A Ditadura de Gaspari

João Amado
“Os livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas.” Mário Quintana

Há livros que abrem novos horizontes, fazem os homens pensar, sonhar, melhorar. Outros nem tanto. Mas não devemos ignorá-los ou jogá-los na fogueira. Quanto mais deletério o efeito de um livro, mais atenção devemos dar a ele, até para tentar “desarmar a bomba”. Isso vale para Mein Kampf, de Adolf Hitler, ou para os livros de Elio Gaspari.
Alguns livros são cercados de tantos cuidados e atenções da mídia, que não podemos analisá-los separadamente. Esses livros não podem ser compreendidos de maneira isolada, pois são parte de uma campanha com suporte multimídia - a percepção dos leitores será influenciada pela propaganda previamente desenvolvida.
Os livros analisados neste ensaio, A Ditadura envergonhada, A Ditadura Escancarada e A Ditadura Derrotada, de Elio Gaspari, sem a publicidade que tiveram não seriam lidos nem pelo mesmo número de pessoas, nem da mesma forma. Eles devem ser vistos de maneira integrada, como parte de uma mega-campanha. A cobertura da imprensa preparou os leitores para ler os livros de Gaspari como grandes obras historiográficas. Afinal, “a propaganda é a alma do negócio”.
Essa campanha, que impôs uma “ditadura do Gaspari”,é muito mais que comercial, tem reflexos na percepção dos brasileiros em relação à história do nosso país - o que talvez explique a acolhida que a grande imprensa deu aos livros.
Os objetos de minha análise serão não só os livros como a recepção deles na mídia. Fiz apenas um apanhado das resenhas sobre os livros do Gaspari, até porque só uma enciclopédia para dar conta de reproduzir e analisar todas as resenhas, elogios rasgados etc.
Elio Gaspari e seus livros viraram uma religião. Mesmo correndo o risco de ser queimado na fogueira, acusado de proselitismo ou heresia, vou aventar a hipótese desses livros não serem tão maravilhosos quanto a mídia afirma. Ao longo deste ensaio procurarei demonstrar que a interpretação de Gaspari é superficial e ainda tenta isentar as classes empresariais transnacionais e organismos estadunidenses de maiores responsabilidades no golpe de 1964 e na repressão.

