UMA POSSÍVEL REVOLUÇÃO NA MANEIRA DE PENSAR O CANDOMBLÉ

A palavra candomblé é sinônimo de religião africana. Sempre foi e é usada ainda neste sentido. Isto explica muitas coisas. Vejamos. O negro foi arrancado de sua terra e vendido como uma mercadoria, escravizado. Aqui ele chegou escravo, objeto, de sua terra ele partiu livre, homem. Na viagem, no tráfico negreiro, ele perdeu personalidade, representatividade, mas sua cultura, sua história, suas tradições e raízes, suas paisagens, suas vivências vieram com ele. Estas sementes, estes conhecimentos encontraram um solo fértil aqui no Brasil, uma terra parecida com a África, embora estranhamente povoada. O medo se impunha, mas a fé, a crença - o que se sabia - exigia ser expresso. Surgiram os cultos (onilé - confundidos mais tarde com o culto do Caboclo, uma das primeiras versões do sincretismo), surgiu a raiva contra a opressão e a repressão, e a necessidade de ser livre. Apareceram os feitiços (ebós), os quilombos, fruto da organização dos negros.

Os trezentos anos da história da escravidão do negro no Brasil, atestam acima de tudo, a resistência e a organização dos negros. A cultura africana sobreviveu para o negro através de sua crença, de sua religião. O que se acredita, se deseja, é mais forte do que o que se vive, sempre que há uma situação limite. A religião, sua organização em terreiros (roças), foi como muito já se escreveu, a resistência negra. Resistiu-se por haver organização. A organização consigo mesmo. Cada negro tinha, ou sabia que seu avô teve, um anjo de guarda, um guia, um orixá protetor.

No meio dos objetos traficados - os escravos - haviam jóias raras: Babalorixás e Ialorixás. Estes sacerdotes, inteiros nas suas crenças, criaram e recriaram a África no Brasil. Esta mágica, esta organização reestruturante só é possível de ser entendida se pensarmos no que, é a iniciação todo processo que implica e estabelece a magia e beleza da tradição afro-religiosa . A cana de açúcar do Senhor de Engenho era plantada por Iawôs recém saídos das camarinhas, dos roncós, todo trabalho era executado por recém iniciados no Orixá.

A força se espalhou, o Axé cresceu e apareceu na sociedade sob a forma dos terreiros de candomblé - religião de negros yorubás como é definido no Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda. Era coisa de negros, portanto escusa, ignorante, desprezível e rapidamente traduzida como coisa ruim, coisa do diabo. Bem e mal, certo e errado, branco e preto. Antagonismos opressores, sem possibilidades alternativas. O negro resolveu então, tentar agir como se fora branco, para ser aceito. Ele dizia:

- meu Senhor, a gente tá tocando para São Jorge, que é seu Santo! Não é para Ogum, assim nasce o sincretismo, forma de resistência que criou grande ônus, severas cicatrizes desfiguradoras. O processo social, a dinâmica é implacável. A imobilidade não se mantém. O filho do africano já dizia que não confiava em negro brasileiro, por este motivo muitos conhecimentos deixarem de ser transmitidos e se perderam na memória dos velhos babás. Muito se perdeu, a terra africana reduziu-se a pequenos torrões, o candomblé era eficaz; o Senhor procurava a negra velha para fazer um feitiço, para que lhe desse um patuá, para que lhes desse um banho de ervas sagradas para alivias suas dores, para lhe curar de suas angustias ...

Mas os grandes iniciados, iguais àqueles criadores da terra africana no Brasil, ainda existem. O Babalorixá Odé Olú Fonnin, Pai Marcos de Oxossi, em pequeno discurso no encerramento de um ritual de iniciação em seu templo religioso "Ilê Axé Ibi Olú Fonnin", lembra-nos que "os rituais de iniciação tem se tornado cada vez mais escassos em Macapá e isso se deve ao fato de que poucas pessoas se submetem a passar pelos sacrifícios e preceitos exigidos em uma iniciação, sem contar também o alto custo deste ritual, haja vista, que boa parte do material usado no ritual é oriundo da África e quando chaga ao Brasil passa por Salvador, Rio e São Paulo, sempre agregando novos valores, e finalmente quando aqui chega, chega com preços não muito acessíveis" e termina seu discurso fazendo um apelo aos demais sacerdotes de Macapá, "que pensem bastante antes de estipular preços para a realização de rituais de iniciação em seus templos, pois a cobrança de somas muito altas tem afastado muitas pessoas de nossa religião. Os mais antigos estão envelhecendo e se não iniciarmos ninguém a quem confiaremos futuramente nosso Axé? Corremos o risco, aqui em Macapá, de extinguir-mos enquanto religião". Odé Kayode - Mãe Stella de Oxossi , em 1983, dizia: "Iansã não é Santa Bárbara", e explicava. Mostrou que candomblé não era uma seita, era uma religião independente do catolicismo. A terra tremeu; algumas pessoas falavam: "- sempre fomos à missa, sempre a última benção, depois da iniciação, era na Igreja, fazemos missa de corpo presente quando alguém morre, não pode mudar isso". Era a tradição alienada versus a revolução coerente, era a quebra do último grilhão, ainda hoje em Macapá, alguns de nossos irmãos antes de algumas festas de Orixá ou de Caboclo mandam rezar ladainhas ou fazem procissão de santos católicos, mas em alguns lugares esta realidade é totalmente diferente, como exemplo temos o sacerdote Walmir da Luz Fernandes, defensor árduo da separação total entre catolicismo e Tradição Africana de orixás. Para ele o sincretismo foi no passado um importante foco de resistência e preservação da cultura e religiosidade negra, mas hoje ele apenas representa uma gradual cristianização de nossa religião e a forma como o candomblé é professado em regiões como Rio e São Paulo são exemplos disso .. A represa foi quebrada e as águas fertilizaram os campos quase estéreis da sobrevivência. O negro é livre. Veio da África, tem uma história, tem uma religião igual à qualquer outra e ainda, não é politeísta, é monoteista: acima de todos os Orixás está Olodumaré.

Agora um novo limite, uma nova configuração se instala. Neste início de século com a corrosão das instituições religiosas tradicionais, com o surgimento de novas religiões, com as doutrinas esotéricas alternativas, o candomblé, agora considerado religião, é visto também como uma agência eficiente: resolve problemas, cura doenças, acalma as cabeças. Os brancos querem ser negros, já não se ouve "o negro de alma branca", agora o privilégio é ser um branco de alma negra, ter ancestralidade, "ter enredo, história com o Santo". E esta discussão se torna campo fértil para que nós também possamos analisar o que se tem feito para modificar a visão estereotipada com a qual somos vistos a anos, o que temos feito para enriquecer e manter cada vez mais forte nossas cultura e religiosidade dissociada de qualquer outro credo. Nossas tradições tem que ser mantidas, acredita-se que o cisma das religiões cristãs possam propiciar um debate o mais linear possível, mas nossa organização será fundamental para que possamos reverter o quadro que se instalou a séculos para que sejamos respeitados não só pelo outro mas também por nós mesmos.


Alan Farias Sales / Ingomba N'aruanda.