MORRE BEBÉ TACACAZEIRA

João Silva

Morreu em Belém, nesta quarta-feira, Raimunda Cezarina Rodrigues de La-Rocque, a Bebé Tacacazeira, que há 46 anos substituía a mãe, D. Dica, falecida em 1958, quituteira e que também vivia do ofício de preparar e vender delícias ao entardecer, bem ao lado da igreja de São José.

Claro, não é preciso dizer que a cidade perde um pouco do seu charme e poesia sem a presença da Bebé, ali, todos os dias, britanicamente às quatro horas da tarde diante da sua banca de delicias, a nos dá prazer com seu vatapá fumegante, tacacá energético, beijo-de-moça, cocadinha, brigadeiro e torta de banana para adoçar a vida.

Nos últimos 20 anos, pelo menos duas vezes por semana, encostava minha gulodise na banca de delicias da Bebé. Invariavelmente pedia um tacacá, pra começar, mas podia, depois, degustar outros itens daquele inesquecível menu de fim de tarde.

Na sua banca de delícias, Bebé recebia a freguesia com carinho e atenção, independente da posição social de cada um dos que ali iam apreciar seus quitutes; todos eram atendidos democraticamente pela vez. E disso não abria mão, mesmo que a última cuia de tacacá - pela ordem de chegada, fosse servida a um operário e não a um Desembargador ou Governador do Amapá...

Eu chegava e fazia meu pedido, que entrava na fila; estando na minha vez, lá vinha a perguntinha que me incomodava: Com pimenta ou sem pimenta? Ela sabia que era com pimenta, ou melhor, com pouca pimenta, e por que toda vez tinha que me perguntar a mesma coisa?
Como curiosidade mata, pedi explicação a velha amiga sobre a força do hábito, a propósito daquela perguntinha indefectível. Nada demais, segunda ela...Aprendera com a mãe que a pessoa se sente respeitada numa coisa que é importante, a sua saúde, e perguntar, neste caso, nunca é demais, mesmo que se conheça o gosto do freguês.

É essa mulher sensível, que nunca vi de cara feia, que trabalhava com alegria, que foi embora para sempre e deixa a cidade um pouco mais insípida, menos doce, menos energética sem o poderoso tacacá das seis...Aliás, como ficará o centro sem aquela formidável quituteira que todos dias reunia uma pequena multidão em torno da sua banca de delicias? Sem a Bebé, o que vamos degustar ao cair da tarde? Talvez nos reste a doce certeza de que esta cidade não a esquecerá, como jamais esqueceu o lendário pão do Sandó, o picolé do João Assis, o açaí do Cabral e as milagrosas garrafadas do “doutor” Sacaca.

Que minha amiga Bebé descanse em paz, com a justa homenagem que lhe presta a Câmara de Vereadores, que nada mais é que a imorredoura gratidão do povo de Macapá.