FOME, A DOENÇA DO SECULO

Kelma Capiberibe

Desde o Brasil colonial, os problemas da falta de alimentos já deixavam preocupados e chamavam a atenção dos seus governantes. No século XVI surge a preocupação com as culturas alimentares, em função da monocultura, que não deixava espaço para a produção de mantimentos. Durante a escravidão, por razões econômicas, a produção de alimentos esteve muito mais ligada ao auto-abastecimento das propriedades do que às demandas colocadas pelo mercado. Nesta mesma época, como agravante, houve dois flagelos da administração colonial, o dizimo e o recrutamento militar. O primeiro era cobrado indiscriminadamente, fazendo com que os agricultores de alimentos tivessem que pagar quantias absurdas por suas produções. O recrutamento, feito de forma aleatória e desordenada, implicava na fuga dos lavradores, que abandonavam suas plantações.

Como já vimos o Brasil vem de um desgaste estrutural, físico e emocional há décadas. Combater este espectro da fome, doença que já vem incluído num pacote cheio de promoções, não pode ser com meros discursos ensaiados.
“O Programa Fome Zero iniciou no dia 10 de janeiro, quando o Presidente Lula decidiu suspender a compra de caças para a força aérea do Brasil, para investir o dinheiro em ações sociais direcionadas para responder à ameaça criada pela fome no Brasil” (Pravda, on-line). “Com o anúncio do presidente Lula, logo após sua eleição, de que a fome seria sua prioridade de governo, todas as atenções se voltaram para o Brasil(www.fomezero.org.br)”.

Duda Mendonça, articulador e publicitário que trabalhou a imagem de Lula em sua campanha explorou certinho a questão da fome, que é um agravante ao qual todos conseguem perceber por estarem na situação de extrema miséria. Com um slogan objetivo e que mostrava a realidade, foi fácil deslanchar e fazer o candidato subir na concepção do povo. Agora o Presidente Lula para não cair no descrédito lança imediatamente sua campanha contra a fome, espalhando-se por todo o Brasil em uma corrente de solidariedade humana.

Os governos que passaram fizeram do nosso país uma utopia, tornando difícil acreditar em certos modelos de programas para acabar e saciar a fome e extinguir a miséria de milhares de brasileiros. Na verdade o que se tem são pessoas eloqüentes, com discursos persuasivos que na prática não colocam a sua arte com a mesma astúcia de quando falam. Este Brasil espólio, apagaremos. Precisamos ver fatos concretos. O povo brasileiro está massacrado, esfalfado de tantos discursos. Queremos ver propostas sérias, que possam tirar nós, brasileiros, deste círculo vicioso que cerca o Brasil, deste completo abandono vivenciado ao longo de muitas gestões.

“Garantir a segurança alimentar significa garantir as condições de se alimentar dignamente e de forma permanente, com quantidade e qualidade adequadas( Site do Governo Federal p/ o Fome Zero).

Muitos embarcaram nesta onda, do programa Fome Zero, como modelos, artistas, empresários, músicos, atores, atrizes, diretores, palhaços, civis, grandes agricultores etc..., mas não vamos esquecer de que o Brasil é modista. Amanhã tudo acaba, as pessoas esquecem e o Brasil se vê mergulhado mais uma vez em uma ilusão de ótica, numa fantasia que já dura tempos de angustia e muita paciência do povo brasileiro.

“O programa fome zero, atende a municípios que estejam em situações de emergência declarada por causa da seca, o programa fome zero vai chegar a cidades que tenham histórico de trabalho escravo infantil(Folha de São Paulo)".

Emergencialmente abraçar estas causas e levantar está bandeira é muito importante. O povo brasileiro é corajoso e criativo, e mais do que tudo otimista. Resolver o problema da fome no Brasil é um passo importante, mais muito pequeno comparado ao grande abuso de indiferenças sociais que envolvem o nosso povo. Precisamos incluir ações redistribuídas imediatas, destinadas a segmentos e regiões mergulhados em fome aguda. Os mutirões cívicos, estruturais e locais, devem ser implementados em conjunto com ministérios, governos estaduais, municipais e a sociedade organizada, abarcando desde a reforma agrária, apoio à agricultura familiar no nordeste e em outras regiões construindo cisternas, açudes, sistemas de irrigações para que as pessoas não precisem migrar para outras cidades, aumentando assim a desordem por falta de emprego e trabalho honesto, procurando fugir das condições subumanas em que vivem.

Queremos a inclusão no contexto social daqueles que hoje não têm assegurado seus direitos sociais básicos. Chega de tanto descaso com o povo. Exigimos mais respeito com os nossos idosos e que sejam tratados dignamente. Que o trabalho escravo e a prostituição infantil sejam extirpados do nosso cenário social. E outros programas que assegurem aos jovens qualificação profissional e ingresso no mercado de trabalho permanente sejam implementados. Precisamos moralizar de verdade e colocar em prática todas essas idéias e propostas que surgem em um perfil de governo novo e inovador mais que até agora não conseguiu mostrar realmente o programa fome zero ao pé da letra. Fazer assistencialismo é, na minha opinião, colocar a comida na boca do povo sem solucionar o problema na raiz. Sabemos que as dificuldades que afligem o Brasil são graves e perduram por anos obrigando o nosso povo a perder a sua cidadania, sua auto-estima e o altruísmo.
“O programa chegará a cidades que tenham aldeias indígenas, quilombos, famílias assentadas e acampadas. Participação confirmada do Acre e do Maranhão(Folha de São Paulo)".

O índio, deveria ter sido meta de todos que passaram e deixaram suas marcas de retrocesso que vivemos até hoje. O índio não deveria estar sendo lembrado e sim incluído. Ele faz parte de nossas vidas nós temos que cultivar e manter a cultura indígena, para que não haja cada vez mais a miscigenação e os índios não acabem perdendo a sua identidade, e nós, um pedaço de nossa história. O mesmo se aplica aos quilombos, que fazem parte de todo um contexto histórico que deve ser respeitado e preservado, para que tudo não venha um dia, ser apenas memórias. E é oferecendo condições de vida a estas pessoas para plantar, criar, colher, trabalhar artesanalmente o seu próprio sustento, fazer sua farinha, amassar seu açaí etc..., dando-lhes realmente o meio de vida digno e honesto dentro de seus padrões de convívio, para que eles não se apaguem de vez e o

Brasil não perca só a vergonha, mas, também suas cara metade.
Com certeza o Programa Fome Zero só está no começo, procurando se acertar para dar uma nova dinâmica, uma nova cara para este país que carrega uma sobre-carga imensa de derrotas. Muito difícil é a missão de nosso Presidente, mas temos que acreditar que tudo vai se auto-afirmar e corresponder às expectativas de milhares de brasileiros. Construindo novos rumos para proliferação de uma sociedade constituída de igualdades sociais.

Um Brasil entrópico, caótico, que busca a liberdade da sabedoria para resgatar os pedaços esfacelados de sua história, é capaz de superar todas as mazelas vivenciadas pelo seu povo, que, mesmo subjugado, busca sua soberania, escrevendo sua história em cada pedaço desta sofrida, se não a mais perfeita, mas grande nação.