Hei você aí, me dá um dinheiro aí...

O carnaval das escolas de samba do Amapá deixou de ser realizado três vezes e não houve nenhuma discussão por causa disso. Nas duas primeiras, que eu saiba, ninguém se manifestou em voz alta contra a decisão do representante maior da ditadura no Amapá: o general Ivanhoé Gonçalves Martins. Na última, não havia clima mesmo: o carnaval de 1981naufragou junto com o barco Novo Amapá.

Aqui de São Paulo tenho acompanhado a movimentação do carnaval pelo Brasil a fora. A Bahia esquenta seus atabaques com o Festival de Verão. Recife e Olinda prometem o melhor carnaval de frevo de todos os tempos. O Rio de Janeiro na maior cara de pau usa a mídia paulista para tentar levar os ainda desajeitados paulistanos para a Sapucaí. Aliás fervem anúncios de pacotes de carnaval para vários lugares do país. São Paulo defende-se como pode usando a mesma mídia para promover o seu já consolidado “segundo melhor carnaval do planeta”. Aqui, entre um programa e outro, a TV Globo exibe os clipes das escolas de samba de São Paulo. As do Rio só aparecem nos telejornais, programas especiais de carnaval ou nos clipes exibidos entre os programas transmitidos pelas afiliadas da Globo do resto do país.

E o “terceiro melhor carnaval de escola de samba do Brasil”?

Embora eu achasse o nosso o melhor carnaval do mundo, considerava exagerado o título de “o terceiro melhor...”. Mas tive que mudar de idéia.

Durante quatro anos fiz parte da comissão organizadora do carnaval de Belém. Houve um ano, 1995 se não me engano, que os dirigentes das escolas de samba e blocos de Belém, Icoaraci e Mosqueiro falavam numa reunião com uma ponta de inveja sobre a inauguração do nosso sambódromo. Cobravam da Prefeitura a construção de um sambódromo em Belém. O principal argumento era que a capital paraense havia perdido o título de terceiro carnaval de escola de samba do Brasil para Macapá. Mal pude me conter. Como na época eu era secretario de comunicação da Prefeitura de Belém não pude comemorar. Este ano, com a nossa ausência da passarela, com certeza o carnaval de Belém vai estar comemorando o título.

Mas eu não me entrego: vou sair no carnaval nem que seja batendo lata na avenida FAB.
Tenho acompanhado pela Internet as discussões sobre a não realização do desfile das escolas de samba de Macapá. E como folião, amante e conhecedor de carnaval também vou entrar neste samba do crioulo doido.

Não aceito a velha desculpa esfarrapada que os recursos públicos têm que ser usados em coisas mais importantes. O poder público tem que utilizar (muito bem) o nosso dinheiro na educação, saúde, segurança, etc, mas tem também de garantir preservação da nossa cultura. E eu me recuso a acreditar que a verba do carnaval não esteja prevista no orçamento do estado. Seria amadorismo demais.

Li em um jornal amapaense que o repasse de recursos para a realização do carnaval de Belém é inferior ao pedido pela liga das escolas de samba do Amapá. Não é verdade. É muito superior. Além de repassar recursos para as escolas e blocos de Belém a prefeitura banca toda a infra-estrutura do carnaval: segurança, equipamento de som e de iluminação, confecção de ingressos, decoração do sambódromo e dos locais de desfiles, jurados, alimentação dos policiais, seguranças, divulgação no rádio, jornal, tv, e outras mídias no Pará e em algumas capitais do brasileiras. Quando não havia sambódromo a prefeitura ainda pagava a construção das arquibancadas. O poder público municipal banca a festa em Belém, Icoaraci e Mosqueiro. Isso sem contar com a ajuda do governo do Pará. Os recursos no valor de quase um milhão de reais que o colunista amapaense extraiu de O Liberal foram dados a título de subsídios para as escolas de samba. Além disso os ingressos são rateados entre as escolas de samba e blocos. Mais uma renda para ajudar nas despesas. O Governo do Pará ainda investe no desfile das escolas de samba do sul do país. Foi o caso da Beija Flor, com o enredo sobre a ilha do Marajó. A escola de samba carioca foi a grande campeã do carnaval de 2000 e o Pará teve um grande retorno na divulgação de suas belezas naturais para o resto do país e no incremento do turismo. Este ano a escola de samba paulista Acadêmicos do Tatuapé vai para a avenida com o enredo “Pará, heróica história da nossa história, berço cultural de nosso povo”. O Governo do Pará, é claro, entrou com apoio maciço. Uma estratégia de marketing para divulgar as atrações turísticas do estado. As alas da Tatuapé parecem até um folheto promocional da Paratur. Vai do círio de Nazaré à festa do Çairé (com cedilha mesmo) de Santarém. Fala do carimbo, ciriá, do açaí, do pato no tucupi e da maniçoba, Retrata a cabanagem, o artesanato , a fauna e flora paraense. Tem uma ala inteirinha falando sobre a pororoca. (a do Marajó e a de São Domingos é claro!).

Enquanto isso, a nossa pororoca é sinônimo de batida policial e o nosso carnaval não sai porque não estaria cumprindo uma função social... ou seria eleitoral? Parece rima de samba enredo de terceira categoria.

Um samba enredo que vai ficar por muitos anos atravessado na garganta.