegos de la notche. Textos de Barbosa Rodrigues/Bartolome/Cadogan/Chase Sardi/Pane Chelli/ Toamsini. Asuncion: Diaz de Bedoya & Gomez Rodas Editores, 1983. p. 43 a 49.
7SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional, 242.
8WALLACE, Alfred Russel. Viagens pelo Amazonas e Rio Negro. Trad.: Orlando Torres. Vol. 156, Biblioteca Pedagógica Brasileira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939. p.445.