Trágico empobrecimento relativo

ANTONIO DELFIM NETTO

Desde os anos 50 do século passado, a economia mundial tem alternado longos períodos de prosperidade com longos períodos de crescimento mais lento, que afetam de maneira diferente as várias regiões.

A tabela abaixo mostra a média do crescimento anual do PIB (em %) em quatro períodos: 1º) 1913-1950, que inclui as duas grandes guerras mundiais e seus respectivos esforços de reconstrução; 2º) 1950-1973, período de rápida expansão com o regime, estabelecido em Bretton Woods, de taxas de câmbio fixas e eventualmente reajustáveis; 3º) 1973-1998, em que gradualmente aumentou o papel do câmbio flutuante, e a ênfase da política monetária foi mudando do controle da base monetária para o controle da taxa de juro. Foi o período das duas crises do petróleo, da elevação da taxa de juro real no mercado financeiro mundial e do "default" generalizado dos países emergentes; 4º) 1998-2003, que mostra que, na "margem", o resultado continua muito parecido com o do período anterior. Isso nos leva a suspeitar de que a "modernidade" imposta aos países em desenvolvimento pelos grandes organismos internacionais controlados pelos países desenvolvidos (FMI, OMC, BIS e Banco Mundial) não produziu, até agora, nenhum resultado prático visível no crescimento econômico.

TAXA DE CRESCIMENTO DO PIB (%)
Região
1913
1950
1950
1973
1973
1998
1998
2003
Desenvolvid.
2,0
4,5
2,5
2,4
Japão
2,2
9,3
3,0
1,1
Asia (Sem Japão)
0,9
5,2
5,5
6,3
América Latina
3,4
5,3
3,0
1,2
Brasil -04
4,5
7,2
3,6
1,7
Mundo
1,9
4,9
3,0
3,4

O quadro, na sua extrema singeleza, revela pelo menos três coisas: 1º) a política econômica executada no período 1950-73 foi muito mais amiga do desenvolvimento do que as posteriores; 2º) a região que menos se ajustou à "modernidade" (a Ásia sem Japão) e que, diante de uma crise cambial grave, se recusou a aceitar integralmente as políticas sugeridas pelo FMI foi a única que manteve as taxas de crescimento; 3º) a expansão das economias asiáticas é um fenômeno mais antigo do que geralmente se pensa e, graças à economia chinesa, tem se acelerado.

Os números da América Latina e do Brasil revelam o nosso gravíssimo empobrecimento relativo. Nos últimos 15 anos, distanciamo-nos do mundo e, particularmente, da Ásia (sem Japão), como se vê abaixo:

PIB
Região
1988
2003
Mundo
100
156
América Latina
100
130
Brasil
100
132
Asia (sem Japão)
100
208

Deveria ser evidente que a política econômica posta em prática a partir do governo Collor e aprofundada no governo FHC, que "algemou" o Estado, vendeu às pressas o patrimônio público e deixou o país endividado, tem qualquer coisa errada! A "crença" de que, depois da estabilidade monetária, o mercado resolveria nossos problemas já custou caro demais ao país. É tempo de repensá-la; não na linha de que deveríamos combater a inflação com "políticas de renda", como às vezes tem sido sugerido por economistas do PT, mas na de estimular o crescimento com políticas públicas adequadas...

Antonio Delfim Netto escreve às quartas-feiras nesta coluna.