Artistas valem menos que cães?

Por: Chico Terra

A fundação estadual de Cultura do Amapá está inadimplente há onze meses com alguns artistas. A cantora Maria Ely, é um exemplo da falta de vontade da Fundecap em resolver a situação deles. Sem alternativas de espaço de trabalho, os músicos se submetem tocar por cachês irrisórios sem nenhuma estrutura de apoio. Para se ter uma idéia, no Museu Sacaca na gestão anterior, as apresentações eram de três horas divididas por dois músicos que recebiam cada um R$300,00, mais a estrutura de som. Hoje, o cachê se reduziu para R$100,00 onde apenas um artista se apresenta durante três horas. Conclusão: achatamento de salário, aumento de serviço e conseqüente aborto de postos de trabalho, uma vez que a figura do profissional de sonorização foi excluída.

A desvalorização do trabalho do artista local no Amapá é gritante. Enquanto trios elétricos que não representam nada para a cultura do estado que levam daqui verdadeiras fortunas, tem todo apoio oficial, os artistas estão à míngua. A classe é unânime em afirmar o desvio dos objetivos da Fundação que existe porque existem os artistas, quando paga seis mil reais para um projeto de adestramento de cães chamado “Projeto Agility” . Pergunta-se:

Adestramento de cães pode ser considerado CULTURA?

A Beira-rio, desde que foi re-inaugurada pela prefeitura municipal de Macapá está fechada para o trabalho dos artistas. O prefeito João Henrique chegou a sentar com o presidente da AMCAP, Zé Miguel onde ele acenou positivamente que iria abrir a praça apenas para apresentações de voz e violão, mas em virtude do projeto “Arte Cidade”, considerado por muitos um palanque político, as negociações foram abandonadas por parte da prefeitura, num claro descaso pela situação do artistas que passam por dificuldades de toda ordem. Enquanto isso, a clientela dos quiosques se afasta, pois falta uma atração que compense a permanência pagando mais caro que nas barraquinhas que ficam ali perto. O Lula, proprietário do Maresias, afirmou que está contabilizando prejuízos sem a presença de um músico tocando no seu quiosque. “Olha só, numa quinta-feira como esta, isso aqui tava lotado uma hora destas”, afirmava gesticulando. “ Não sei por có diquê o prefeito não libera a música!”

Nossos artistas estão deixando o estado para poder sobreviver. A cantora Lia prestes é uma que se mandou para a França por não suportar a falta de perspectiva no estado. Oneide Bastos, cantora e compositora que viajou para a guiana francesa onde representou o estado sem nenhum apoio oficial, já pensa também em abandonar o país. O Amapá é um celeiro imenso de talentos artísticos, mas a falta de uma política cultural definida, faz com que a cada governo poucos tenham privilégios em detrimento da maioria e neste, não poderia ser diferente. Urge que se desvincule a arte da política partidária. Que a cultura seja gerida pelo maior interessado nela que é o próprio artista. Muito difícil é alguém que nunca suou em cima de um palco, entender que o suor do artista é tão valioso quanto o do trabalhador braçal cavador de fossas. O suor do artista, não brota apenas da emoção, mas antes e acima de tudo do esforço empreendido durante sua performance. Música é trabalho duro, mas para a desgraça do artista, quando ele afirma ser músico ainda tem gente que pergunta:

“ Mas, em que você trabalha mesmo?”

A quem recorrer quando as vozes dos nossos representantes se calam?. Será que nosso querido ministro da cultura Gilberto Gil sabe disso? Claro que sabe, ou não, como diria Caetano. Apelamos então à ele, caso ele também não nos ouça por ser o Amapá um ponto distante no mapa do Brasil, apelaremos em última instancia à Deus.

Misericórdia Senhor!

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Chico Terra - Assessor de Comunicação Social da AMCAP
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