Avaliação e controvérsia

Caro Corrêa Neto. Escrevo para democraticamente divergir do seu artigo “A derrota do PSB e a decepção de Ana”. Acho que erros são cometidos em campanhas eleitorais Brasil afora e em Macapá não foram privilégio da nossa coligação. O que vimos este ano não foi apenas a derrota pelos erros, como você coloca, e neste ponto me alinho com a leitora Ana, enxergar desta maneira é simplificar o complexo jogo político que se travou em Macapá e no resto do Brasil. Se olharmos Macapá isolada da conjuntura política do país poderemos ser levados a fazer o mesmo tipo de análise que você faz. Para clarear esta discussão é necessário compreender que denúncias fortes de uso da máquina federal estão pipocando em todos os entes federativos, inclusive o nosso presidente foi condenado em São Paulo a pagar cincoenta mil reais pelo exagero do que em Macapá foi cometido pela tal gestora do Fome Zero.

Para chegarmos a uma conclusão pacífica do que levou o povo a tomar esta ou aquela decisão seria fundamental conseguirmos valorar o peso que cada fator tem no resultado de um pleito. Avaliações políticas no entanto não são exatas, elas são feitas por seres humanos como eu e você, subjetivos por excelência, e já que somos subjetivos todos, me permito o direito de divergir. O PSB não lutou apenas e tão somente contra o peso de três máquinas, a federal, a municipal e a estadual, contra as artimanhas de Sarney, e contra os nossos próprios erros. Lutamos contra o peso de uma cassação injusta que o Brasil inteiro reconhece como manobra rasteira do Senador Sarney para se livrar não apenas de um desafeto político mas de um grupo político inteiro. Apenas como exemplo quero lhe dizer que Antônio Nogueira, denunciado pelo Ministério Público Federal e condenado por unanimidade aqui no TRE não enfrentou problema nenhum com o judiciário no decorrer de sua campanha.

O senador petista Cristóvam Buarque resumiu a situação vivida por nós em plena reta final da campanha ao dizer que a deputada Janete “foi cassada duas vezes”, uma em junho e outra na reta final da campanha quando ainda liderávamos com folga e quando, coincidência para os ingênuos, começa nossa estagnação e queda. Neste sentido, setores da esquerda que nasceram e foram nutridos pela força política do PDSA não tiveram a grandeza de prestar solidariedade política. A explicação para isto não deriva da traição ou da deslealdade, valores negativos que poderiam ser associados a esta omissão. Eles são produto da conveniência política dos que hoje se auto-intitulam a “esquerda” amapaense. A prefeitura de João Henrique foi marcada pela herança administrativa do PSB e a prova máxima disso foram os dois prêmios que ele alardeou ter ganho e que o foram com políticas públicas do PDSA, o selo prefeito empreendedor foi ganho a partir de um projeto de Janete Capiberibe quando secretária da Seicom e o outro foi ganho com a descentralização do dinheiro para as escolas.

Seria honesto do ponto de vista dos valores mas extremamente negativo politicamente para a coligação vencedora ter que admitir que nasceram, cresceram e se nutriram politicamente do alimento ideológico e administrativo do PDSA. Assim, o silêncio cúmplice da esquerda amapaense, que comportou honrosas exceções, foi um momento importante da nossa derrota, ponto este que você não conseguiu incluir na sua avaliação. Pior que isto, a utilização política de uma cassação injusta, feita reiteradamente em discursos por, entre outras pessoas, o ex-deputado federal Evandro Milhomem, derrotado nas urnas em 2002, e talvez isto explique sua insistência neste tema, para retirar proveitos eleitorais durante este pleito municipal não pode ser localizada como um erro do PSB mas como a falta de compromisso de segmentos políticos ditos de vanguarda do nosso estado com a verdade.

Princípios e valores éticos, que você queria ver discutidos no decorrer do processo eleitoral não foram conceitos que combinaram bem com as práticas que assistimos nesta campanha. Prefiro ser acusado, e neste caso específico posso sê-lo, de ter adotado junto com meu partido e coligação um esquema burocrático mas verdadeiro no qual estiveram expostas propostas honestas e viáveis, do que ser acusado de tentar escamotear a opinião pública criando uma cortina de fumaça para impedir o debate dos verdadeiros problemas da cidade. Perdemos para os nosso erros? sim! Mas este não foi o único e nem o mais importante fator pesando no resultado destas eleições. Cordialmente,

Camilo Capiberibe