Não é mesmo, Caetano Veloso?

Renivaldo Costa - Jornalista e graduando de Ciências Sociais

Além da Reforma Agrária, temos no Brasil, a necessidade urgente de um tipo de reforma que não costuma ser comentada. Uma Reforma Intelectual.
A "elite" brasileira (e me incluo nessa) tem uma educação formal relativamente boa e vive, muito além da questão econônico-social, numa ilha intelectual.

Estudamos em colégio particular, temos aulas de línguas (por obrigação, é claro, pois como todo adolescente que se preze, achamos isso tudo um saco!), depois fazemos cursinho, entramos em uma boa faculdade e tudo bem se não passarmos na universidade pública, porque nossos pais se apertam um pouco, mas conseguem pagar mais alguns anos de uma faculdade particular; temos nossos canais a cabo, podemos viajar nem que seja para Belém nas férias e até fazer intercâmbio com os crioulos da Guiana Francesa, que maravilha!

Até aí, tudo bem. Não acho que temos que nos culpar por termos essa "sorte". O que me realmente incomoda, é o orgulho em que muitas dessas pessoas (e aí, felizmente, não me incluo nessa classe), em ter a "exclusividade" de acesso ao conhecimento.

Há muito tempo fazem questão de afirmar que toda produção intelectual voltada para o povo é ruim.
Muitas vezes isso realmente acaba acontecendo. Porém quem produz esse material, são essas mesmas pessoas que o criticam.

Na publicidade (ou pseudopublicidade amapaense já que nem temos publicitários por aqui), por exemplo, somos bombardeados por lixo disfarçado de propaganda de varejo, e os próprios criadores deste lixo já se convencerem de que se "está ruim, tudo bem, é pra varejo mesmo .".

Durante minha curta estada em Curitiba em 2002, me dei conta que o mesmo cara que cria um slogan "genial" e irritante para um grande anunciante, passa a sua tarde de sábado, tomando um café num cine clube metido a besta, assistindo algum filme de nacionalidade excêntrica (e provavelmente com o nome substantivado como, " O Escafandro").

Como eu trabalho com jornalismo há dez anos, mas sempre estou envolvido com produções publicitárias ou pelo menos conheço muita gente que trabalha com isso, acabo tendo o desprazer de ver, muitas vezes, curtas e vídeos que exprimem bem a necessidade que essas pessoas têm em produzir coisas completamente sem sentido e que de preferência que remetam, em algum espasmo perdido, à outras coisas sem sentido (porém conhecidas pelos frequentadores desse mundinho), com a desculpa de que isso só pode ser apreciando por quem "entende de arte".

Um dia vi uma entrevista em que o diretor Daniel Filho afirmou não gostar de novelas. Isso mesmo, aquele cara que já fez par romântico com a Renata Sorrah numas 25 vezes nas novelas dos anos 80, não gosta de novela. Como assim ?

Para piorar, quando resolve fazer um filme para o cinema (local onde teria espaço para sair da linguagem que aparentemente odeia), acaba fazendo um filme dentro dos mesmos moldes da novela. Mas com muitos palavrões, para que todos se convençam que "isso sim, é cinema!". Vejamos o caso de "Cazuza, o tempo não pára", onde a direção abusa dos palavrões e das cenas de homossexualismo. Como eu posso levar meu filho de quatro anos para o cinema e convencê-lo de que falar palavrão e fazer viadagem não é coisa de gente normal.

Esse tipo de pensamento acaba por revelar um certa prepotência que tenta estabelecer dois patamares de produção intelectual. Um que é bom demais para ser entendido pelo povo, e outro que é ruinzinho mas é para os pobres mesmo, tadinhos.

Prefiro a postura do Jorge Furtado (diretor de "O Homem que Copiava), que respeita a inteligência do público tentando sempre fazer algo popular, mas nem por isso "burro". Ou ainda, a coragem de uma diretora como Flávia Moraes com a produção de um filme com um ícone da popularidade brasileira (a dupla Sandy e Júnior), correndo o risco de ser execrada pelo meio em que trabalha (sim, ela também faz cinema publicitário, que beleza!) e realizando um trabalho competente a ponto de obrigar muitos críticos a engolirem o fato de que um filme de cunho extremamente popular pode ser competente.

Acho que, no Brasil, a arte verdadeiramente engajada, é aquela em que o povo consegue acessar, e com ela, pode aprender, crescer, se emocionar, enfim, entender e a partir disso, discutir, pensar e se interessar a ponto de procurar mais. Se o filme da Sandy e Júnior fazem milhares de "teens" (de todas as classes) voltarem a uma sala de cinema que esteja passando um outro filme nacional, ótimo.

E não me venham dizer que um cara que faz um show dentro de um hotel de luxo, com ingresso na base dos R$ 500, e é amigo do ministro da Cultura, faz arte popular brasileira. Não é mesmo, Caetano Veloso?