40 anos de sucesso unilateral

Roberto Rocha (*)
Folha do Amapá

Foi muito impactante o programa que o PMDB maranhense levou ao ar no dia 24 de maio, em que uma expressiva homenagem foi prestada ao senador José Sarney. O roteiro impecável, com excelentes efeitos de plastia e impacto emotivo, fizeram, daquela propaganda, uma das mais sofisticadas peças já produzidas no Maranhão.

Porém, muito do exposto, da forma como ali disposto, em muito resultou oposto ao que, até então, estava posto. Eu, por exemplo, não sabia que o prestigiado senador tinha sido um paladino pelo fim da ditadura militar e tampouco da campanha pelas eleições "Diretas Já", uma vez que os registros históricos sustentam exatamente o contrário. Acho até que tenha sido algum equívoco da produção, mas isto é apenas um detalhe do paradigma que a iniciativa buscou consolidar: a trajetória de sucesso do senador José Sarney.

Embora também reconheça o senador José Sarney como possuidor de um enorme talento e de uma história de vida de inegável sucesso pessoal e político, não posso, por isto mesmo, deixar de lamentar a pouca sorte dos seis milhões de maranhenses que nada ganharam com o pacto por ele proposto nas eleições de 1965 - que o elegessem governador e, em contrapartida, libertaria os maranhenses do atraso econômico e social, que, segundo ele, decorria de um ardil vitorinista. Os maranhenses fizeram a sua parte e o então jovem e humilde deputado José Sarney foi eleito governador. Deu-se ali, no destino daqueles pactuantes, o ponto de bifurcação para caminhos distintos e diametralmente opostos. Para o habilidoso senador, a ascensão reluzente; para os maranhenses, a frustração deprimente.

Muitos, pelo tempo, já se foram sem a recompensa prometida; outros, pela pouca idade ou por não terem ainda nascido à época - afinal já se vão 40 anos -, não participaram daquele pacto longínquo, que, embora condenado à mais absoluta inadimplência, fez, de todos, seus prisioneiros. Por conta disto, em 70% dos maranhenses, os que vivem com menos de R$ 79 por mês, quando assistiam resignados àquele show publicitário, o barulho rouco do estômago tornou inaudível a sua trilha sonora.

Uma questão está muito nítida para todos. Dos vários cargos galgados pelo senador José Sarney, muito lhe valeu o apoio dos maranhenses, da mesma forma que, no exercício desses cargos, especialmente como presidente da República, inúmeras foram as chances de ajudá-los a melhorar de vida, caso realmente existisse interesse por parte do ilustre conterrâneo. Por esta ótica, aquele programa denuncia a história de sucesso e prosperidade de uma pessoa, enquanto, na outra ponta e entrelaçada pelo mesmo pacto causal, está a trágica história de insucesso de milhões de maranhenses, que amargam os piores índices de atraso econômico e social deste País.

Governador, senador, presidente da República, presidente do Congresso Nacional por duas vezes, esta é a síntese da bem sucedida trajetória política do senador José Sarney, tão bem realçada naquele programa televisivo. Do outro lado, a assisti-lo, além de poucos outros maranhenses, estavam quase cinco milhões de indigentes, seus credores anônimos, com a menor renda, as piores condições de habitabilidade, o maior desemprego, o maior índice de analfabetismo, a maior incidência de doenças, a pior assistência médica, a maior mortalidade infantil, o maior índice de trabalho escravo; em resumo: um dos piores índices de pobreza do mundo. A desigualdade de resultados daquele pacto é chocante, e o próprio beneficiário, tranqüilo, parece desconhecer qualquer saldo devedor.

Mesmo assim, o bem sucedido senador acha pouco, quer mais tempo, mais paciência, mais cargos para si e para os seus descendentes. A idéia que passa, é que ele próprio, sorridente e sem exibir qualquer remorso, dificilmente se dará conta do quanto injusto tem sido com os que acreditaram ou, compulsoriamente, aderiram àquele desvirtuado pacto, e que sofrem na pele, e no estômago, os efeitos de um dos mais cruéis exemplos de descompromisso, descaso, insensibilidade, insensatez e egoísmo, da história deste País.

Sei que alguns poucos, especialmente dentre os beneficiários desse enorme calote social, irão me censurar e até me atribuir destempero. Paciência! É o preço que pagarei pelo compromisso que assumi, comigo mesmo, de não mais assistir passivo a toda essa empulhação, da qual o Maranhão vem sendo vítima nos últimos 40 anos.

(*) Maranhense, administrador de empresas com especialização em Gestão e Políticas Públicas, foi deputado estadual e deputado federal por dois mandatos pelo Estado do Maranhão.


ERRAMOS: Na edição impressa este artigo foi assinado por outro autor. Pedimos desculpas.