Claque e crítica
A grande imprensa, como um partido único, fez resenhas laudatórias, num formidável trabalho de preparação do leitor para considerar os livros de Gaspari as obras máximas da historiografia sobre a ditadura. O Globo do dia 23 de novembro de 2002 dedicou todas as páginas do suplemento literário Prosa e Verso aos dois primeiros livros de Elio Gaspari. Mas O Globo não estava sozinho nesta campanha.
Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, em 26/11/2002, em artigo intitulado "O livro do Elio”, falou que tinha duas aspirações na vida: “A primeira dessas aspirações foi a vinda de Frank Sinatra ao Brasil (...). A outra aspiração, não menos difícil que a primeira, era ter vida suficiente para ler o livro que o Elio Gaspari estava escrevendo desde o século passado. Diversas vezes o interpelei, com alguma rudeza, cobrando-lhe pressa, não queria ir embora deste mundo sem ler as cavilações, as revelações, as informações e as brilhantes tiradas nas quais o Elio é mestre sabido e consabido. Ele está para 1964 como Suetônio está para os Doze Césares. Só que com melhor estilo e maior isenção, pois Suetô nio não era um Tácito nem um Tito Lívio e vivia pendurado na corte, tal como seu rival Petrônio. Misturando os dois cronistas da fase áurea do império romano, mas sempre com estilo melhor e maior profundidade, Elio Gaspari pagou-me a dívida e esclareceu as dúvidas que amealhei esses anos todos.” Que elogios! Qual leitor terá coragem de, ao ler os livros de Gaspari, discordar do Cony? Caso ele não tenha achado o livro tão bom ou bem escrito, acreditará que o problema é a pouca capacidade dele como leitor.
A mesma Folha de São Paulo, na capa da “Ilustrada” do dia 23/11/2002, escalou um dos seus melhores jornalistas para fazer a resenha dos dois primeiros volumes. O título foi perfeito: Gaspari escreve história do regime militar sob ótica de generais. Não há, nem é possível haver, definição mais exata dos livros do Gaspari. Mas não parou por aí, e acabou repetindo a cantilena do (pseudo) rigor de Gaspari e ainda fez algumas afirmações no mínimo exageradas: “Elio Gaspari gestou o que nasce na condição de biografia incomparável do ciclo dos cotu rnos, a despeito da intenção de pôr o ponto final seis anos antes de Figueiredo deixar a cena. E de o autor dizer que não pensou em escrever a história da ditadura. Nunca se fez nada igual no Brasil, nem brasilianistas no exterior. Nem na produção historiográfica acadêmica nem na jornalística. Só notas de rodapé, no obsessivo rigor de não deixar dado sem a fonte respectiva, são 2.542. Nunca o olhar foi tão plural sobre um período usualmente descrito pelos relatos de contendores. Gaspari desvenda o que ia pelos porões da repressão, pelos aparelhos (esconderijos) dos guerrilheiros e pelos palácios.”
Nahum Sirotsky (1) não poupou elogios: “Sem exagero, depois da obra de Elio Gaspari os historiadores terão de reinventar seus estilos e cuidados na pesquisa e interpretação em contexto de como chegamos ao que chegamos e o que pode estar no nosso futuro. (...) O justo é reconhecer que nasceu um grande historiador que pode ser um modelo para os que vierem depois. (...) A obra de Elio Gaspari é uma contribuição inestimável para que se apreenda como construir o país para se enfrentar e ultrapassar tempestades. (...) não há nada de parecido em quantidade de informação. Trata-se de obra de arte (sic). Por uma coisa e outra, é uma obra-prima da reportagem de reconstituição histórica. Encontram-se aí alguns dos momentos em que a prosa jornalística atinge seus mais altos níveis de excelência estética. Nada mais se pode acrescentar. Leiam.”
Leão Serva (2) escreveu: (...) “o livro faz um brilhante retrato do período. (...) é certamente uma das obras mais importantes já publicadas sobre um período fundamental da construção do Brasil atual (...)” E por aí vai... Mas o próprio Serva, no entanto, tem de admitir lá pelo final de sua peça de propaganda que “Os volumes não parecem conter em si informações totalmente novas”. O interessante nesse artigo de Serva é conhecer a folha corrida do Gaspari: “Jornalista renomado, Elio Gaspari esteve sucessivamente na berlinda dos principais veículos da mídia impressa brasileira nos últimos 30 anos. Depois de ser por vários anos o assistente do colunista Ibrahim Sued, foi membro do time original que participou do lançamento da revista ‘Veja’, em 1968”. Que belo passado! Começou com Ibrahim Sued e depois foi para a Veja.
A Academia Brasileira de Letras (3) também se curvou ao “talento” de Elio Gaspari. “No dia 17 de julho, comemorando o 106º ano de fundação da Academia Brasileira de Letras, foi entregue o Prêmio ABL - Ensaio, Crítica e História Literária, ao escritor Elio Gaspari pela obra A ditadura envergonhada e A ditadura escancarada”.

Nossos colegas historiadores também prestaram vassalagem ao novo “colega”. Sobre o livro A Ditadura Derrotada, Maria Celina d’Araújo, da FGV, “acredita que o livro poderá ser adotado na rede pública de ensino”(4). Aliás, os livros de Gaspari já estão sendo encomendados e comprados por escolas particulares (5).

Daniel Aarão Reis Filho, Professor Titular de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense, mostrou que partilha de boa parte das teses de Gaspari: “Venceram o medo (da quebra da hierarquia e da disciplina, do comunismo, da baderna, da canalha) e as direitas. Perderam o vigor da retórica e a falta de convicções, as esquerdas. Lideradas por um presidente primitivo, um pobre de caráter. Não era propriamente um covarde, mas se habituara a contornar os caminhos da coragem. Seu governo não foi derrubado, desmanchou-se, a um custo de sete vidas, todas civis, nenhuma em combate. Um desmoronamento.(6)” Aarão, como Gaspari, faz o mesmo tipo de crítica pessoal à Jango e também vê o golpe como um simples desmoronar, parecendo esquecer as sucessivas tentativas de golpes desde, pelo menos, o último governo de Getúlio Vargas.

