O MELHOR MOVIMENTO FEMINISTA CONTINUA SENDO O DOS QUADRIS

Renivaldo Costa - jornalista

Minha experiência como apresentador de televisão me possibilitou ter contato com figuras que dificilmente eu encontraria em outras circunstâncias. Foi através da TV que conheci políticos como Enéias Carneiro (Prona), Roberto Freire (PPS), José Sarney (PMDB) e artistas como Cláudio Zolli, Jane Duboc, Guilherme Arantes, Nizo Rezende e Léo Gandelman, com quem tenho contato até hoje.

Um dos encontros mais interessantes, entretanto, eu tive com a escritora Rose Marie Muraro. Meu contato com ela rendeu uma polêmica que me persegue até hoje. No final da entrevista que fiz, transmitida pelo SBT no noticiário local, eu atirei à queima-roupa a frase “o melhor movimento feminista é o dos quadris”. A entrevista era “ao vivo” e, no ato, Rose Marie disparou: “Você é um canalha”. O diretor do programa, já temendo uma reação dela, se encarregou de cortar o áudio. Não adiantou. O público percebeu a reação e, durante meses, recebi cartas, e-mails e até ameaças por conta da frase. A imprensa me atirou vilipêndios e classificou-me de machista, chauvinista e retrógrado.

Um ano depois do episódio, que aconteceu em 2000, reencontrei Rose Marie Muraro e comentei a polêmica que ela tinha causado ao me chamar de canalha. Ela riu bastante e disse: “Isso é pra você parar de achar que sou feminista bigoduda e lésbica”. Desde então, minha relação de amizade com a escritora se tornou a melhor possível, apesar dela até hoje acreditar que sou, de fato, “chauvinista”.

Lembrei desse episódio porque esta semana, por coincidência, ganhei de presente do jornalista Marcelo Roza o livro “Os seis meses em que fui homem”. A obra narra algumas das experiências de Rose Marie que, aos 72 anos já foi casada por 23 anos, teve cinco filhos, mais de 10 netos, tomou drogas, tentou suicídio e se considera uma “porra-louca”. Ela também esteve ligada à maioria dos movimentos libertários no Brasil. Foi diretora da Editora Vozes, quando a editora se tornou o mais importante aparelho produtor e reprodutor da ideologia católica de esquerda no mundo. Com a virada conservadora da Igreja nos anos 80, passou a ser perseguida por suas publicações feministas. Quando publicou, em 1986, "Por uma Erótica Cristã", o Papa pediu a sua cabeça e ela teve que deixar a Vozes. Hoje, é diretora editorial da Rosa dos Tempos, ligada à editora Record e publicou recentemente “Memórias de uma mulher impossível”, uma autobiografia onde passa a limpo 50 anos de militância.

Mesmo admirando Rose Marie, sua história e sua postura, devo admitir que discordo francamente de muitas de suas idéias. Já se passaram quatro anos desde a polêmica em torno da frase, mas admito que “o melhor movimento feminista continua sendo o dos quadris”.

Senão vejamos. A revolução sexual dos anos 60 trouxe à tona questões que estavam sendo relegados em segundo plano desde o início do século XX e que escolheram o pior momento da História para emergir. O movimento feminista, que ganhou fôlego nessa época, seguiu no bojo das revoluções contestatórias, garantiu espaço para as mulheres na vida pública, mas não se preocupou em propor soluções para problemas práticos que surgiram dessa saída da mulher da condição de “senhora do lar”. Hoje, 40 anos depois, as fissuras geradas pelo movimento feminista são sentidas na Igreja, na família e refletidas nos meios de comunicação de massa.

Recente levantamento realizado no Brasil revelou que a estrutura familiar clássica, formada pelo pai, mãe e filhos, existe em pouco mais da metade dos lares brasileiros. O restante das famílias é formado por pais ou mães solteiros ou pessoas que vivem o segundo, terceiro ou até quarto casamento. A desestruturação da instituição chamada família começou a acontecer justamente quando a mulher abandonou sua condição de mãe para entrar no mercado de trabalho. Que ela quisesse trabalhar, ninguém pode negá-la esse direito. Entretanto, ao “sair de casa”, a mulher relegou suas atribuições de mãe e esposa. É sabido que nos primeiros anos de vida, a criança necessita muito mais da mãe do que do pai e a ausência desta causa prejuízo no processo de desenvolvimento daquela.

Mesmo que não considerássemos esse fator, já que muitas mulheres podem argumentar que a ausência da mãe pode ser compensada por uma babá ou pela avó (como muitas vezes ocorre), há outro fator relacionado aos movimentos feministas que ainda precisa ser compensado. Dos anos 60 para cá, quais os ícones da feminilidade que legaram descendência ideológica? Tudo bem que nos anos 60 tivemos figuras como Cacilda Becker, Leila Diniz, Patrícia Galvão (morta em 62), Zuzu Angel, dentre outras. Mas, hoje? Que contribuição podem dar para a sociedade, mulheres imbecis como Xuxa, Carla Perez, Luciana Gimenez, Vanessa Camargo ou nossas cantoras de brega?

A vulgarização da sensualidade feminina é um fato e foi engendrada por obra e graça das próprias mulheres que a criticam. Ser bonita, rica e burra, no Brasil, passou a ser condição desejada por nossas meninas e a grande mídia incentiva esse padrão. Que o diga a novela Celebridade.

Minha intenção, longe de polemizar, é suscitar reflexões que possam referendar mudanças. É preciso resgatar o legado intelectual de mulheres que deixaram grandes contribuições, mas foram relegadas a estudos acadêmicos. Sem essas mudanças, me desculpem, mas o melhor movimento feminista continuará sendo mesmo o dos quadris...