ATRASO E PERDA DE TEMPO

João Silva

Por que na política e na administração pública - sai governo, entra governo, se perde precioso tempo com um trabalhinho indigesto, como a perseguição à adversários políticos e destruição da imagem alheia? Mais grave do que isso, muitas das vezes - de parte de quem assume, é sair por aí desativando serviços que deram certo, deixando de lado obras necessárias, programas que deveriam ser mantidos, substituindo, apagando traços na tentativa de decretar a “morte” política dos seus antecessores e das administrações que ficaram para trás.

Sem dúvida perdemos muito com tanta inutilidade, gastamos tempo e dinheiro, no Brasil, com essa prática infeliz. Claro que tanta bobagem acaba prejudicando o desempenho de instituição importante como o poder executivo. E não está se discutindo - nem poderia se discutir, o direito que tem cada governo de pensar e ter seu próprio programa, de cumprir promessas de campanha, de criar e inaugurar seu estilo de governar. Parece que a dificuldade dos políticos - notoriamente de ordem pessoal, ou motivada pela visão distorcida do poder, transcende a esse entendimento comezinho em qualquer país civilizado. Isso estimula a solução de continuidade na adminstração pública, o que pode ser evitado com a instalação de um processo de transição democrático, transparente, seguido do compromisso de respeito às conquistas obtidas pela sociedade em razão da atuação deste ou daquele governo

Nem a propósito, Aloísio Mercadante assoma a tribuna do Congresso para festejar os avanços do governo Lula, mas não desassocia a mega safra brasileira, por exemplo, do governo de FHC, onde teria começado; ao mesmo tempo exige oposição responsável e rebate trecho de manifesto do PSDB e aliados omitindo a participação dos petistas no processo lento e doloroso de redemocratização do Brasil. Reconhecer virtude nos opositores é um gesto de coragem, mas o senador do PT foi mais adiante: colocou a sociedade acima dos interesses menores, de grupos ou não, de partidos ou não. Os acertos de um governo pertencem ao povo, devem ser melhorados, se possível, e os desacertos deixados de lado, caso não se constituam crimes de responsabilidade.

No Amapá se gasta uma fortuna, ninguém mede conseqüências para se apagar a imagem de um governo que tenha encerrado seu ciclo; se der na veneta do poderoso de plantão, nem um excelente serviço de atendimento à população, na área de saúde, como o 1520, escapa; ainda comete-se o absurdo de se destruir uma praça inteira, como a do estacionamento do Banco do Brasil, que bem poderia ter sido adaptado ao projeto de construção do entorno da Fortaleza de São José, sem qualquer prejuízo à beleza arquitetônica e funcionalidade da obra necessária à valorização do patrimônio histórico do Amapá. E de Brasília, pelo telefone, eis que José Sarney dar o ar da graça para dizer no rádio - sem corar, talvez, que não ajudou o Estado, nos últimos oito anos, porque não cruzava os bigodes com o governador João Capiberibe. É o paroxismo da traição a um povo de boa fé.

Parece mesmo que os políticos conservadores e a velha cartilha ensinando-lhes os atalhos e as “vantagens” da falta de escrúpulo - ou de como não se deve fazer política e administração pública, são eternos, transpirando a presunção de sempre, promovendo a gastança que alegram os que ganham com isso: marketeiros oportunistas, agências de publicidade e a imprensa comprometida...Nem o PT, convocado pelas circunstâncias, para cumprir mandato de oito meses no Palácio do Setentrião, abriu mão dessa coisa medonha. Também gastou uma grana preta para dotar de “cara” própria a administração de Dalva Figueiredo, que inaugurou obras inacabadas, borrou a cidade de vermelho, mandou o desenvolvimento sustentável para o espaço e criou a versão tucuju do orçamento participativo.

Vejo agora o entusiasmo do novo governo por aquilo que está chamando de “rota turística” - um passeio que pretende levar turistas através do Igarapé da Fortaleza até à Lagoa dos Índios, em pleno perímetro urbano de Macapá. É uma idéia bonita, cara, mas é urgente, urgentíssima? Acho que não, para uma capital de estado que reclama infra-estrutura, saneamento básico, bairros limpos, malha viária, praças bem cuidadas, segurança pública e a conclusão de obras importantes para o desenvolvimento do turismo no Amapá. Nessa linha de raciocínio poderia se pensar em continuar a urbanização da orla fluvial de Macapá, terminar a obra do entorno da fortaleza e se investir pesado na conclusão do Complexo Turístico do Marco Zero do Equador - o estádio Zerão e o Sambódromo reclamam obras complementares e a urbanização da Avenida Equatorial se arrasta há mais de três anos, compondo um cenário de abandono, agravado pela invasão de área nobre (seringal), a priori destinada a construção de um parque no meio do mundo.

É bom dizer que, passados seis meses da posse, os amapaenses continuam acreditando na sensatez e competência da nova administração, toda ela centrada na figura serena do governador Waldez Góes, que tem se preservado das exacerbações que prejudicam qualquer governo. Ele sabe que para tocar um estado tem que pensar primeiro na sociedade. A grande sacada é não perder tempo com ações negativas. O que foi bem feito no governo passado, foi bem feito e pronto! Cabe ao novo eleger prioridades, corrigir rumos, evitar erros, conter a voracidade da “fauna acompanhante”, e fazer melhor que seu antecessor. Isto, sim, é trabalhar pela sociedade, é não perder tempo perseguindo adversários políticos, é não gastar o dinheiro do povo em propaganda enganosa. Ou dar ouvido à pequenez dos que estimulam confrontos, fazem comparações inúteis ou pensam que o governo existe para atender suas ambições e nada nada