Como Gaspari, Aarão parece se esquecer dos muitos anos e milhões de dólares gastos para corroer o governo João Goulart e instaurar o tal “medo do comunismo” etc. O governo de João Goulart foi desmoronado, foi corroído. Não caiu sozinho, não “desmanchou-se”. Não se pode afirmar que o “governo não foi derrubado”. Mas Aarão continua: “Ao contrário do que habitualmente se imagina, não houve ali o triunfo de articulações calculadas, mas da improvisação, uma frente social e politicamente heterogênea, acionada pela ousadia e pela decisão de uns quantos civis e militares, liderados por um chefe que se intitulava alegremente de vaca fardada (Mourão Filho)”. Mais uma vez Aarão tenta mostrar o improviso do golpe e demonstra falta de leitura sobre o período ao afirmar que Mourão “liderou” o golpe.

O golpe foi preparado por anos a fio, não foi improvisado. Recomendo a Aarão a leitura de 1964: A conquista do Estado, do seu ex-colega de UFF, falecido este ano, René Dreifuss. Por hora, transcrevo um pequeno trecho: “O fato de que tais preparações são estrategicamente inspiradas fica claro em decorrência das observações de um arquétipo de conspirador histórico como foi o Marechal Cordeiro de Farias, figura proeminente nos eventos críticos de 1922, 1924, 1930, 1932, 1937, 1945, 1955, 1961 e, finalmente, 1964. O Marechal, que havia chefiado a Missão Militar Mista Brasil-Estados Unidos, declarou, ao se referir à criação de um dos mais importantes aparelhos do Estado, a Escola Superior de Guerra: ‘Em 1948 nós plantamos carvalhos. Não plantamos couve. A couve floresce rapidamente, mas só uma vez. Os carvalhos demoram, mas são sólidos. Quando chegou a hora, nós tínhamos os homens as idéias e os meios’”(7). Quanto a Mourão, ele estava longe do núcleo duro do poder, era um instrumento (8). Pelo visto faltou leitura ao historiador Daniel Aarão Reis Filho.

A única crítica que Aarão fez foi por motivo pessoal, pois ele participou da luta armada: “Problemática é uma certa tendência a apresentar, em muitos momentos, a esquerda armada como ‘equivalente’, pela esquerda, dos chamados ‘porões’, pela direita. Considerando-se a desproporção de forças, e o fato de que um lado tinha o Estado do seu lado, trata-se de um exercício discutível, para dizer o menos.” Mas tirando esse aspecto pessoal, Aarão adorou os livros de Gaspari: “Ainda faltam dois volumes, mas o já feito é uma síntese exaustiva de tudo o que foi publicado em diálogo constante com os autores e memorialistas que mais se destacaram na reflexão sobre o assunto. Uma narração polêmica, sempre irônica, saudavelmente obcecada com a informação, checada e verificada, na boa tradição de repórteres, detetives e historiadores. A partir de agora, um texto incontornável.”

Mas nem tudo está perdido. Ao menos Mário Maestri e Mário Augusto Jakobskind fizeram uma crítica lúcida aos dois primeiros livros de Gaspari. Para eles, na narrativa de Gaspari “o golpe de 1964 deixa de ser a imposição radical das classes hegemônicas de novo padrão de acumulação, (...) projeto que fracassara em 1954 e 1961 devido à insurreição popular nascida do suicídio de Getúlio e do movimento pela Legalidade. Gaspari praticamente absolve o empresariado nacional da responsabilidade política da consolidação da ditadura, transformada em um sucesso essencialmente militar. Perfilhando a velha apologia golpista, a ditadura de 64 é apresentada como resposta preventiva ao golpe esquerdista em preparação (9)”.

Maestri e Jakobskind destacam também o absurdo do “universo analítico” de Gaspari: “É com surpresa que os leitores penetram nessa espécie de máquina do tempo que os projeta em um universo analítico quase oitocentista, onde os fatos históricos resolvem-se sobretudo a partir da decisão, das qualidades e das idiossincrasias dos grandes atores políticos. (...) Essa visão da história leva o autor, ao modo da literatura romântica do século 19, a traçar breves perfis psicológicos dos grandes homens para deduzir das idiossincrasias pessoais dos personagens (...) seus comportamentos políticos e a explicação de momentos históricos singulares. Entre as razões da vitória do golpe de 1964 estariam a decisão dos golpistas e a pachorra de Goulart (...) retratado como ser político vacilante, medíocre e abjeto.”

A versão do “andar de cima”: Omissões e contradições
Em síntese, pode-se dizer que seus livros contam a história que interessa ao “andar de cima”, sem novidades ou originalidade. Gaspari retirou os ingredientes de seu sopão de livros já publicados, omitindo o que lhe interessou, inclusive as análises, substituindo-as por suas interpretações personalistas e superficiais.

