Os cancros na política: do Oiapoque ao Chuí
Emanoel Reis

Alguns políticos são cancros sociais. Então, prefiro acompanhá-los à distância para não ser contaminado.
Ainda assim, é impossível ficar alheio aos absurdos cometidos por eles. E atribuo a responsabilidade ao eleitor, que ainda não aprendeu a separar o joio do trigo. E parece que está difícil concluir esse aprendizado. Basta olhar - de soslaio, mesmo - para as nossas casas legislativas (municipal e estadual) e acompanhar, com certa acuidade, os desempenhos dos parlamentares. Sofríveis, no mínimo. Sim, vereadores e deputados rezam no mesmo catecismo e enaltecem, cinicamente, o é "dando que se recebe". Pobre São Francisco de Assis.

Os exemplos se espalham Brasil afora.
Literalmente do Oiapoque ao Chuí. Na nossa cozinha o caldo entornou de vez. Os escândalos se multiplicam numa profusão espantosa, revelando a voracidade de quem antes parecia inofensivo. Malversação descarada promovendo o enriquecimento ilícito de meia dúzia de canalhas que, antes, não pareciam canalhas e, dissimulados, conseguiram enganar o eleitor exibindo suas reluzentes peles de ovelha. É assim que os escroques agem: primeiro se apresentam como paladinos da moralidade, obtêm a simpatia do populacho e se elegem. Já eleitos tornam-se salteadores implacáveis do erário.

Para evitar mal-entendidos, incongruências até, reporto-me aqui a Paulo Maluf. Sem dúvida, o mais ousado de todos. Mesmo notório malversador (a bem da verdade que em nenhum dos mais de cem processos foi condenado), continua na crista da onda. Tanto que, antes de ver-se arrolado em mais uma denúncia, despontava na preferência do eleitorado para disputar com Marta Suplicy a Prefeitura de São Paulo.

Entretanto, Maluf não está morto. Trata-se de uma raposa de pelagem espessa, por isso seus métodos são copiados pelos maus políticos. E quais são estes métodos? Mandar os escrúpulos às favas, meter a mão, se locupletar, dar-se bem, beneficiar amigos e parentes, corromper, burlar a lei. E quem assina a procuração em branco para Maluf e seus apóstolos da pilhagem? Ora, o eleitor brasileiro.

Por que nossas casas legislativas parecem sepulcros caiados, belas por fora, mas, por dentro cheias de rapina? Olhem em volta, nas suas casas, nos seus bairros, nas suas cidades. Olhem-se no espelho.

Está aí a resposta. No entanto, este mal é tão antigo que cabe aqui reproduzir trecho do discurso pronunciado pelo deputado federal Silvio Romero, no dia 20 de agosto de 1901. Ao final, o parlamentar sergipano faz uma análise dos problemas brasileiros. E suas palavras, passados 103 anos, continuam atuais.

De acordo com Romero "(...) um dos dois grandes problemas do Brasil moderno é o econômico que
está sem solução" e o outro, prossegue ele, é a fome disseminada país adentro. "(...) estamos todos a sofrer e todos a gritar, justamente nas mesmíssimas condições do provérbio: 'casa de pouco pão, todos a gritar e todos com razão', porque nada existe mais capaz de tudo justificar do que barriga vazia". E, em tom de surpresa, Romero arremata: "E o que mais admira é que se fala nele por toda parte, em todos os tons e em todas as linguagens, e só aqui, só no Congresso Nacional, no meio dos representantes do povo, é que não se fala nele".