13 de Setembro, de civismo e de saudades

Edgar Rodrigues *

No dia 13 de setembro de 2003, o Amapá completaria 60 anos se fosse Território Federal. Criado em 1943, pelo presidente Getúlio Vargas através do decreto-lei nº 5.812, ele passa constituir, também, um grande palco de lutas e de conquistas, que vêm desde dos períodos do Brasil-Colônia.

Com a chegada do governador Janary Nunes em 1944, e a instalação do governo territorial, chefe do Executivo territorial resolveu tornar a data para que fosse comemorada todos os anos. Assim, a partir de 1945, todos os 13 de setembros foram lembrados.

Com o passar dos tempos, e a transferência desses desfiles - antes realizados no interior da Fortaleza de S. José - para a Av. FAB, nos primeiros anos de golpe militar, os governos militares do Amapá resolveram unir disciplina militar com civismo. Assim, a partir dos anos 60, nas comemorações de 13 de setembro os desfiles passaram a ser efetuados com verdadeiros espetáculos de cores. Cada escola escolhia um tema a ser desenvolvido, e no dia 13 esse tema era apresentado, através de carros alegóricos, fantasias cívicas, e assim as manhãs do dia 13 de setembro passaram a ser bastante festivas.

Havia, inclusive, até disputas entre colégios. Cada ano um estabelecimento de ensino recebia um troféu como reconhecimento de toda uma comunidade escolar que, desde os alunos até o diretor, se envolvia em dispor seu colégio como um dos melhores.

Na realidade, a festa cívica naquela época de ouro, era desenvolvida desde o dia 5 de setembro (dia da raça) até o último dia da feira agropecuária (geralmente 19 ou 20 de setembro). Nesse período todo, as aulas eram paralisadas e toda a população se contaminava nesta alegria esfusiante.

Além dos desfiles comemorativos de 5, 7 e 13, coroando com a Expo-Feira, havia também a competição dos Jogos Ginásio-Colegiais. Era, realmente, um grande espetáculo que, àquela época, era até mesmo justificado, pois o amapaense, e principalmente a juventude, não dispunha de outros entretenimentos que não fossem passeios às poucas praças (Praça da Bandeira, e Praça Veiga Cabral), e tertúlias dançantes. Aqueles que não dançavam, se contentavam em ouvir, à noite, a Rádio Difusora, ou fazer um passeio noturno em frente ao Macapá Hotel. Naquela época não tínhamos ainda o bondinho do trapiche, nem tampouco a Praça Beira-Rio.

Para os que gostavam de aventuras mais emocionais, e na existência de locais de intimidades, o Quebra-Mar da Fortaleza também quebrava o ganho daqueles casais que queriam se isolar um pouco, para horas de amor.

De um modo geral, Macapá era uma cidade terna, calma, e não havia tanta violência. Maioria dos atos violentos era decorrente de alguns exageros nas bebidas.

Passada a fase dos governos militares, o civismo de certa maneira foi desaparecendo, até ao ponto de, em festividades cívicas não haver mais concentração de alunos, tampouco aqueles discursos do general Ivanhoé Martins, que quando pegava os microfones da Rádio Difusora de Macapá, não queria mais acabar. E o sóis quentes da Praça Ciivica (atual Praça da Bandeira, que já foi Praça da Saudade) esquentavam também os nossos ouvidos, quando enfileirados, e em posição de sentinelas, passávamos a ouvir o comandante máximo do Território do Amapá daqueles tempos.

Apesar de restrições às quais nossa população estava segregada, alguma coisa - no meio desses turbilhões - acontecia. Como a cidade era pequena e todos se conheciam, as festas cívicas eram sempre freqüentes, e quebravam a rotina da cidade pequena.

Hoje os tempos são outros. Numa tentativa de resgatar esses momentos efusivos que ficaram perdidos no tempo, os últimos governantes do Amapá, como coroação à atitude louvável dos deputados estaduais, que resolveram proclamar o 13 de setembro como data magna do novo Estado, se lançaram nessa operação de manter a tradição viva da cultura local.

Este desfile de 13 de setembro de 2003 não deixa de ser uma ação de governo, do governo atual de tentar perpetuar a data. E a população, com certeza, irá prestigiar esses momentos, essa volta ao amor pela terra. Só que, dessa vez, o palco é outro: o Sambódromo. O turno é outro: é o vespertino, mas de qualquer maneira, todos se sentirão no meio do mundo, perto do Marco Zero, e quem sabe será esse o marco inicial de grandes acontecimentos que estaremos desfrutando a partir de agora!

A própria expo-feira, que retornou com sua denominação de Expo-Feira, a qual nunca deveria ter sido relegada, é uma prova de que estamos em outros tempos, e temos que dar crédito às autoridades que estão imbuídas em manter viva esta chama das comemorações cívicas.

Que o espírito cívico volte, e que jamais nos esqueçamos que os passado é sempre um mestre, e que nosso futuro depende muito do reestudo desses atos que durante os tempos estamos a experimentar.

Que novos ventos sempre soprem no Amapá, e que esse 13 de setembro, perpetuado pelos deputados constituintes, sempre seja esse momento das reflexões, e de nossas tomadas de consciência para crescermos como cidadãos e como pessoas de bem! Parabéns, Amapá, por esta maturidade de 60 anos de experiência e vivência!

Edgar Rodrigues é jornalista.