Num balanço final dos três volumes e das 1500 páginas, fica a impressão de que os tais arquivos funcionaram mais como uma jogada de propaganda para alavancar o livro, pois mesmo as raras “revelações”, além de óbvias, não ajudam a entender de maneira mais aprofundada nem o golpe de 64, nem a ditadura.

Para meu espanto inicial, nos dois primeiros volumes, A Ditadura Envergonhada e A Ditadura Escancarada, Gaspari nem citou o livro de René Dreifuss, 1964: A conquista do Estado. No primeiro volume, em que deveria contar a história do golpe, estão os mais variados tipos de livros, até On the Road, de Jack Kerouac. Já o clássico de Dreifuss sobre o golpe não!

Pensando bem, é bastante óbvio o motivo que levou Gaspari a tentar evitar ao máximo o livro de Dreifuss. Em 1964: A conquista do Estado fica claro porque as empresas multinacionais apoiaram o golpe. E como lucraram, controlando o Estado brasileiro através “do regime tecnocrático, baseado em tomadas de decisões aparentemente racionais”.(11)

Somente num capítulo que trata de Golbery no Ipês (12), no terceiro livro, Gaspari cita o trabalho de Dreifuss. Mas Gaspari tentou exterminar qualquer chance do leitor entender os motivos que lavaram ao golpe de 1964 e a ditadura. Por isso o livro de Dreifuss só foi citado no terceiro volume, mas superficialmente, sem se referir às interpretações mais gerais de Dreifuss a respeito do golpe e da ditadura, já que estas análises iriam de encontro à fábula que Gaspari criou.

Qualquer interpretação mais profunda foi omitida nos livros de Gaspari. Ele descartou qualquer explicação sobre as razões históricas para o golpe de 64 que fugisse do personalismo exacerbado. Por isso o livro de Otávio Ianni, o clássico O colapso do populismo no Brasil, não é citado uma única vez.

O livro de Ianni nem foi citado porque seu livro não se presta à prática de Gaspari, ou seja, à canibalização desavergonhada dos livros alheios. Além do mais, o livro de Ianni desmonta a farsa de Gaspari de que o golpe foi apenas preventivo.

Otávio Ianni, em um parágrafo, explica o que Gaspari tenta esconder em 1500 páginas: “Há um contínuo encadeamento entre as relações políticas e econômicas, nos momentos críticos das relações externas do Brasil. Tomadas em uma perspectiva histórica, no entanto, essas flutuações desembocam no golpe de Estado de 1964. Esse é um fato político fundamental na execução do novo estágio das relações dos Estados Unidos com a América Latina. Uma decorrência necessária desse processo é a liquidação da democracia populista no Brasil. Aliás, em 1945, ficara evidente o conflito entre as primeiras manifestações do incipiente padrão getuliano de desenvolvimento econômico e as exigências da hegemonia dos Estados Unidos.(13)”

Gaspari justifica o golpe, mais uma vez, no terceiro volume, afirmando que “Fidel Castro reunia-se com esquerdistas brasileiros para discutir la revolución ao mesmo tempo que subvencionava estruturas guerrilheiras em quatro estados do país.(14)”

Gaspari prefere explicações bem personalistas e simples. Para ele, Geisel e Golbery “fizeram a ditadura e acabaram com ela” (15). Sua interpretação dos motivos que levaram ao fim da ditadura chega a ser ridícula: “Para quem quiser cortar o caminho na busca do motivo por que Geisel e Golbery desmontaram a ditadura, a resposta é simples: porque o regime militar, outorgando-se o monopólio da ordem, era uma grande bagunça (16).

