DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E PRESERVAÇÃO AMBIENTAL

A Amazônia compreende a maior bacia hidrográfica do mundo, coberta, em grande parte, por florestas tropicais com altos índices pluviométricos. Mudanças no uso da terra, substituição das florestas por outros tipos de coberturas, tais como pastagens ou campos cultivados, podem interferir, potencialmente, com o clima mundial, além de alterar drasticamente o meio ambiente regional e local (chuvas, temperatura, umidade relativa do ar, erosão e compactação de solos e a hidrografia). No entanto, via de regra, os cálculos sobre as alterações no clima são baseadas em modelos matemáticos que projetam resultados o desmatamento total da Amazônia de uma só vez, o que nunca ocorrerá. O modo simplista de abordagem deste processo, como se repentinamente fosse substituída toda a cobertura florestal da Amazônia por um enorme deserto ou um gigantesco passeio de cimento, isto é, sem qualquer cobertura vegetal, apenas confunde a opinião pública, não contribuindo para a resolução do problema de forma racional e isenta de emocionalismo.


A Amazônia possui características próprias no que se refere à diversidade da flora, fauna e dos recursos naturais renováveis, constituindo-se, principalmente, de ecossistemas complexos com grande interdependência entre as espécies animais, vegetais e os microorganismos. As atividades agropecuárias são dificultadas tanto pela baixa fertilidade natural, na maioria de seus solos, como pelas pressões bióticas, causadas por pragas, doenças e plantas invasoras, as quais têm suas atividades biológicas ressaltadas sob as condições tropicais.


A proposta de uma agricultura sustentável não traz em seu bojo a volta ao modelo agrícola de subsistência. A idéia central é a utilização de tecnologias adequadas e compatíveis às condições do ambiente regional, prevenindo os impactos negativos, sejam eles sociais, econômicos ou ambientais. Tais tecnologias tanto podem ser máquinas, insumos, principalmente fertilizantes, imagens de satélite e computadores, como resultados da aplicação de conhecimentos ecológicos como o manejo integrado de pragas e doenças, a conservação do solo e água, a ciclagem de nutrientes, o manejo da matéria orgânica, dentre outras alternativas.


A degradação ambiental gerada pelo desmatamento muitas vezes afeta a sustentabilidade dos sistemas de produção e a subsistência nas áreas rurais. Erosão, enchentes, rebaixamento do nível do lençol freático e assoreamento e rios, lagos igarapés, afetam a produtividade agrícola, reduzindo a disponibilidade de alimentos, a renda e a oferta de novos empregos. As florestas também servem como reservas de alimentos para as comunidades de baixa renda e, normalmente, constitui-se na principal fonte energética e proteica para os povos da floresta.


O manejo sustentável da floresta é viável. Não faltam exemplos, embora em escala reduzida, que apontem ser esse o caminho correto para a região amazônica. Basta analisar, suscintamente, a questão das frutas regionais. Que vantagens são ofertadas ao povo amazônico pelo consumo crescente de produtos industrializados ou de frutas provenientes de outras regiões do país. Uvas, pêras, maçãs, pêssegos, por acaso são mais gostosos ou nutritivos que cajás, bacabas, mangostão, araticuns, cupuaçu, cacau ou biribá? E nossas plantas medicinais? Nozes importadas do Chile ou da Europa têm maior teor proteico que a castanha-do-Brasil? É preciso reconhecer que as frutas nativas da Amazônia pela sua diversidade, pelo seu sabor inconfundível, pelo alto potencial vitamínico, levam a melhor na disputa com tantas outras produzidas em outras regiões do país ou mesmo no exterior.


O que se busca é assegurar que os agroecossistemas amazônicos sejam produtivos e rentáveis ao longo do tempo, através da estabilização de seus fatores de produção, os quais nem sempre são facilmente controláveis, pois são afetados pelo mercado, aspectos sociais, culturais e econômicos e pelas condições climáticas específicas de cada região. Apenas com a diversidade da produção, no espaço e no tempo, reciclagem de nutrientes, seleção de consórcios culturais, uso de pesticidas menos tóxicos, controle biológico de pragas, enfim, de um planejamento ambiental da agropecuária, haverá maiores e melhores perspectivas de sucesso, pois os agroecossistemas tenderão para o ponto em que seus mecanismos de autocontrole atuem decisivamente na manutenção do equilibrio dinâmico aceitável, tanto sob o ponto de vista de produção, como de qualidade ambiental.


A Amazônia experimenta, ainda hoje, uma intensa transformação em sua estrutura fundiária, como conseqüência das políticas de colonização e assentamento implantadas a partir da década de 70. A pressão migratória, até certo ponto, favoreceu no início, a ocupação dos espaços vazios da região, enquanto ainda havia disponibilidade de solos de boa fertilidade natural. Atualmente, torna-se imperioso a organização dos recursos materiais e os esforços humanos, das mais diversificadas instituições, governamentais ou não, de forma concatenada e produtiva, a fim de promover a qualidade ambiental e reverter os processos deletérios em curso, viabilizando o uso racional, sustentável e economicamente viável dos recursos naturais, notadamente através do trabalho integrado em bacias hidrográficas.


Deste modo, uma das principais metas da política agrícola governamental deve ser a mudança nas atuais políticas de ocupação do espaço agropolítico amazônico, levando-se em consideração as questões preservacionista e ambientalista. A definição de uma política adequada de uso da terra que considere a vocação agroflorestal da Amazônia e a sua implementação imediata, como base para o ordenamento do processo de ocupação geográfica, deve ter como ações básicas a organização do espaço físico de acordo com as características detectadas no zoneamento agroecológico e econômico; preservação de áreas representativas dos principais ecossistemas amazônicos; utilização econômica em bases conservacionistas de alguns segmentos de florestas; intensificação da pesquisa básica e aplicada e formação de recursos humanos capacitados e qualificados, além do estabelecimento de normas gerais para o uso e exploração das áreas florestadas e aquelas desmatadas.


Nesse contexto, torna-se imprescindível o pleno exercício da multidisciplinariedade e o comprometimento interinstitucional com a participação efetiva das comunidades e organizações dos segmentos representativos da sociedade, identificados e comprometidos com o desenvolvimento sustentável e integrado da Amazônia.


Newton de Lucena Costa, Eng. Agr., M.Sc., Chefe Geral da Embrapa Amapá no período 1998/2001. Atualmente Chefe Geral da Embrapa Rondônia.