CASO ACM
Mídia em novo débito com o público

Chico Bruno (*)

Desde o dia em que o Supremo Tribunal Federal decidiu, por nove votos a um, rejeitar a denúncia do Ministério Público Federal contra o senador Antônio Carlos Magalhães, o hoje deputado federal José Roberto Arruda e Regina Borges, ex-funcionária do Prodasen, a mídia ficou devendo ao público uma reação indignada. Afinal, durante meses a imprensa serviu como prato de resistência, e riqueza de detalhes, o episódio da violação do painel eletrônico do Senado Federal, logo após votação que cassou o mandato do senador Luís Estevão.

A mídia acompanhou à exaustão o processo aberto no Conselho de Ética do Senado que apurava as denúncias contra os três acusados. O OI em muitas edições analisou a cobertura da imprensa sobre a violação do painel do Senado.

O caso tomou proporção tão grande que, graças à cobertura da mídia, os senadores ACM e Arruda renunciaram, com medo da cassação, voltando para casa um ano antes do término de seus mandatos. Embora os processos prosseguissem, com a lentidão da Justiça, a que já se acostumou a opinião pública brasileira, a imprensa logo após as renúncias tratou de esfriar o assunto, que sumiu do noticiário num passe de mágica, atitude que já vem se tornando um costume. Aliás, um mau costume.

Finalmente na semana passada, depois de um ano de tramitação pelos escaninhos da Justiça, o STF decidiu o imbróglio em favor dos réus confessos - confissões proferidas em depoimentos e acareações no Conselho de Ética.

Reação suspeita

Infelizmente, a reação da imprensa foi a mais burocrática possível. Noticiaram o resultado do julgamento e ponto final. Apenas alguns colunistas comentaram timidamente o episódio. A revista IstoÉ, que denunciou com exclusividade a violação do painel numa série de reportagens, que acabou premiada com o Esso de Jornalismo, foi o único veículo a abordar o assunto com mais esmero. O Globo, na edição de domingo, 14/9, publicou matéria ínfima com Regina Borges. Mais nada.

A imprensa não desdobrou o julgamento do STF. Na verdade, não deu satisfação ao público que durante meses acompanhou o caso. Vale ressaltar que um dos acusados, o senador ACM, está envolvido em outro episódio sombrio, o dos grampos telefônicos na Bahia, cujas investigações se arrastam - uma razão a mais para que a mídia tratasse do resultado do julgamento com mais eficiência.

Nossa imprensa gosta tanto de ouvir especialistas, e nesse caso nem isso fez. Noticiou e calou-se. Reação no mínimo suspeita, pois o estardalhaço da cobertura na época fazia supor que, agora, teríamos pelo menos uma analise mais aprofundada da decisão dos senhores ministros do STF. Uma pena que, mais uma vez, a imprensa se coloque em débito com a opinião pública. (Observatório da Imprensa)

(*) Jornalista