Claude Abbville, um cronista da Amazônia
Edgar Rodrigues

As primeiras noticias da região do Amapá, antes denominada de Capitania do Cabo do Norte, vêm desde o século XVI, quando espanhóis como Vicente Pinzón (1500) e Francisco Orellana (1540) contornaram, pela primeira vez, a região setentrional do Brasil.

Em janeiro de 1500 Pinzón teria chegado ao Oiapoque, mas não tomou posse, deixando apenas, como rastro de sua passagem, seu próprio nome ao referido rio. Assim, a nomenclatura “Rio de Vicente Pinzón” ficou conhecida até 1596, quando o explorador francês Lawrence Keymis denominou o rio de Oiapoque. O nome Oiapoque vem do tupi e significa “Casa (oque, oca) dos Waiãpis (Waia, Oiap)”. Waiapi são os habitantes mais famosos, falantes da lingua tupi, que hoje sobrevivem em locais do Amapari e da margem francesa do Oiapoque.

De Orellana, tornou-se famosa sua aparição, à margem esquerda do rio Amazonas (1540) após um confronto que teria sofrido, com as lendárias amazonas (do grego ama+zon: “sem seios”), guerreiras mitológicas, cujas façanhas já haviam sido mencionadas nos contos épicos de Homero.

A passagem de Orellana por Macapá valeu-lhe, por determinação do imperador espanhol Carlos V, a possa da região da atual Macapá, com a denominação de “Adelantado de Nueva Andaluzia”. Essa, por sinal, foi a primeira denominação de Macapá que se tem conhecimento.

Mas não queremos falar de Pinzón ou de Orellana, que sem deméritos, deram sua contribuição como primeiros europeus a desvendar os mistérios da Amazônia. O personagem que queremos abordar nesta semana é outro espanhol: um frei capuchinho que chegou por aqui em 1632: Claude Abbville. O sobrenome vem da cidade natal, Abbville.

São famosas suas obras caritativas em sua cidade natal, chegando a merecer ordenação sacerdotal. Mas além da vida religiosa, seus superiores descobriram no jovem Claude o talento para as letras. Assim, ele foi indicado para trabalhar como cronista em expedições que a Espanha fazia ao novo mundo, em especial as terras da América. Com seu colega, frei d’Evreux, ele parte em uma expedição comandada pelo almirante De Rasily, a São Luis (Maranhão) em 1616. Desse ano até 1618, Claude escreve várias crônicas sobre a região setentrional do Brasil, e as envia à Coroa espanhola. A ordem dos capuchinhos resolve aproveitar suas crônicas e relatos, e faz publicar uma obra, denominada “História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas” (1618). Esta obra é considerada ponto basilar para estudos sobre a pré-conquista da Amazônia, narra episódios acontecidos nos relacionamentos entre as etnias Aniba, Guaiapi (os futuros Waiapi) e Tucujus e nas missões perigosas que sofreram esses padres, quando de suas lutas em defesa da liberdade dos índios.

É por meio de Abville que tomamos conhecimento dos exageros cometidos pelos colonizadores lusos, em seus contatos com os povos da floresta. Os primeiros relatos da foz do Amazonas, do Araguari e de suas cachoeiras, além dos costumes dos índios palicours (Palikur), que tiveram mais ênfase através da pena do cronista, se inserem frei Abville, na historiografia amazônica, como um dos mais notáveis precursores.

(Macapá, AP, 29 de setembro de 2003)