O dilema do João

Tão logo terminado o frisson provocado pela alternância de poder no executivo estadual, as atenções se voltaram quase que imediatamente para a sucessão municipal. Isto é ainda mais verdadeiro se considerarmos que o governo do PDT é mais agressivo em seu projeto de poder do que o governo passado o foi. Desde o período transicional, alguns nomes fortes do governo Waldez obtiveram, e parecem manter um espaço privilegiado de interlocução com a imprensa. Neste sentido, Gervásio Oliveira é a bola da vez na sucessão municipal. Contudo, se parecem existir certezas com relação ao nome do PDT para a prefeitura, dentro do PSB um falso dilema se colocou pela imprensa. Falso que é, nem por isso ele deixou de ter "sérias consequências". Um dos efeitos colaterais deste falso dilema é o boato forte e ressonante que dá conta da saída do Prefeito João Henrique do PSB. Há meses aparecem notas na imprensa fazendo referência a possível deserção do Quarenta das trincheiras peesebistas. Vale ressaltar que em sentido contrário não foi brandida uma negação ou uma constestacão a estes rumores.

Mas afinal de contas qual é o tal falso dilema? Fato é que as eleições 2002 reorganizaram o mapa político estadual. O PT que governava saiu mal da sua primeira experiência executiva no Amapá. O PSB, no processo de transição, terminou ficando em segundo plano visto que a saída simbólica do poder tinha se dado ainda em abril com a renúncia de Capiberibe. Isto foi positivo pois a melancolia de fim de feira que acomete um governo que perde sua sucessão foi vivido pelos petistas. O PDT surgiu como força natural para ter um nome para a sucessão municipal na capital amapaense. PSB e PT vivem hoje um refluxo. O refluxo é natural quando se sai do governo depois de quase oito anos ininterruptos de exercício do poder. O processo de avaliação interna que daí decorre tende a definir no curto e médio prazos a sobrevivência política das siglas e os planos para o futuro.

Mas afinal, um parágrafo se passou e a resposta para o falso dilema não veio. Retomando o segundo período do parágrafo anterior, as eleições 2002 reorganizaram o mapa político amapaense. A eleição de Janete Capiberibe com quase vinte quatro mil votos, a colocou como postulante natural à sucessão municipal. Ainda que isto não seja trombeteado pela mídia amapaense, a votação de Janete refletiu um fenômeno eleitoral tão surpreendente quanto a votação de Papaléo para o Senado. Se muito se discutiu do caso do senador amapaense, praticamente nada se falou sobre o fenômeno Janete. O indício que isto incomodou setores políticos locais é que tão logo o segundo turno acabou, e Waldez tomou o poder, um tema recorrente veio a ser a candidatura de Janete para a sucessão municipal. Pleiteante legítima depois do sucesso nas urnas, ainda assim, ninguém perguntou à Deputada Federal sua opinião à respeito, e o tema continuou sendo tocado como boato em notinhas na imprensa.

Em sequência ao surgimento das notas dando conta do risco que João 40 corria de ter que disputar internamente com a Deputada Federal Janete Capiberibe a vaga para a sucessão pelo PSB, começaram a circular os rumores dando conta da saída de João Henrique do PSB. O falso dilema está bem colocado e claro. Janete apesar de postulante natural à sucessão municipal, nunca se colocou como candidata, muito pelo contrário, afirmou claramente para o prefeito na reforma do secretariado municipal que o apoiaria integralmente em sua reeleição. Logo, o falso dilema é a disputa entre Janete e João pela vaga na sucessão. Esta disputa só existiria, se Janete estivesse disposta a concorrer, o que não é o caso.

Esclarecido o falso dilema, qual passa então à ser o verdadeiro dilema do João? Este é de toda uma outra natureza, e as consequências que o verdadeiro dilema do João podem acarretar, são mais sérias e profundas. Claro está que o PSB têm dois nome fortes para a sucessão municipal em Macapá. Se João vencer o falso dilema, e ficar no PSB, ele concorre pelo partido à reeleição. O problema, e isto já deveria ser evidente, não é a sucessão municipal, mas a sucessão de Waldez. Para este cargo o postulante natural é outro. Ocorre que a ambição humana nem sempre encontra freios no bom senso. Se João, como tem sido noticiado, sair do PSB, o falso dilema vira uma profecia auto-realizante, ou seja, o suposto receio de ter de disputar internamente a indicação com Janete se transformaria em disputa eleitoral já que Janete tem tudo para ser a candidata do PSB à prefeitura na ausência de João, disputando então, com o atual prefeito, o assento no Palácio Laurindo Banha. Se João ficar, ele fica sabendo que seus projetos para o Setentrião terão que ser engavetados por tempo indeterminado. Não se enganem caros leitores, este sim é o dilema que abala o nosso João Quarenta.

Camilo Capiberibe
Militante do PSB e mestrando em Ciência Política
pela Université de Montréal