BOI DA LUA DO AMAPÁ

Tenho conversado muito com o professor Nilson Montoril de Araújo, um pesquisador da História do Amapá que trabalha há muitos anos coletando e sistematizando dados. Seu trabalho, que freqüentemente é publicado sob a forma de artigos e matérias, é bastante respeitado e citado por todos aqueles que necessitam de informações. E aqui no Amapá, onde as fontes quase inexistem, intelectuais da sua estirpe são raros - pois já estamos desfalcados de Estácio Vidal Picanço (1936-2004), cujos últimos anos foram perdidos por causa de sua enfermidade e que só publicou uma obra: Informações sobre a história do Amapá (1981). Também se foram Hélio Pennafort (1938-2001) e Coaracy Barbosa (1923-2003), que divulgou centenas de biografias. Permanecem em atividade, sobrevivendo do serviço público e com pouco tempo e recursos para pesquisas os historiadores Fernando Rodrigues dos Santos, Paulo Morais, Edgar Rodrigues e Nilson Montoril, que em breve publicará alguns livros.

Pois bem, o professor Montoril, profundo conhecedor da cultura popular, tem reclamado, e com razão, porque o Amapá, apesar de contar com mais de 40 mil maranhenses, não tem a brincadeira folclórica do bumba-meu-boi mais disseminada. Eu então lhe falei que nós temos o Boi da Lua do Amapá, que desde 1996 se apresenta na Rodov. Duque de Caxias, km 2, no terreno do Flávio Sena (ao lado da sede campestre da Monte & Casa e Construção). Este ano, depois de uma vaquinha entre os responsáveis, um novo boi foi adquirido em São Luís e adornado com motivos do Amapá: a Fortaleza e o Marco Zero do Equador.

Tudo começou no núcleo familiar, de modo discreto e só para matar a saudade, pois somos várias famílias de maranhenses e de riograndeses do Norte que há mais de 30 anos moram e trabalham no Amapá. Antônio Paulo Pereira e Silvinha, Willams César do Nascimento. Dirk Pereira, Flávio Sena e Antônia Maria, dona Sebastiana e Antônio Pereira, Zé Maria, Abelardo Pereira e seus filhos, Juvenal Torres, Agnaldo Vieira e família, Socorro Pereira - na maioria comerciantes do ramo de panificadoras e lojas de confecções e funcionários públicos. Esses são apenas alguns dos principais responsáveis - e é bom que fique bem claro, não somos um grupo de profissionais, pois somente a partir deste ano sentimos a necessidade de divulgar mais o bumba-meu-boi ao descobrirmos que muitas pessoas gostam e nos pedem para participar. Por enquanto estamos sem cantadores e compositores (mas o Nilson Montoril já escreveu uma toada!) e nos valemos das centenas de canções de Papete, Coxinho, os bois de Axixá, Boizinho Tucum, Boizinho Barrica, Boi Pirilampo e tantos outros grupos que fazem sucesso no Maranhão e pelo Brasil afora - e até noutros países.

O folclore é uma manifestação forte e autêntica da cultura popular. Não podemos falar, de modo restrito, em folclore amapaense, carioca, paulista, catarinense - mas podemos afirmar, sem medo de errar, de que há folclore no Amapá, no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Santa Catarina e em qualquer outro lugar. Portanto, o bumba-meu-boi, que recebe outras denominações, adereços, personagens, instrumentos, ritmos e formas pelo Brasil afora, é um dos folguedos que mais agradam ao povo. No Maranhão, Rio Grande do Norte e Alagoas é chamado de bumba-meu-boi; no Pará e Amazonas é boi-bumbá e pavulagem; em Pernambuco é boi calemba; no ceará é boi de reis, boi surubim e boi zumbi; na Bahia é boi janeiro, boi estrela do mar, dromedário e mulinha de ouro; em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Cabo Frio é bumba ou folguedo do boi; em São Paulo é boi jacá e por aí afora, como diz o Barcellos...

Portanto, o Boi da Lua do Amapá, hoje composto tanto de maranhenses como de amapaenses, paraenses, riograndenses e gente de outros estados, mantém viva essa tradição popular, cujas origens estão perdidas nas sombras do tempo, mas que possivelmente iniciou com os colonizadores portugueses no século XVIII - há autores que afirmam que surgiu com o ciclo do gado, mas não creio muito nessa versão. Segundo a principal lenda do boi (representada nos autos), Catirina, mulher do Chico, um vaqueiro, desejou comer língua de boi - não de qualquer boi, mas do boi mais bonito, famoso e querido do patrão. Para satisfazer a mulher, Chico mata o boi e foge com a mulher. Mas o patrão manda capturá-los. Depois de interrogatórios, ameaças, um pajé acaba ressuscitando o boi, que dá um grande urro. Esse enredo simples, que mistura tragédia, comédia e drama, ao longo do tempo vem sendo adaptado e recontado, cantado nas toadas e encantando inúmeras gerações.

Segundo o pesquisador e acadêmico Américo Azevedo Neto, os grupos de bois se dividem em três: Grupo Africano (uso de zabumba, ritmos com fortes traços de samba, idéia de marcação, uso de chapéus de fitas, sempre um novo enredo e o baiado (dança, coreografia) cheio de coleios e gingas. Grupo Indígena (uso de matraca na percussão, batidas uniformes no ritmo, uso excessivo de penas nas roupas e no baiado, movimentos bruscos, passos repetitivos. Já o Grupo Branco, mais moderno, usa instrumentos de sopro, tem o ritmo parecido com o baião, utiliza-se de poucas fitas e penas. Mas isso muda bastante e os grupos sempre buscam novas coreografias, novos instrumentos e adaptam os autos, sempre buscando a sincronia com os tempos atuais.

Neste mês de junho, mês do folclore brasileiro, peço uma reflexão para que se valorizem essas tradições brasileiras. Tomara que nós, do Amapá, saibamos preservar o nosso folclore, possamos mostrar aos nossos filhos essa riqueza ancestral. Fico triste quando percebo que tão poucos ainda participem dos festejos do marabaixo, que parece estar restrito a algumas comunidades de afrodescendentes. Creio que as escolas deveriam desde muito cedo estimular as crianças a conhecer o folclore e a cultura, e não se limitar a realizar “semanas”. Cultura é um exercício diário, permanente, parte essencial da nossa vida, e não apenas desenhos, redações e teorias decorebas supérfluas e a eterna espera de recursos governamentais. Não podemos jamais abrir mão desse tesouro, tão ou mais importante do que o aprendizado de matemática, português e geografia. Pobre da sociedade que não valoriza sua história e sua cultura, e que relega a simplicidade e a magia do conhecimento e da sabedoria do povo.

Paulo Tarso Barros
(escritor e professor, presidente da Associação de Escritores e membro da Academia Arariense-vitoriense de Letras)