Extrato de conta - tentando aprender a conviver diluindo o poder.

Minha participação no seminário cultural da Amazônia - SECAM, em março passado, com críticas às políticas culturais do Estado Brasileiro e dos governos amazônicos, e à própria estrutura do seminário, resultou em reações diversas: imediata prestação de contas da organização do evento que usou do microfone para explicar como se deram algumas escolhas para a realização do evento, e cederam à pressão da platéia para ampliar o elenco que elaborava o “berro amazônico”; manifestação de representantes de culturas que se sentiam excluídas do processo; e, imagino, aprovação da platéia manifesta em cumprimentos à mim, pela coragem de expor a discriminação, e em aplausos demorado.

Não posso afirmar que o processo discriminatório do SECAM fosse deliberado, mas mesmo que não tenha sido intencional provocou ressentimento em grupos que produzem cultura - tanto quanto eu, pois percebi a insatisfação com o seminário por parte de produtores de diversas áreas da cultura, diferentes universos por onde eu transito: artesões, fotógrafos, cantores, carnavalescos, cineastas, atores, hip-hop, e outros representantes de manifestações culturais do Pará e do Amapá. Conversava com pessoas desses universos distintos e ouvia reclamações sobre a censura à exposição de suas produções e conhecimentos, e sobre o teor do documento final que, teoricamente representaria a ‘cultura amazônica’ em evento similar de caráter internacional.

Assisti outros debates desse seminário, quase todos que ocupavam as mesas debatedoras eram professores de universidades, como eu, ou representantes de instituições culturais, deixando aqueles que produzem arte e cultura na posição subalterna de platéia dos representantes dessa elite do extrato social brasileiro. E vi desde discursos afinados com a política oficial para a cultura, como uma técnica do departamento de marketing da empresa Amazônia Celular - cuja boa parte do financiamento para arte e cultura beneficia produções do centro-sul - ensinando como elaborar projeto e concorrer aos financiamentos; como presenciei posicionamentos críticos ao sistema cultural, como do prof. Luisan Pinheiro/ UFPA, que questionou a estrutura do poder no circuito local de artes plásticas, relatando inclusive caso de censura à produção artística em Belém; da profa. Zélia Amador de Deus/UFPA-CEDENPA, que abriu um debate onde era mediadora falando da necessidade de respeito às diversas culturas amazônicas; e de uma antropóloga do MPEG, que convidada a falar sobre cultura indígena disse que isso não existe, que existem culturas indígenas, e lembro dela tecer críticas por convidarem a ela - e não a representantes dessas culturas.

Comparei a conjuntura interna do SECAM com a Amazônia da época da Cabanagem, onde haviam três grupos que lutavam pelo poder: o dos burocratas portugueses que queriam continuar na condição de colônia subordinada à Lisboa, da elite rural que queria aliar-se ao recente independente Império do Brasil - em troca de possíveis benefícios políticos e financeiros da aristocracia brasileira, que, criada pela monarquia portuguesa, era herdeira do absolutismo português, e os cabanos, bando constituído pela população excluída de qualquer direito de cidadania: negros, índios, mestiços, pobres e toda a sorte de degradados - que durante pouco tempo tomaram o poder na Amazônia; ao mesmo tempo lembrei de conversa com Paulinho Moska no chão da sala de sua casa na Gávea-RJ, onde ele me apresentava as músicas do CD “Falso da minha vida o que quiser”, título de disco baseado em trabalho de minha autoria, e onde ele me expôs sua duvida inicial: se compunha músicas explicando ou usando os conceitos que discutíamos sobre "o falso".

Eu, naquele momento, poderia ter apenas explicado para a platéia como funciona a estrutura que mantém a elite que sustenta o poder, e como os bens simbólicos produzidos em manifestações culturais são utilizados para esse fim, mas decidi que era o momento de agir para atingir diretamente essa estrutura que eu contesto. Me desqualifiquei como professor universitário e como doutorando pela UFRJ para me jogar dos 2 metros de altura da mesa debatedora ao rés do chão do auditório, e me identificar como produtor cultural, um igual aos demais naquele ambiente, e abrir o microfone às vozes que até então permaneciam caladas.

Dentre os muitos que falaram a partir da minha franquia do microfone às culturas discriminadas pelo evento, conheço Mameto Nangetu - coordenadora do Instituto das Tradições e Cultura Afro-brasileira no Pará, Vanea Avlis - atriz no Amapá, Domingos Conceição - Movimento Mocambo do Pará; e reconheço o cantor Pinduca. Estes, e todos mais que se manifestaram junto comigo, expuseram à platéia suas versões sobre o processo de exclusão e não reconhecimento de outras manifestações culturais que desviassem o campo de interesse da organização do evento. E, é lógico, contribuíram para extrapolar o tempo previamente destinado ao meu discurso.

Não sou inocente e estou ciente de que essa exposição de mecanismos que visam a manutenção do poder desencadeou reações daqueles que atingi com meu discurso, e não me espanto com as atuais tentativas de punição aos meus atos, mas penso ter contribuído, com minha atitude, para a desestruturação de um processo maior de exclusão, a possível aprovação de um documento que legitimasse uma única, impostora e impositiva, identidade cultural na Amazônia. Acredito que nós, néo-cabanos da globalização, vencemos essa batalha.

Rio de Janeiro, maio de 2004.

Arthur Leandro, artista - membro do grupo Urucum. Tata Pokó ria Zumbarandá - Mansu Kekê Nangetu.