De bubuia

Vânia Beatriz

Ando navegando, ou melhor, viajando de bubuia no igarapé onde nasceu uma Vitória-Régia especial, a rádio FM 104 que foi inaugurada há duas semanas em Porto Velho, com o propósito de fazer o melhor da música e com noticiário atualizado a cada intervalo musical.

Escrevi sobre ela na terça passada, mas não consegui postar. Eu disse, até agora só tenho elogios, a seleção musical me fez lembrar o inicio da Rádio Rauland FM , em Belém.

Agora, já tenho mais condição de criticar. O repertório musical continua muito bom (a quanto tempo eu não ouvia João Bosco em rádio?), apesar de achar que ainda tem muita música internacional. Não sou contra, mas acho que o diferencial da emissora deve vir justamente do espaço a ser aberto ao músico/música local/regional.

O jornalismo que pensei seria local é predominantemente de São Paulo (a rádio opera em cadeia com a Jovem PAN). Orra meu, deu na paciência passar a semana escutando especialistas disso e daquilo outro, delegados e advogados se pronunciando a respeito do assassinato (brutal e chocante é inegável) de dois jovens de classe média paulistana.

Lamentável a morte dos jovens paulistas, assim como a de muitos jovens anônimos à mídia, que por razões outras foram assassinados naquele final de semana nas periferias do país. Por isso, me arrepia a hipocrisia, o uso da mídia para o mis-en-scene de uns: "nunca vi nada igual em 30 anos de carreira" e de outros: "o que esse C. fez, foi uma afronta a sociedade paulista".

Voltemos à nossa praia, digo ao meu igarapé. No sábado passado, tivemos o prazer de oferecer um almoço (divino almoço!) para um radialista, emprestei a ele todos os meus amados CD de Negro de Nós, Zé Miguel, Osmar Junior e Patrícia Bastos, há uma promessa no ar, esperança de que ouvirei minhas músicas preferidas de bubuia no igarapé onde pousa a Vitória- Régia FM-104.

Ps. Quem não souber o que significa bubuia, confira no site do Correa Neto (o melhor jornalismo do Amapá) o significado dessa e de outras expressões amazônicas.