Bons Sacanas Conservacionistas

Quem mata mais: as mudanças climáticas ou o terrorismo? Fiz essa pergunta aos meus alunos de economia do meio ambiente. Entre as diferentes opiniões, uma me chamou a atenção. “Professor, não sei quem mata mais, mas sei que tanto as mudanças climáticas quanto o terrorismo são conseqüências do capitalismo desorganizado que para manter sua hegemonia e o padrão de consumo dos países ricos abusam da natureza e condenam os países pobres a morte, quer pela guerra, quer pela fome”.

Recente pesquisa divulgada pelo Reino Unido dá conta que as mudanças climáticas matam mais que o terrorismo. Essa pesquisa faz parte da estratégia de ambientalistas em chamar atenção para a dimensão da crise ecológica do planeta. A maioria dos países ricos está deixando de investir em programas de cooperação para investir em programas de reconstrução de países destruídos pela guerra, que eles mesmos comandaram, como no Iraque.

O Governo Brasileiro não reconhece a área ambiental como estratégica para o desenvolvimento do País. A área ambiental ainda é vista como “entrave ao desenvolvimento”, pois ainda prevalece a visão de desenvolvimento como “construir coisas e não construir pessoas”.

A maioria dos recursos aplicados na área de meio ambiente no Brasil é fruto de cooperação internacional, tendo a Alemanha como principal doador. Ações de conservação na Amazônia são prioritárias para os investimentos internacionais. No Amapá, o órgão estadual de meio ambiente recebeu da cooperação internacional recursos da ordem de R$ 5 milhões. Muito aquém do que realmente necessita para estruturar um modelo de gestão ambiental inteligente. Considero gestão ambiental inteligente aquela que inova tecnicamente, que tem autonomia econômica e legitimidade social.

A cooperação ambiental internacional no Amapá tinha o acompanhamento de peritos dos paises doadores. Uma espécie de “olheiro” da boa aplicação dos recursos. O primeiro perito no Amapá foi um Belga truculento que ficou por aqui entre os anos de 1998 e 2000. O Belga foi sucedido por uma Inglesa, Jane Lovel, um doce de pessoa, que discordava do apoio do Governo Britânico dado por Tony Blair a George Bush. Jane Lovel está atualmente no Iraque trabalhando com comunidades carentes, entre o rio Tigre e Eufrates.

Entretanto, as cooperações ambientais internacionais na Amazônia têm se dado de forma assimétrica, pois não perdemos aquela mania colonialista de estender tapete vermelho para o que é de fora e acabamos por acatar decisões unilaterais, quase sempre as “deles”.

Agora que o IEPA tem comando, uma atenção maior deve ser dada para as pesquisas sobre as mudanças climáticas para contribuir para um melhor conhecimento de suas conseqüências globais. Áreas verdes, como as dos Amapá, contribuem para amenizar o problema devido à capacidade da floresta em sequestar a poluição dos países ricos. O problema é que os países ricos se recusam a pagar o valor devido por esse serviço ambiental e ainda por cima tutelam a conservação nos países pobres com migalhas.

A sociedade deve ficar atenta para os discursos conservacionistas dos amigos da natureza, que em sua essência serve apenas para manter o “status quo” de suas instituições e dar continuidade ao projeto capitalista de poder. O Amapá é a mais nova rota da biopirataria institucionalizada comandada pelos “bons sacanas conservacionistas”.

Marco Antonio Chagas