A CASQUINHA DO SORVETE

Renivaldo Costa

Poucas coisas são capazes de causar polêmica hoje em dia. Num século onde política, futebol e religião já não são capazes de fazer a maioria da população brasileira partir para as vias de fato numa discussão, a gastronomia assumiu o papel de grande centro de discussões ideológico-filosóficas nas mesas de bar.

Posso dizer isso por conhecimento de causa, já que nunca usei meias-palavras nas minhas controvertidas opiniões neste segmento, seja como Gourmet de X-Bacon que sou, como apreciador da única e verdadeira pizza (a de atum), ou como contumaz crítico do presunto na lasanha.

Mas nada, eu garanto! Nada causará tanto pânico, horror e revolta quanto o que escreverei nas próximas linhas.

Se você não se julga capaz de controlar seus sentimentos em relação a algo que fere os seus princípios mais primitivos, rogo para que pare de ler esse texto agora. Por favor!

Se você continuou, a escolha foi sua. Eu tinha que escrever esse texto para me livrar desse tormento que me persegue por anos, mas você, caro leitor ... você tinha escolha. Você poderia ter evitado isso:

Eu odeio a casquinha do sorvete!

Considero esse cone maldito uma aberração da culinária moderna. Quem, meus caros, quem é que sente uma louca vontade de devorar um prato de porcelana enquanto janta um delicioso leitão? Quem é o maluco que deseja, mais do que a mulher amada, mastigar cacos de cristal enquanto degusta o mais nobre vinho francês?! Será que algum infeliz, em toda a história da humanidade, fez questão de triturar taças de metal ao se refrescar com um legítimo sundae ou colegial?

Então por que, MEU DEUS, por que devemos comer o cônico recipiente que segura (muito mal e porcamente, diga-se de passagem!) o sorvete de massa que tanto adoramos!

Aquele cruzamento de cortiça com isopor deve ter sido utilizado pela primeira vez, como um desesperado improviso de um químico desempregado e ambicioso, que misturou diversas matérias primas de polímeros cancerígenos criando algo que aparentemente não atrapalhasse o gosto sorvete.

Um defensor da casquinha um dia ousou me argumentar que o "Cornetto" conseguira resolver bem o problema do finalzinho da ponta que fica sem sorvete:" Puseram um chocolatinho lá, que quebra com gosto seco da casquinha ...".

Como assim?! Se fosse bom, não precisavam colocar chocolatinhos alí!

O que mais me revolta, é que vivem falando que McDonald's é comida industrializada, que tem gosto de isopor, que não é saudável. E A CASQUINHA?! Ninguém nunca disse que aquilo é isopor, mas olhem os furinhos, droga!! Isopor puro!! E as pessoas comem !!!

O McDonald's deixou o isopor nas caixinhas de Big Mac na década de 80, atendendo a milhares de pedidos ecológicos, mas os sorveteiros continuam ferindo o nosso planeta! E vocês, comedores de casquinhas, não só compactuam desse mal, como ainda COMEM ISSO!!

Já que vocês gostam tanto desse tipo de comida, por que não experimentam os copinhos plásticos que pelo menos são mais sinceros e dizem: "Sim, eu sou um produto químico manufaturado!" Ou se você é bom mesmo, coma o palitinho dos picolés! Vai lá! Come! Quero ver na hora de sair!

Agora me dêem licença, que o calor dessa noite, e principalmente dessa discussão me obriga a acabar logo com essa crônica!

- Garçom, um sorvete por favor... Copinho, heim ?! De copinho!