Defesa escancarada da CIA
Desrespeitando a inteligência do leitor, Gaspari tentou apagar os rastros da atuação da “máquina americana de informações” ao afirmar que ela só veio ao Brasil depois de provocada pelos “terroristas”: “Desde o assassinato do capitão Chandler, em outubro de 1968, era elementar que, além do aparelho policial brasileiro, os terroristas tinham no seu encalço a máquina de informações americana.” Em seguida, Gaspari cai em contradição escancarada: “Na segunda metade de 1968, o consulado americano em São Paulo teve dois contatos que lhe permitiram estabelecer uma conexão entre Marighela e os dominicanos. Cada contato resultou num telegrama, seus textos ainda são desconhecidos. Sabe-se apenas que o primeiro é de 14 de agosto” (!!!) (17) Nessa o Gaspari derrapou feio. No afã de defender a CIA, ele se esqueceu que tinha acabado de afirmar que foi desde o assassinato de Chandler, em outubro de 1968, que “os terroristas tinham no seu encalço a máquina de informações americana”.
A defesa de Chandler é apaixonada: “Veterano do Vietnã, tinha trinta anos e estudava sociologia na Fundação Armando Álvares Penteado. Dera entrevistas e fizera pelo menos uma palestra sobre a guerra para uma audiência de militares. Deveria voltar para Washington dali a poucas semanas (18).” (...) “Com Chandler, a delinqüência esteve precisamente na escolha do objetivo. Por mais de trinta anos, mesmo depois da anistia, seu assassinato foi defendido com base em duas acusações: era um agente da CIA e torturava vietcongues. Nenhuma das duas jamais foi provada. Consideram-no agente da CIA num raciocínio segundo o qual qualquer americano era, em princípio, um perigoso espião. Fora para a Guerra do Vietnã como vinte anos antes outros capitães americanos desembarcaram na Normandia lutando contra o nazismo, mas isso não vinha ao caso.”
Chandler era um inocente veterano de guerra que resolveu, sem nenhuma outra intenção secreta, estudar sociologia no Brasil, numa faculdade sem nenhuma projeção, justamente naquela época?! Que coincidência, não? Gaspari preferiu omitir o que Jacob Gorender escreveu: “Veterano de guerra do Vietnã, em missão do governo dos EUA, o capitão Chandler precisava encobrir sua atividade no Brasil com um pretenso curso de ciências sociais numa escola decadente, então dirigida por fascistóides. Tudo no melhor estilo dos serviços secretos” (19).

Gaspari não dá maiores informações em relação a outros justiçados, como as sinistras figuras de Otávio Gonçalves Moreira e Henning Albert Boilesen. Apenas os apresenta como vítimas dos terroristas, sem contar as atrocidades que cometeram. O carniceiro Otavinho, (20) executado, aparece apenas como “chefe da seção de busca e apreensão do DOI de São Paulo”, e Boilesen (21) como “colaborador do DOI”.

Gorender novamente nos informa sobre o que Gaspari omite: “Boilesen se ligou intimamente à OBAN. Por decisão voluntária, incumbiu-se da tarefa de coletar dinheiro e equipamentos entre empresas paulistas para o centro de torturas.” (...) “O mesmo se pode dizer do delegado Otávio Gonçalves Moreira, o sinistro Otavinho, metralhado a 25 de fevereiro de 1973 numa rua de Copacabana, quando voltava de um banho de mar. Membro fanático do PCC nos tempos de estudante de direito, ligou-se à OBAN por escolha própria e se salientou pela perseguição implacável às organizações clandestinas.(22)”

Em relação ao cabo Anselmo, Gaspari também defende uma tese que isentaria a CIA, mais uma vez. Para isso, omite informações, mais uma vez. Apesar de citar o livro de Moniz Bandeira em outras ocasiões, Gaspari preferiu desconsiderar a informação contida neste livro sobre o Cabo Anselmo, para continuar tentando apagar ao máximo os rastros da CIA no Brasil. Moniz Bandeira revelou que “o comandante Ivo Acioly Corseuil, Subchefe da Casa Militar da Presidência da República, avisou a Goulart e ao Almirante Mota que o líder do movimento, José Anselmo dos Santos (...) era agente do serviço secreto, provocador, trabalhando para a CIA. (Entrevistas dadas pelo Cmt. Ivo Acioly Corseuil e pelo Cel. Pinto Guedes a Moniz Bandeira). Não se tratava de conjetura e sim de informação, oriunda da própria Marinha. E os acontecimentos posteriores confirmariam. Não era de estranhar, aliás, que Anselmo estivesse a promover uma provocaçã o contra o Governo. A CIA, já àquele tempo, dava assistência ao Centro de Informações da Marinha (CENIMAR) e à Polícia de Lacerda. (23) (...)”

