O ADEUS AO ARSÊNIO: UM NEGÓCIO DA CHINA
Antônio Feijão


A chuvosa manhã do último domingo (15) marcou o embarque dos restos mortais do minério de manganês arseniosos, que estavam no pátio da Icomi, em Santana. Na minha mesa, uma cópia do trabalho do velho geólogo Glycon de Paiva, de 1946, sobre as jazidas de manganês de Serra do Navio e os últimos trabalhos do pesquisador Scarpelli sobre os estudos e pesquisas de arsênio e outros metais nas águas do rio Amazonas. Fiquei imaginando como será o debate, de agora em diante, sobre a contaminação de arsênio no rio Amazonas, que despeja no Atlântico, todos os anos, mais de 60 mil toneladas desse metal, vindos das Cordilheiras dos Andes! A população de Macapá e Santana bebe água com altos teores de arsênios há centenas de anos e nunca se debateu ou questionou esses temas.

Logo, deverá aparecer alguém que tenha uma brilhante idéia de embarcar também, em navios, todas aquelas montanhas andinas que diariamente abastecem os rios tributários do Amazonas, com toneladas desses metais (arsênio, mercúrio e outros). Na ilha de Santana, a Caesa fechou um poço tubular que fornecia água para aquela comunidade, 5 anos após a sua inauguração, com a alegação de que o poço estava densamente contaminado com mercúrio, que veio dos vulcões dos Andes, através do gigante Amazonas.

Saibam todos que sempre, - está no relatório de 1946 de Glycon de Paiva -, o minério de manganês do Amapá teve em média entre 1,5 a 2% de arsênio em sua composição. E esse que foi para a China ainda era de menor teor do que os 34 milhões de toneladas de minérios que o Amapá exportou, em 41 anos de lavra da Icomi. Como deve pensar um político Chinês ao ver chegar, em seus portos, três navios em menos de 100 dias, com quase 110 mil toneladas do melhor manganês do mundo, pronto para virar aço tendo como custo apenas o frete? Esse político chinês deve pensar com os seus poucos botões: o Amapá deve ser um estado sem pobres, com um povo muito rico e que não precisa vender as suas riquezas. Ou talvez, pense mais sistemicamente com a alma confuciana: nesse Amapá deve ter um programa de Governo que ajude o povo da China, afinal somos 1,3 bilhões de habitantes, os ricos do Ocidente devem ajudar os pobres do Oriente.

O Brasil está refém de dois grandes males da vida contemporânea: a hipocrisia que atinge boa parte dos meios acadêmicos e formadores de opinião e a falta de “atitude” da grande maioria de seus governantes e políticos. Temos uma ferrovia de 200km que sai de Serra do Navio, onde ainda estão estocados em seu pátio quase 4 milhões de toneladas de minério de manganês, hoje avaliados em aproximadamente US$55 milhões. Ao passar pelo Distrito de Cupixi, essa mesma ferrovia se encontra a 30 Km de outra jazida de ferro de quase 30 milhões de toneladas desse minério, prontos para virarem ferro-gusa e gerarem milhares de empregos, naquela pobre e esquecida região do Amapá. Não é muito chato, ou técnico demais, dizer que ao lado desse minério de ferro existe também em atividade uma boa e valiosa jazida de cromo que poderá ser valorizada com a entrada em produção, da futura mina e siderúrgica de ferro do Vila Nova.

Está na hora de agirmos com responsabilidade! O Amapá de hoje é um desafio do presente. Somos mais de 130 mil desempregados e não podemos esperar que alegorias constitucionais ou leis milagrosas façam o nosso futuro. O Estatuto da Criança e o recente Estatuto do Idoso estão aí para provarem que as leis não transformam sozinhas as realidades de uma sociedade. É preciso atitude e ações concretas dos políticos e governantes de plantão. Apenas com investimentos e infra-estrutura é que conheceremos o verdadeiro crescimento econômico. Não vamos mais sermos platéia de mercadores de ilusões ou de ongueiros plantonistas que fazem de suas alucinações ambientais, o mister de seu ganha pão. O Amapá precisa de um projeto de vida e de ações firmes que renasçam a esperança quase perdida de sua gente.

Há sete anos, esperamos uma definição do patrimônio da Icomi. O Porto ficou, na minha opinião, indevidamente com a Amcel (hoje Internacional Paper); a ferrovia aguarda uma extrema-unção da Justiça que poderá ir para as calendas; e o minério de manganês, em Serra do Navio está, aparentemente, esquecido. Daqui a dois anos, mais de vinte milhões de toneladas de soja irão sair de Itaituba no Pará em balsas graneleiras e poderão ter o seu destino no Porto de Santana, onde seriam reembarcadas em navios de alta capacidade. Isto só acontecerá se formos competentes e rápidos para atrairmos os investidores e produtores do Mato Grosso. Caso contrário, os portos beneficiados poderão ser apenas os de Santarém, Barcarena e de Belém. É boa a hora de lembrarmos Gustavo Capanema quando disse: “Na carreira política, o que mais importa não são as alturas alcançadas mas o caminho percorrido”. É hora de agir para caminhar e rapidamente!

Imaginem agora aquele político chinês sabendo ainda que no Amapá estão querendo explorar calcário que não existe e esquece-se de explotar as jazidas de minérios já existentes e que valem milhões de dólares. Acho que com essa do nosso Amapá de mandar de graça esse minério de manganês para o Oriente, até o dito popular terá que mudar. “Negócio bom não é um negócio da China, é sem dúvida um negócio do Amapá”.

Santana, 15/02/2004

Antônio Feijão é presidente da Fundação Amazônica de Migrações e Meio Ambiente