BOAS NOTÍCIAS
Exemplo a multiplicar

Chico Bruno (*)

Existe uma corrente na imprensa que defende a teoria e a prática de que notícia ruim é que vende jornal ou revista e aumenta os índices de audiência de emissoras de rádio e televisão. Alguns levam essa teoria ao exagero - os abomináveis programas que exploram a violência e a miséria. Uma prática perniciosa que não é nova, pois foi forjada, na televisão, nos tempos da Tupi, e na imprensa escrita nos jornais O Dia e A Luta Democrática, no Rio de Janeiro, e o Notícias Populares, em São Paulo. Esses jornais, que durante muito tempo exploraram a violência e o mau gosto, fizeram justiça ao jargão popular "se espremer sai sangue".

Vale a pena reproduzir uma declaração de Daniel Filho, premiado diretor de programas da Rede Globo de Televisão, em recente entrevista à revista Expressions: "Linha Direta é um projeto meu. E ele é bem apelativo. Fiz para parar com o Ratinho. Não é um programa do qual tivesse muito orgulho." A declaração é prova cabal de como funciona a guerra pela audiência na televisão, e que vale na mesma dimensão para a mídia impressa.

Recuperação da auto-estima

Talvez seja por essa influência que sobreviva a tese de que notícia ruim vende. Nas redações há exércitos de repórteres à cata de escândalos políticos. O denuncismo é privilegiado, em detrimento das boas notícias. O jornalismo fiteiro e os grampos ganharam importância nas redações, o sensacionalismo é cultuado.

Muitas reputações foram e continuam expostas à execração pública, e as retificações nunca merecem os mesmos espaços das denúncias vazias, geralmente se escondem nas seções intituladas "Erramos". E assim caminha o jornalismo, espalhando o pessimismo e jogando na vala comum principalmente a política brasileira. Essa atitude, levada às últimas conseqüências, criou forte descrença na política e nos políticos brasileiros, haja vista que em todas as pesquisas de opinião a avaliação da política e dos políticos é a pior possível. Com certeza o denuncismo do jornalismo contribui para essa avaliação.

Há lampejos positivos, emanados de repórteres que se esforçam em mostrar que nem tudo está perdido na política brasileira. É o caso de Márcio Moreira Alves, de O Globo, que vasculha o país à procura de boas notícias para os leitores. Há poucos meses Márcio deixou sua cômoda condição de colunista político diário para percorrer o país em exaustivas viagens para conhecer in loco experiências administrativas de políticas públicas que estão dando certo e precisam de visibilidade, pois servem de exemplo para outras partes do país.

Esse exemplo de Márcio Moreira Alves precisa ser multiplicado nas redações, porque recupera a auto-estima dos brasileiros. É a prova de que na política, como em qualquer outro segmento da sociedade brasileira, dá para se separar o joio do trigo. Aliás, em matéria de exemplos Márcio é mestre. Basta lembrar de seu discurso, em 1968, no Congresso Nacional, que fez com que a nação despertasse do berço esplêndido para iniciar a resistência à ditadura militar. (Observatório da Imprensa)

(*) Jornalista