Adoção: A demora é a tua decisão

Constantemente ouvimos através da imprensa noticias que dizem respeito à morosidade da justiça, que precisa ser mais ágil, e que sua demora é fator de desistência de muitos pais pretendentes à adoção. Percebo a necessidade de esclarecer e/ou repensar alguns pontos, de forma a dar um novo rumo para que esse processo aconteça com mais facilidade e menos desconforto a população interessada.

Em primeiro lugar, o mais importante na adoção é a criança e seus direitos, que precisam ser preservados. Notamos a procura por adoção quase sempre por casais que não podem ter seus próprios filhos. Após várias tentativas médicas sem sucesso, decidem adotar. Porém, por falta de informação, desconhecem a existência de grupos de apoio atuando em todas as capitais do país, que lhes auxiliam a esclarecer o que é o ato de adotar. Quase sempre seguem a orientação de pessoas menos informadas que fazem as coisas a seu modo, geralmente na contramão do processo comum.

Importante frisar que iremos adotar seres humanos, que por sua vez têm sentimentos, exigindo assim cuidados e, acima de tudo, a construção de uma relação afetiva entre o casal e a criança. O que ouvimos é que a adoção é um processo longo, que se já tivéssemos o registro seria mais fácil e simples e etc. No entanto, nos esquecemos que se não construirmos essa relação afetiva podemos não só deixar de ajudar a criança, como colocar tudo a perder.

Por exemplo, um casal pretendente, fragilizado com a própria historia de vida, ouve de um amigo, vizinho ou outra pessoa qualquer que uma mãe quer dar seu filho. O casal recebe essa criança sem fazer alguns questionamentos básicos, pois a emoção lhes impôs uma venda aos olhos do coração. Em casa, nos primeiros 10 dias, pensam ser as criaturas mais felizes do planeta. Trinta dias depois começam a perceber que a criança chora bastante. Mais quarenta e cinco dias vêem sua cor, seu cabelo, seus traços físicos e algo que não bate com o perfil que definiram outrora. Após noventa dias têm a certeza absoluta de que não era o que estavam procurando.

E daí! O que fazer agora? O casal está com o registro em mãos e a criança adotada legalmente. Crianças a partir de dois anos de idade geralmente são acompanhadas por uma historia de maus tratos, violência, agressão, por isso moram em orfanatos e abrigos, sob a custódia do estado.

Não existe “desadoçao”. Com a rejeição, além de renunciarem à proposta de ofertar àquela criança dignidade, uma família, o que ela mais queria e precisava, cravam mais uma fecha em seu coração. A partir de então, sua historia vai ser contada assim: abandonada pelos pais biológicos e rejeitada pelos pais adotivos. Aquele casal que se apresentava como solução, será mais um obstáculo a dificultar involuntariamente o curso da vida daquela criança.

Para que isso não ocorra, o caminho é simples. O casal deve se inscrever junto ao Poder Judiciário, na Vara da Infância e da Adolescência como pretendente à adoção. O passo seguinte é freqüentar o grupo de apoio à adoção - GEAD - que funciona no Fórum de Macapá, reunindo-se sempre na última quarta-feira de cada mês, às dezoito horas. Acima de tudo, o casal deve construir desde já uma relação sem ansiedade e ter sempre em mente que não estará só.

Entendamos que a adoção é um investimento afetivo. Façamos a seguinte comparação: quando queremos adquirir um bem usado - casa, carro, motocicleta, que seja o que for, avaliamos em quanto tempo podemos fazer uma manutenção ou reformar para se adequar aos nossos moldes. Com a criança é da mesma maneira. É precisa que nos dediquemos, para algumas delas até integralmente durante um certo tempo, de um a cinco anos. Para outras uma vida inteira, a fim de repararmos os nós emocionais, traumas e carências afetivas que por ventura elas possam trazer.

Aquele ser vingará brotando como uma flor da estação, surpreendendo em tudo e a todos, e nos ensinará que precisava apenas de uma oportunidade, uma família, tornando-se alguém como nós, podendo exercer todos os direitos que exercemos, direitos esses garantidos pela Constituição. Sermos facilitadores do crescimento digno desse ser não nos torna mais nobres, corajosos ou cheios de compaixão. Nada disso, apenas estamos retribuindo o que recebemos de nossos pais no passado. Ter uma família e gozar de uma infância sadia e forte ajuda a nos tornar cidadãos de bem.

02.11.2004

Adonis Augusto Marques
Ex Coordenador de Grupo de Apoio a Adoção do Amapá - GEAD