DISCURSO ENFERRUJADO

Ruy Smith
Eng. Mecânico e Dep. Estadual pelo PSB

Li com preocupação uma série de notícias veiculadas na imprensa local, sobre a instalação de uma fábrica de ferro-gusa em nosso Estado. Manchetes como “Amapá exportará ferro-gusa à partir de 2005” ou “Retomada da indústria amapaense abre milhares de novos postos de emprego” foram a tônica em nossos jornais impressos e digitais. Todas as informações sobre a implantação da Sólida Siderurgia no Distrito Industrial de Santana propalam a geração de 10 mil empregos diretos e indiretos à partir do funcionamento pleno da empresa, divulgam a revitalização da indústria amapaense e a retomada histórica do desenvolvimento industrial, disseminam a idéia de que a siderurgia é - perdoem a infâmia - a salvação da lavoura do Amapá.

Discursos mais eloqüentes, como o do Secretário Especial de Desenvolvimento Econômico do GEA, Alberto Góes, trazem a afirmação de que a siderurgia “é uma das atividades econômicas de maior impacto na geração de emprego e encadeamento com outras atividades”. Já Waldez Góes, por não possuir programa de Governo elaborado para o Estado, adota a linha do discurso sem nexo, coerente com sua administração também desprovida de qualquer sentido, trombeteando que “o passo inicial que representa a implantação da mineradora no Amapá, nada mais é do que a concretização dos quatro orientadores estruturais adotados pela atual governo ainda na campanha eleitoral: crescimento, integração, responsabilidade e solidariedade. É uma referência de pólos produtivos que obedece ao orientador da integração. O que é resíduo para uma atividade é matéria-prima para outra.”

Enfim, o oba-oba criado em torno da instalação da siderúrgica, certamente lastreado por releases e mais releases da assessoria de comunicação do Setentrião, tudo, acredito eu, em prol de arredar o atual governador de próximo da quase unânime descrença popular, me faz lembrar os tempos de instalação da Zona de Livre Comércio, vendida como panacéia para todos os males do Amapá, e que hoje perde para a cadeia produtiva do açaí na geração de trabalho e sustentação das famílias amapaenses.

De forma proposital, as fontes das notícias apresentaram apenas os bônus sobre a siderúrgica, com os efeitos da instalação dessa fábrica, obviamente, ampliados até o limite dos interesses do governo. Não vi, em nenhum momento, qualquer menção aos ônus decorrentes dessa atividade econômica. Não observei a preocupação, do Sr. Alberto Góes, por exemplo, sobre o fato de que a siderurgia é a terceira atividade mais predatória da natureza, perdendo apenas para a agricultura intensiva e a petroquímica; nenhuma vez foi comentado que a geração de impostos sobre a produção é praticamente nenhuma, fruto dos incentivos federais à exportação; ou ainda, que dos 10 mil empregos alardeados, apenas em torno de 3% são diretos, enquanto os restantes alimentarão as estatísticas do trabalho informal, do sub-emprego, do trabalho degradante (trabalho escravo) e do trabalho infantil, todos derivados da produção, em larga escala, do carvão vegetal necessário ao funcionamento dos altos fornos.

É importante explicar que as siderúrgicas são essencialmente dependentes de carvão - no caso da Sólida, o carvão vegetal - para transformar o minério de ferro em ferro-gusa, através do processo químico de oxirredução em altos fornos, onde o ferro é extraído pela combinação, a altas temperaturas, do minério de ferro com o monóxido de carbono. Consumidoras vorazes do produto, para obter 1 tonelada de ferro-gusa, as guseiras necessitam consumir 0,75 toneladas de carvão, ou 3,0 m3 de carvão. Como a empresa produzirá cerca de 500 toneladas/dia de gusa, e sendo o funcionamento dos altos fornos initerrupto, a produção anual chegará em 180 mil toneladas, com a conseqüente queima de 135.000 toneladas/ano de carvão (405.000 m3) - sem levar em conta a perda na produção, em torno de 10% - obtidos a partir da madeira extraída da floresta nativa do Estado. Para uma idéia prática do volume de carvão, serão necessários 55 caminhões/dia, cada um com 20 m3, durante todos os 365 dias do ano, para alimentar os altos fornos.

Para a empresa Sólida, o Amapá é o melhor dos mundos: mão de obra barata, madeira em abundância (o ferro-gusa produzido à partir do carvão vegetal é o melhor existente), proximidade dos mercados consumidores (o porto de Santana tem a melhor localização estratégica nacional em relação ao mercado internacional); boa vontade e colaboração do governo local, e, ainda; uma estrada de ferro que pode trazer o minério desde o local de lavra até os altos fornos - e não me venham com a história de dizer que transportarão o minério em caminhões, pois o peso específico do material só é suportado em caminhões fora-de-estrada, incompatíveis com nossas estradas, e anti-econômicos em longas distâncias de transporte - faltando apenas, imagino, que o governo “promova” uma licitação para a exploração dessa ferrovia.

Portanto, não é difícil antever o que ocorrerá, à partir do funcionamento da guseira: pressão sobre a mata nativa, para transforma-la em carvão; degradação das condições de trabalho no elo mais fraco da cadeia produtiva (os agricultores, principalmente os localizados nos assentamentos de Tartarugalzinho e município de Mazagão); trabalho informal; trabalho infantil; contribuição para o aumento do aquecimento global, pela emissão de grandes quantidades de dióxido de carbono resultante do processo; poluição ambiental pela emissão de fuligem das carvoarias; diminuição da produção agrícola, pela cooptação dos agricultores para a produção do carvão.

Assim, o discurso oficial de que o Amapá retomará seu crescimento industrial, com um novo El Dorado surgindo, perdoem novamente a infâmia, das cinzas das carvoarias, é apenas a retórica de pessoas atrasadas no tempo, ou de governos desastrados, sem formação atualizada das conjunturas que ditam as regras do desenvolvimento mundial, que passam necessariamente pela sustentabilidade dos projetos a serem implementados. Não se pode mais observar os projetos econômicos unicamente pela ótica míope da geração de empregos, investimentos, geração de impostos, mas, e principalmente, pelo balanço entre os prós e os contra, entre quem perde mais e quem ganha mais. Nesse caso presente da siderúrgica, acredito que quem ganha mais é a própria empresa, e talvez dois ou três espertos “incentivadores do progresso econômico do Amapá”, e quem perde mais é a própria sociedade, composta pela geração atual e as futuras, que arcarão com os já discorridos ônus sociais e ambientais do empreendimento. Foi assim com a ICOMI, com a Novo Astro, e com tantas outras mais, e assim continuará sendo, se o discurso for um e a realidade for outra.