Escolhe, pois, a vida

Dom Pedro José Conti,
Bispo de Macapá

É bem conhecido o caso daquele homem que, querendo envergonhar o Sábio, escondeu em uma das mãos, atrás das costas, um passarinho. Depois, na frente de todo o mundo, perguntou-lhe se o que tinha na mão estava vivo ou morto. O Mestre, simplesmente respondeu: - Se o quiseres estará vivo, mas se não o quiseres estará morto. - Com efeito, se o Sábio tivesse respondido que o que tinha na mão estava morto, ele teria deixado viver o passarinho. Se o Mestre tivesse respondido que estava vivo, teria facilmente sufocado a pequena ave. Realmente a decisão e a resposta estavam nas mãos daquele que havia formulado a pergunta.

Todos aproveitamos da vida e queremos viver o mais possível e da melhor maneira, mas poucas vezes nos perguntamos o que poderíamos e deveríamos fazer para que a vida em si, da qual nós todos também fazemos parte, fosse melhor. O sentido da vida é amplo, não basta sobreviver, deixar passar os dias e os anos. Nós todos precisamos dar um significado à nossa existência. Queremos saber mais: de onde viemos e para onde vamos. Por que sofremos? Por que amamos e somos amados? E por fim, questiona-nos, a trágica realidade da morte que nos aguarda, quando o nosso anseio é para a vida. Entendemos que a nossa vida está em nossas mãos; não totalmente, claro, entretanto percebemos que ela nos escapa se não a vivermos com plenitude, compreendendo o que acontece conosco, com os outros e com o mundo.

Recebemos a vida de outros e teremos que entregá-la um dia. Porém a maneira de viver, ter esta vida cheia ou vazia, com esperança ou sem rumo depende de nós, da nossa busca, de quanto também estamos dispostos a arriscar nessa procura. É por isso que a realização da nossa vida não depende somente das condições que também recebemos. Às vezes as limitações nos obrigam a lutar para a afirmação das nossas capacidades e a vida se torna uma preciosidade para nós, algo que construímos com o nosso esforço, não podemos jogá-la fora. Outras vezes, a facilidade das coisas nos leva a desvalorizar os bens que tivemos tão facilmente nas mãos. Podemos chegar a desprezar esses bens, incluindo neles a nossa própria vida. Do mesmo jeito, a busca dos bens materiais, necessários para a nossa vida, pode tornar-se uma obsessão. Nesse caso a cobiça das coisas toma conta de nós, orienta as nossas decisões e as nossas amizades. Não sabemos fazer mais nada sem ganhar e ficamos apavorados quando alguém ameaça os nossos bens. Que vida é essa?

Se nessa reflexão colocamos, pois, a maravilhosa possibilidade de transmitir a vida, ainda mais devemos responder, com urgência, às perguntas sobre a nossa existência. Vale a pena colocar alguém neste mundo para sofrer? Se estamos de mal com a vida responderemos sempre negativamente. Mas se confiamos na bondade do ser humano, se não nos deixamos levar pelos entraves da vida, doar a vida a um novo ser é um hino à própria vida, um agradecimento por quanto recebemos. Ser responsáveis por uma nova vida nos obriga a fazer algo de melhor por ela. A vida não é somente lágrimas, graças a Deus.

A Campanha da Fraternidade deste ano: "Escolhe, pois, a vida", é uma boa oportunidade para nos questionar sobre a vida que conduzimos e de qual vida estamos cuidando. Se a vida vale só pelo dinheiro, a saúde, a posição social, o lucro e o sucesso, poucos vão sobreviver. As "massas sobrantes", que vivem às margens da sociedade, excluídas nas favelas e nos alagados, primeiras vítimas da violência e das drogas; os desempregados do capital; os jovens pedindo valores, trabalho e educação, têm ou não têm direito de viver? Mas qual vida esta sociedade oferece? Uma sociedade que recompensa os já abastecidos, corre o perigo de não ser mais humana. Uma sociedade que não defende os fracos e os desamparados das ameaças e da violência dos poderosos, não é mais uma sociedade boa para se viver. Dá medo, em lugar de oferecer alegria e esperança.

Podemos acreditar, ou não, no Deus da Vida, mas com certeza não devemos querer ter na consciência o peso da morte física, ou espiritual, de tantos inocentes, de tantos que, sem culpa, só recebem os males da vida. Os bens devem ser partilhados, a vida deve oferecer oportunidades para todos, a começar pelos mais desamparados. "Se o pobre clamar por mim, eu o ouvirei" diz o Senhor (cfr.Êx 22,25-26). Deus nos deu o ouvido para ouvir esse grito, não para ficarmos surdos.