Uma Fábula Geológica: o Calcário, a Fábrica, o Cimento e o Amapá.

Antônio Feijão

As cidades representam o sonho do homem de se encontrar com suas realizações. Foi o cimento que permitiu a humanidade o direito de construir um mundo diferente do que Deus lhe reservou. Assim para falarmos de nossa fábula da fábrica, vamos conhecer um pouco deste outro ator que é o cimento, pois o Amapá, todos nós já conhecemos. O calcário quem sabe, em breve... e a um custo de apenas R$ 50 mil reais, possamos conhecê-lo.

Supõe-se que o homem primitivo, da idade da pedra, já conhecia uma forma de material com propriedades aglomerantes. Ao acenderem fogueiras junto ás pedras de calcário e gesso, parte das pedras descarbonava com a ação do fogo, formando um pó que, hidratado pelo sereno da noite, convertia-se novamente em pedra.

Os Assírios e Babilônios usaram primeiro a argila como material ligante, enquanto que os Egípcios descobriram a cal e o gesso - aliás, como teria sido possível erguer as pirâmides sem "cimento"?

Seguiram-se algumas melhorias introduzidas pelos Gregos e finalmente os Romanos desenvolveram um cimento altamente durável; a maior parte das construções do Fórum Romano foram construídas à base duma espécie de betão. Os famosos Banhos Romanos, construídos por volta de 27 A.C., o Coliseu e a enorme Basílica de Constantino são exemplos da antiga arquitetura romana em que as argamassas de cimento foram utilizadas.

As ruínas romanas, as pirâmides egípcias e as muralhas da China, provam que no século V antes de Cristo, esses povos já empregavam uma espécie de aglomerante entre os blocos de pedras na construção de seus monumentos.

Posteriormente, os gregos e os romanos passaram a usar um material proveniente da queima de um gesso impuro, composto de calcário calcinado e cinzas vulcânicas.

Por volta de 1756, os ingleses incumbiram o engenheiro John Smeaton de obter um cimento que resiste à água do mar. Nesse momento, ele desenvolveu um cimento já próximo do que mais tarde, viria a ser o Cimento Portland, só que calcinado ainda em temperaturas relativamente baixas.

Joseph Aspdin que desde 1811 se dedicou a qualidade do cimento, conseguiu seu intento, definindo proporções mais adequadas das matérias primas e calcinado em temperaturas mais altas (em torno de 800°C).

O material obtido, tinha semelhança com a cor da ilha de Portland, ao sul da Inglaterra e, Aspadin, batizou seu produto de Cimento Portland, recebendo em 1824 a patente concedida pelo Rei George IV. Por volta de 1828, uma fábrica de cimento em Wakefield, começou a produzir e comercializar, regularmente o Cimento Portland. O forno de Cimento Portland utilizado por Aspdin, entre o ano de 1847 e 1850, é o mais antigo existente no mundo até hoje, conservado pelos ingleses como marcos histórico.

A produção de cimento no Brasil teve início em 1926 com a produção da fábrica Perus em São Paulo - SP. O surgimento da maioria dos grupos produtores de cimento hoje existentes no país, deu-se no período entre 1930 e 1960, ocorrendo porém entre 1970 e 1980, o grande desenvolvimento da indústria, a qual evoluiu de uma produção de 9,0 milhões t em 1970 para 27,2 milhões t em 1980. A partir de então, a recessão da década de 80 fez com que a produção apenas retornasse ao nível de 1980, no ano de 1991, quando atingisse novamente o patamar de 27,5 milhões t. Em 1994 a produção brasileira foi da ordem de 25,2 milhões toneladas, nível 5% inferior à produção de 1991.
Só no ano de 2000, o Brasil produziu cerca de 39,6 milhões de toneladas de Cimento Portland.

Vamos retornar ao roteiro de nossa verdadeira história.

Em 1999, após longos 10 anos, retornei a cidade de Itaituba (Pará), onde, por vários anos, trabalhei como geólogo naquelas florestas e por onde peguei 11 malárias. A viagem não fora apenas para matar a saudade da Meca do Ouro e dos velhos amigos garimpeiros, mas principalmente para verificar uma jazida de Calcário para fornecer esta matéria prima para o nosso Amapá, na forma de calcário agrícola. Mandei amostras por minha conta e risco para análise no Canadá e verifique a boa qualidade daquela jazida para fins de corretivo de solos.

