COVEIROS DO FUTEBOL

João Silva


O futebol brasileiro é terra de ninguém. E a culpa no cartório está no nome dos maus dirigentes. É essa gente inescrupulosa que está acabando com o futebol do Rio de Janeiro, tido e havido como o mais charmoso do País. Há uns dez anos, por aí, os jogos entre os grandes do Rio eram um luxo só, com estádios cheios, clubes equilibrados, craques em campo e jogos de excelente nível técnico. Infelizmente tudo isso mudou e o futebol do Rio virou essa tragédia que se arrasta no Campeonato Brasileiro: Flamengo, Fluminense e Vasco apanham mais que mulher de malandro. E o tricolor já está ali (de novo!), na zona de rebaixamento.

Nada que nos cause tanta surpresa, porque a situação já é de algum tempo. Como boa memória não faz mal a ninguém, lembramos que foi por aí que o Campeonato Carioca do ano passado ganhou o apelido de “Caixão-2002”, uma esnobada de setores da imprensa paulista no futebol do Rio, nos Euricos de lá e no advogado Eduardo Vianna, o Caixa D’Água, de muitos carnavais (e inimigos também!), mas incrivelmente prestigiado no trono de Presidente da Federação local. Quem garante o senhor Vianna? Creio que a omissão de outra parte da crônica, a cumplicidade de outros cartolas e a inexistência de leis que possam enquadrar os calhordas da bola, gente que não respeita a paixão do povo pelo futebol, mesmo coberto de glórias, mesmo penta-campeão.

Infelizmente o futebol do Rio está nas mãos de pessoas que entram no esporte só para levar vantagem em tudo, para enriquecer ou se eleger à custa dos clubes. Se não for por isso, como explicar tanto desrespeito? Quem está sendo ofendido não é só o povo do Rio, que adora futebol, e ajudou a construir a história de clubes importantes, como o Vasco, Flamengo, Fluminense, Botafogo, América, Bangu, mas também suas torcidas em todo o País, consolidadas em quase um século de futebol; isso nos remete aos gênios que ninguém esquece, astros que brilharam no Maracanã, quando o futebol do Rio encantava o Brasil e o mundo com Nilton Santos, Garrincha, Roberto Dinamite, Zico, Castilho, Rivelino, Ademir,Barbosa, Belini, Aldo, Romário e outros.

Então, o quê fazer para livrarmos o futebol carioca dos seus carrascos? Até agora, a realidade dos fatos é que ninguém consegue enquadrá-los na forma da lei...Nem o Ministério Público, nem a justiça, nem as Cpis, nem o Ministro dos Esportes, ninguém mesmo! A sensação é de impotência diante da truculência desses individuos passados na casca do alho. Eles parecem tranqüilos, gordos e sorridentes, bem à vontade sob o manto da impunidade proporcionada pelos conselhos deliberativos dos clubes que presidem, e que só existem no papel, já que não fiscalizam nada e são cúmplices desses malfeitores do futebol, responsáveis, entre outras coisas, pela corrupção nos clubes do Rio, pelo cenário de salários em atraso, calendário caótico, juizes ruins, nível técnico indigente; cartolas que em nada contribuem para salvar o espetáculo que a cada campeonato perde cancha para a violência no futebol.

No Amapá, as mazelas também inviabilizam o futebol, que já teve seus dias de glória. O principal defeito está no comando, portanto na conduta dos que dirigem os clubes e a Federação. São estes que se prestam a isso e permitem as injunções eleitoreiras de momento, abrindo a porta do futebol para qualquer um que queira se promover a sua custa. Quando se põe competência, compromisso, organização, as coisas melhoram, o público acredita, comparece, paga ingresso, torce e prestigia. O Amapá, sem um centavo do governo ou ingerência do seu governador, já teve bola e respeito na Amazônia, revelou craques para o Brasil, para o mundo; teve uma crônica esportiva unida, competente, estádios cheios, campeonatos e conquistas memoráveis! No lugar das camisas do Remo e Paysandú, o povo levava para as ruas as cores do São José, Santana, Ypiranga, Macapá, Amapá, Trem e Independente! Bons tempos...

Guardadas as proporções - a exemplo do que ocorre no Rio, por aqui falta quase tudo de bom e do melhor; o que afronta e tem demais, é o que não presta: a mediocridade induzindo o governo ao erro, a incompetência, a gatunagem que deixou a FAF sem-teto, e políticos espertalhões querendo ditar regras, estes, como sempre, pregando mudanças ao som das mesmas “trombetas” que também anunciaram a eleição de Miranda, a quem hoje querem depor. Dizem que na época, no melhor estilo Barcellos, adquiriu-se votos com a grana do contribuinte, ilícito que Waldez Góes precisa evitar. Outra coisa: o compromisso do governo deve ser com o esporte amador, com a construção de praças esportivas; não pode sair por ai colocando dinheiro do povo no futebol profissional sem contra-partida. O Estado é pobre, cheio de problemas sociais, e o governo não pode gastar tempo e dinheiro tentando salvar um futebol que está na UTI e pode ir a óbito a qualquer momento, por falta de competência dos seus dirigentes.