Se não há armação, há tráfico. E agora?

Alcilene Cavalcante Dias


Começo esse artigo com uma frase que usávamos muito no movimento estudantil dos anos 80 : “Durante essa longa noite, aprendemos a manter os olhos enxutos e a intenção de madrugar”.

Foi isso o que aconteceu, mantivemos o olhos enxutos e madrugamos à espera da verdade e da justiça, que vieram através da conclusão do Ministério Público acolhida pela Justiça, em parte do famoso caso Hélio Nogueira, envolvendo meu marido, coronel Ricardo Leão Dias, o tenente-coronel Carlos e o major Corrêa. Digo em parte, porque no que diz respeito a eles está tudo concluído. Mas precisamos aguardar agora com olhos mais enxutos e mais abertos o que irá acontecer com Hélio Nogueira.

A promotora Ivana Lúcia Franco Cei, em seu despacho encaminhado ao juiz da auditoria Militar, Décio Rufino, diz que “ apuradas as denúncias chegou-se a conclusão de que os oficiais não foram autores da armação e sequer houve armação”. Li com alegria, não por medo de que fosse diferente, mas pela certeza de que há mulheres e homens de bem, nas mãos de quem fica a justiça que quando menos imaginamos precisamos que seja feita. E mais do que nunca ter a certeza de que de fato o crime não compensa.

Imaginem se esses oficiais tivessem praticado crime tão bárbaro por motivações políticas, afinal eles nem conheciam Hélio Nogueira. Iriam pagar muito caro, perderiam trabalho, honra e liberdade. Mudou o governo. As investigações foram feitas em outro período. Os opositores políticos fizeram de tudo para tentar incriminá-los e jogar a sociedade contra eles. Já o Hélio Nogueira, achava que por ser um outro momento político, iria poder “limpar sua barra”. Afinal ninguém esquece que ele foi preso com cocaína e esta é única prova que esse caso tem.

Não há mal que não venha para um bem muito maior. Isso é bíblico. “Bem aventurados sois vós quando os injuriarem”, já dizia Jesus. E a palavra de Deus e de Seu Filho sempre se cumpre. A justiça dos homens também.

Muito bem. Terminado o Inquérito Policial Militar, o Ministério Público concluindo que os oficiais Dias, Carlos e Corrêa, são inocentes, e a Justiça também declarando a inocência deles e mandando que reassumam suas funções na Polícia Militar do Amapá é hora de fazer esse desabafo à sociedade.

Tudo foi investigado. E a conclusão é : Não houve armação.Porém, houve uma prisão por tráfico de drogas. Não queremos questionar aqueles que à época do crime acreditaram no canto da sereia da armação política e soltaram quem deveria estar preso. Todos somos passíveis de erro. Quem é esse sujeito que de tão sórdido conseguiu enganar de autoridades policiais a autoridades políticas, se dizendo vítima de armação? Não sabemos.

Sabemos quem somos, nós povo do Amapá, que nascemos ou que escolhemos esta terra para viver, que temos diferenças e divergências sim, mas que não nos impedem de conviver em sociedade. E muito menos nos fazem sair praticando crimes uns com os outros, por causa de nossas diferenças. Hélio Nogueira ... este não sabemos quem é.

Mas a dor nos traz uma força que nem imaginamos que temos. Passei madrugadas debruçada em cada detalhe do inquérito da Polícia Federal feito à época da prisão desse sujeito. Rezei muito para que se houvesse armação, fosse descoberta e ele deixasse nossas famílias em paz. Tudo o que achei no inquérito foi a falta de cuidado de quem apurou e o resultado é uma peça fraca e cheia de falha, baseada em recortes de jornais do Dia e Diário do Amapá e declarações de deputados que viviam às turras com o governo (Hélio era assessor de Fran Junior). Esse foi o inquérito que permitiu que Hélio ficasse solto.

Como cidadã desse Estado, mãe que orienta a cada dia filho pré-adolescente para a gravidade da questão das drogas, exijo e espero a punição desse elemento.

Quanto aos outros que o ajudaram nessa trama, a sociedade saberá julgá-los. O coronel Leonildo, além de estar sendo indiciado por denúncia caluniosa, foi ferido no que mais preza: gravitar em torno dos poderes de governos, desembargadores e promotores. Hoje é uma pessoa sem credibilidade na sociedade e na tropa.

O comandante da PM, coronel Ayres, que segundo a testemunha principal da gravação da fita, foi quem ajudou Hélio Nogueira a grampear ilegalmente o coronel Leonildo, mostrou não ter liderança para comandar a instituição. Pré-julgou seus comandados, expondo e ferindo a corporação. Puniu-os sem saber se eram culpados.

Aos “jornalistas” que trataram suposições de um oficial bêbado como verdade absoluta, e que mesmo estando com a fita (prova material das declarações), usaram-na politicamente, atropelando princípios do jornalismo, da ética e do respeito, convido-os a uma reflexão, que poderá permitir que engradeçam espiritualmente e sejam éticos nas suas atitudes.

Lembro-os que coronel Dias foi ajudante de ordem do governador Nova da Costa e chefe da Casa Militar do governador Capiberibe por sete anos, o ten-cel Carlos foi ajudante de ordem do governador Barcellos e sub-chefe da Casa Militar do governo Capiberibe e o major Correa, também foi ajudantes de ordem, e, todos três já exerceram as mais diversas funções na PM, tem mais de 20 anos de serviço, sem nunca terem sofrido uma punição. Pergunto: Quais destes “jornalistas” que fizeram oposição sistemática ao governo Capiberibe foram vítimas ou tiveram alguém de suas famílias vítimas de armação? Por que seria dada tanta importância a um radialista de quinta categoria? Convido também a fazerem a mesma reflexão os políticos que atacaram os oficiais e saíram em defesa de quem mal conhecem.

Denuncio aqui que Hélio vem recebendo dinheiro público da secretaria de Comunicação do governo do Estado. Um homem que feriu a ferro e fogo uma instituição do Estado, como a Polícia Militar, vem recebendo benesses do próprio Estado. Onde já se viu?!

Hélio já foi condenado pela Justiça a indenizar por danos morais os oficiais que ele acusou quando foi preso. Não que queiramos o seu dinheiro sujo. O que queremos sim é que ele cumpra sua pena e pague por seus crimes.

Nenhum dinheiro pode pagar o sofrimento imensurável de nossas famílias nessa longa noite, que começou em março e termina agora com a decisão da Justiça.