Muitos falaram de agricultura extensiva poucos fizeram e assim fui derrotado em mais uma tentativa “Quixotiana” de implantar a nossa tão sonhada agricultura Californiana. A necessidade de implantar uma central de insumos agrícolas no estado fora anestesiada por umas míseras doações de calcário do Canadá, por uma grande empresa de nosso estado, ao Governo.

Nesse final de agosto, fui pego de surpreso ao ler num jornal local que “alguém” iria, talvez um geólogo da escola de “David Cooperfield” encontrar algo que Deus removeu do Amapá, na escala industrial, há mais de 600 milhões de anos. Até aí, encontrar algum relicto de afloramentos de calcário não seria novidade em rochas cristalinas existentes em nossa Amapá. Mas a notícia ainda trazia uma alucinógena novidade de alguém implantar no nosso setentrião, um fábrica de cimento.

Me lembrei do velho lobo da política econômica de nosso País, Roberto Campos, com que tive a honra de conviver como parlamentar por quatro anos. Dizia o nosso “Bob Fields”, como ele era chamado nos USA, que a verdade é o último dos discursos de um político e quando necessitar ser dita que seja depois de uma vitória eleitoral. Como não estou nessas condições, fiquei num grande dilema: mergulhar na sabedoria do silêncio ou descer nas corredeiras caudalosas do debate e da verdade.

A inteligência e perspicácia do Jornalista Carlos Lobato resolveu a dúvida como alguém que sobe numa bicicleta e o instrutor empurra o infante pedalista, ladeira abaixo. Fiquei me perguntando como poderia uma empresa querer montar no Amapá uma indústria que tem 25% de seus custos na extração do calcário, que depende de alto consumo de energia e óleo, é competitiva domesticamente em todos os países do mundo, necessita do mercado numa distância nunca superior há 500Km e principalmente no ano que vem a fábrica de Itaituba entrará em funcionamento, sitiando o nosso mercado com grandes ofertas ao lado da fábrica de Manaus e de castanhal? Para solucionar uma equação como esta qual quer economista ortodoxo resolve - sem mercado e sem preço competitivo no produto não há investimento privado. Capital não é discípulo de Madre Tereza de Calcutá.

A indústria de cimento é considerada uma atividade de capital intensivo devido ao grande investimento necessário para implantação de uma unidade. Estima-se que, atualmente, para plantas de grande porte, os investimentos se situem na faixa de US$ 150,00/tonelada/ano de clínquer/cimento, englobando equipamentos e construções e não sendo computados terrenos, jazidas de calcário e capital operacional. No total o investimento ascende a valores entre US$ 180,00 a US$ 200,00/t/ano de cimento. A tendência da indústria é de escalas de produção elevadas (de 1 a 1,5 milhões t/ano), de modo a diluir o custo fixo e assegurar mais rápido retorno do investimento.

O produto, a nível dos diversos fabricantes mundiais, apresenta alta homogeneidade de especificações, não existindo portanto grande diferenciação por qualidade. A concorrência dá-se pelo preço, sendo que neste sentido, o aspecto custo de transporte e localização é da maior relevância. As indústrias que possuem maior raio de ação em relação ao mercado consumidor apresentam vantagens competitivas, considerando-se ainda o fato do cimento ser material perecível, perdendo suas propriedades em cerca de 60 dias, e que necessita ser estocado e transportado em condições restritas de umidade.

O Estado do Amapá deveria investir sim, na ação obstinada de implantar uma grande central de insumos agrícolas, aproveitando as balsas que retornam vazias de Itaituba e que trariam calcário para moagem em nosso território ou mesmo os navios que buscam cavacos da antiga Ancel, de até 40.000ton de calado, e que vêm vazios, muitas vezes de países que produzem cimento e calcário agrícola. Seria um frete muito barato. Importar insumos baratos não é subdesenvolvimento. Não transformá-los em agentes de cadeias produtivas é que é.

Sendo assim, e já que temos um geólogo disposto a enfrentar Deus, vamos aproveitar a oportunidade, esquecermos a fábrica de cimento e vamos preparar o batismo de nossa era agrícola. Seja de onde vier o calcário: de Calçoene, Itaituba ou mesmo do distante Canadá.

Nunca é tarde para lembrarmos que já estamos no III milênio da Era Cristã. Mãos a obra!


Antônio Feijão é ex-deputado federal e Presidente da Fundação Amazônica de Migrações e Meio Ambiente.