Escândalo político se soma à crise econômica e paralisa o Brasil

Larry Rohter
Em Brasília

Um escândalo político de proporções cada vez maiores imobilizou o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo apoio popular já começou a diminuir devido à fraca perfórmance da economia do país em seu primeiro ano de governo.

A crise começou em meados de fevereiro, quando Waldomiro Diniz, então um dos intermediários do presidente com o Congresso Nacional, foi visto, numa gravação de TV de dois anos atrás, aparentemente solicitando centenas de milhares de dólares de colaboradores de campanha. Na gravação, Diniz conversava com um dos chefões do jogo do bicho, que supostamente havia sido beneficiado por favores políticos. Um relatório do governo, lançado no final de março, informa que tais "impropriedades administrativas" haviam continuado depois que o esquerdista Pratido dos Trabalhadores tomou o poder no ano passado.

Eleito com uma plataforma que prometia justiça social e crescimento econômico, Silva, um ex-líder sindical, já completou quase um terço de seu mandato. Mas ele não tem sido capaz de progredir em nenhum dois dois campos, e o escandaloso caso de corrupção tem sido apontado com um fator que tornará ainda menos provável que ele cumpra suas promessas.

"A percepção de insatisfação e de crise está crescendo", disse Alexandre Garcia, um ex-secretário presidencial. Atualmente, Garcia é comentarista político de uma rede de televisão. "O governo aparenta estar paralisado e chocado com os fatos, o próprio PT está dividido e perplexo, e a oposição está preocupada", disse Garcia, sobre a fraqueza cada vez maior do governo, a qual poderá fazer com que a economia permaneça patinando.

A turbulência reduziu a sólida popularidade de Silva. Numa pesquisa divulgada no fim de março, a maioria dos entrevistados afirmou que "o país está no caminho errado". Esta é a primeira vez, desde a posse do presidente em janeiro de 2003, que o governo não consegue obter a aprovação da maioria da população.

O capitão

Diniz foi demitido e está sob investigação. A atenção se transferiu dele para seu chefe, José Dirceu de Oliveira e Silva, o todo-poderoso axuliar que o presidente chama de "capitão do meu time". Diversos membros do partido afirmaram ter alertado Dirceu acerca de irregularidades na obtenção de fundos para a campanha, mas foram ignorados ou punidos.

Dirceu afirmou recentemente que, no que lhe diz respeito, o assunto Diniz é um "caso encerrado" porque a investigação concluiu que "este governo não roubou ou deixou roubar". Quando repórteres não se satisfizeram com suas respostas, e continuaram a pressioná-lo com mais perguntas, Dirceu reagiu agressivamente, chamando-os de "um bando de canastrões malcriados e e incivilizados", além de acusar a oposição de tentar desestabilizar o primeiro governo de esquerda eleito no Brasil.

Mas o noticiário continua quente e, a cada semana, parece trazer mais revelações das irregularidades financeiras ao longo do caminho que o Partido dos Trabalhadores percorreu até o poder. O ex-diretor de loterias do maior Estado do Brasil relatou que foi forçado a pressionar os chefes do jogo do bicho a contribuírem ilegalmente para o partido durante a campanha.

Promotores estão trabalhando em inquérito sobre um esquema multimilionário de suborno no Estado de São Paulo.

"Eu não acho que ele é o único", disse Fernando Ferro, um deputado petista oriundo do Estado de Silva, sobre Waldomiro Diniz. "Infelizmente, tem muito disso no Partido dos Trabalhadores, e tem um monte de gente que ainda vai criar problemas para o governo".

O camaleão

Com José Dirceu tendo que usar seu tempo para defender a si mesmo, o Partido dos Trabalhadores foi forçado a procurar um substituto fora de seus quadros.
Como resultado, o papel de coordenador político do governo caiu no colo do camaleônico José Sarney, um conservador que foi presidente entre 1985 e 1990.
Atualmente, Sarney é presidente do Senado brasileiro.

"Hoje, Sarney é o centro de gravidade" no Brasil e o homem mais forte do palácio presidencial", escreveu recentemente Dora Kramer, colunista política do Jornal do Brasil. "Em Brasília, as pessoas dizem em tom de gozação que José Sarney tem mais poder agora do que na época em que foi presidente da República".

Nesse papel, Sarney, que integra a coalização governista, ajudou a bloquear uma investigação congressual (CPI), apoiada até por alguns membros do partido do presidente, a qual iria examinar a fundo as acusações de corrupção. Os governistas pretendem a evitar audiências públicas não apenas pelo que elas podem revelar, mas também porque qualquer investigação de longo prazo iria
amarrar a estrutura administrativa e conferir ao governo a impressão geral de paralisia.

Mas a obtenção do apoio necessário para afastar a investigação provou ser algo extremamente caro. Silva prometeu recursos vultosos a prefeitos que temem perder as eleições municipais marcadas para outubro deste ano, numa ação que ameaça debilitar o plano de austeridade econômica do governo. O presidente também teve de distribuir cargos entre os partidos aliados.

Menos que FHC

O escândalo surge no fundo do poço do desempenho da economia, o qual já afeta a credibilidade e o apoio popular ao governo. Silva chegou a prometer um "espetáculo de crescimento" mas a economia encolheu no ano passado pela primeira vez em mais de uma década. Novas estatísticas divulgadas pelo governo mostram que o dinheiro que Silva investiu em projetos de desenvolvimento no primeiro ano de sua gestão não chega a um décimo do investido por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, em 2002.

"É difícil para qualquer presidente uma situação de crescimento econômico igual a zero, e este é o principal problema deste governo", afirmou Sarney.

Se a economia estivesse crescendo 5 ou 6 por cento, o caso Waldomiro Diniz não teria a menor importância.

Com base na aparente fraqueza do governo, dissidentes do Partido do Trabalhadores vêm pressionando Silva a aquecer a economia de alguma forma.
Além disso, o Partido Liberal, que integra a coalização governista e ao qual pertence o vice-presidente José de Alencar, reivindica o afastamento do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Mesmo dentro do ministério, sinais de discórdia têm emergido, enquanto Silva se mostra passivo a desconcentrado. "O presidente tem desaparecido da cena porque quer manter distância de qualquer coisa que possa afetar sua popularidade pessoal", disse o senador Jorge Bornhausen, o líder do Partido da Frente Liberal, da oposição. "Mas é muito tarde para isso. Ele precisa exercer alguma autoridade perante seu partido e seus aliados, mas, acima de tudo, perante o governo que que encabeça".