CASSAÇÃO DE IDENTIDADE

Ainda muito cedo me dei conta da dimensão do que é nascer na Amazônia. Há pouco mais de vinte anos, o contato com o mundo, estabelecido essencialmente através da mídia televisiva aberta, tornava um tanto incômodo o pertencer a uma comunidade tão distante do centro onde tudo acontecia. Era como viver num mundo que não existia. E como era difícil ser tão diferente do que me era dado como referente. O caminho até a descoberta de que o meu mundo sociocultural amazônico existia, mas não era representado por aquela mídia, daí a sensação do estar em lugar nenhum, veio com livros, os estudos e mais tarde com o trabalho como jornalista. Mesmo assim, algo me faltava. Eu já sabia quem era e de que lugar do mundo eu falava e, embora aquela mídia não me desse voz eu sabia que existia. Mas essa constatação ainda não era suficiente. Era preciso entender por que as músicas que eu cantava não me emocionavam, por que a política partidária local não fazia nenhum sentido e por que as coisas do meu mundo amazônico, finalmente desvendado, não pareciam estar no seu devido lugar. Compreender por que tantas coisas ainda não faziam sentido passava pelo entendimento de que a sociedade é organizada por instituições e que estas são essencialmente representativas. Até aí tudo bem, se o processo de representação não fosse político. Assim, a formação política viria a ser o elo que uniria esses sentimentos e idéias dentro de mim, estabelecendo definitivamente minha identidade amazônida. Faço parte de uma geração que nasceu sob uma sigla: PDSA. Mais do que um programa de governo, o PDSA representou um movimento político que deu às instituições da sociedade amapaense a cara do seu povo. Nunca se viu tanto índio no Setentrião e nem tantas parteiras na televisão. Nunca se cantou tanto o “pirão de açaí com tamuatá” ou se foi passear com a sereia ao som do batuque e do marabaixo. Nunca o Rio Amazonas, ali, tão perto, nos vinculou de forma tão intensa. Nunca a Floresta Amazônica, habitar de brasileiros exóticos e estrategicamente isolados da sociedade dita “civilizada”, foi o símbolo maior da força do nosso povo. Negar essas transformações é negar a nossa própria história. E tão grave quanto negar nossa história é não dar àqueles a construíram o seu devido reconhecimento. A cassação de Capi e Janete abala profundamente a representatividade do nosso povo e da Amazônia, tanto quanto negar a importância deles no processo de transformação dos modos representação da sociedade amapaense é afrontar nossa inteligência. É preciso entender a gravidade contida na cassação do casal e a ameaça que isso representa para nós. É necessário que nos esforcemos para ouvir as múltiplas vozes fragmentadas no discurso do ex-senador Gilvam Borges, disseminado pelas televisões e rádios de sua propriedade - concessões públicas ao desserviço da sociedade, bem como, no discurso dos ministros que votaram pela cassação e até no silêncio que emudece políticos tidos como à margem de qualquer suspeita moral. É preciso enxergar nesse episódio muito mais do que a cassação de um casal de políticos de esquerda, e sim a cassação da identidade e da confiança atribuída a eles por milhares de amapaenses, na sua maioria gente pobre que remou algumas horas de casco para fazer essa concessão. Esse episódio, mal explicado, porém muito bem articulado, precisa ser entendido na sua complexidade. E entre as suas muitas dimensões está a de que em plena Democracia, quando lembramos com orgulha os 20 anos do movimento pelas Diretas Já, nós é retirado de forma obscura e traumática o direito de decidir pelo voto como queremos ser representados no cenário político nacional.

Márcia Andréia - é professora e jornalista [email protected]