Vamos dar uma olhada no que Gaspari escreve sobre Anselmo: “Logo após a deposição de Goulart, o Cabo Anselmo fora uma das pessoas mais procuradas do país. Safara-se se asilando na embaixada do México. Surpreendentemente, desistira do asilo e se transferira para a rede clandestina da AP. Capturado em menos de 24 horas, tornara-se troféu da onipotência da nova ordem. Depois de passar pelo DOPS, foi mandado para a delegacia no Alto da Boa Vista. Lá vigoravam os costumes típicos das carceragens do bairro, com presos circulando pelo prédio, chegando até mesmo a substituir os policiais em tarefas burocráticas. Anselmo fazia serviços de telefonista, escrivão e assistente do único detetive do lugar em suas rondas de cobrança de propina em pontos de bicho e bocas-de-fumo. Um ano depois, tornou-se o único preso da delegacia. Com regalias ampliadas, era-lhe permitido ir à cidade. Numa ocasião surpreendeu o ministro-consel heiro da Embaixada do Chile, visitando-o no escritório e pedindo-lhe asilo. Quando o diplomata lhe perguntou o que fazia em liberdade, respondeu que tinha licença dos carcereiros. O chileno, estupefato, recusou-lhe o pedido. Em abril de 1966, com a ajuda da AP, Anselmo deixou a cadeia. (24)”

Na nota de pé de página Gaspari tem de confessar que não foi exatamente com a ajuda da AP que Anselmo fugiu: “Anselmo informa que em troca de propina o guarda de plantão deixou-o sair para o que dizia ser um encontro amoroso”(25).

Gaspari defende a versão do próprio Anselmo de ele só trocou de lado depois da prisão em maio de 1971. As benesses que Anselmo desfrutava, e que causaram espanto no ministro-conselheiro da Embaixada do Chile, não parecem ter espantado Gaspari. O jornalista Edmar Morel tinha outra opinião: “Ainda em O golpe começou em Washington não poupei o cabo José Anselmo dos Santos, que fugira da Embaixada do México para ser preso em Laranjeiras. Bonitão, com ares de artista de cinema, dava entrevistas e posava para a TV, tudo arranjado com antecedência. (...) No dia da fuga de Anselmo, Carlos Heitor Cony publicara no Correio da Manhã uma carta da filha do almirante Aragão, contando que seu pai, vítima da ‘maldade, ódio e ferocidade’, tornara-se um ‘trapo humano’ na prisão, perdendo inclusive a saúde mental devido às torturas. A diferença de tratamento entre o cabo e o almirante era evidente. Desde que Anselmo fugira da embaixada, estava caracterizado o papel do trânsfuga. Ao deixar a ABI certa tarde, fui abordado por um conhecido de vista, estabelecendo um imprevisto diálogo:
- Você está sendo injusto com o cabo Anselmo. Ele é um patriota. Ele leu o seu livro!
Antes que eu respondesse qualquer coisa, fez um convite:
- Você topa um encontro com o Anselmo?
Fiz-me de desintendido:
- Mas ele está preso...
- Ele tem bom comportamento, e o delegado deixa ele passear na floresta da Tijuca. Podemos tomar um chope na cascatinha.
Evidentemente não topei o encontro. O traidor, protegido pela Marinha, levava vida de nababo na delegacia do Alto da Boa Vista. Recebia visitas, comia de pensão e saía ao encontro de amigos na floresta.”(26)

Gaspari, nas duas citações que faz a Dan Mitrione(27), não deu uma única palavra sobre as atrocidades cometidas por este especialista em técnicas modernas de tortura. Dan Mitrione, que depois de atuar na Coréia e no Vietnã, veio ensinar técnicas avançadas de tortura no Brasil: “entre outros suplícios, introduziu o cassetete elétrico, reformou o pau-de-arara e passou a ensinar os lugares mais dolorosos para os choques elétricos. Mitrione, depois de desgraçar a vida de centenas de brasileiros, foi para o Uruguai, onde morreu numa cilada, sendo enterrado em Washington com honras militares(28)”.

Gaspari ainda tem a desfaçatez de afirmar que por causa do assassinato de Mitrione o governo Nixon descartou a possibilidade de combater a tortura praticada no Brasil e Argentina. (29) Quando Gaspari morrer deve ser enterrado com as mesmas honras de Mitrione em Washington, pois o serviço que está fazendo pela imagem dos organismos de repressão americanos é inestimável.
Golpistas a soldo das multinacionais
Geisel, Golbery e Heitor Ferreira, os mocinhos da história de Gaspari, não só tinham ligações ideológicas e organizacionais com as classes empresarias transnacionais como receberam salários do capital estrangeiro.

A promiscuidade dos mocinhos da estória de Gaspari com as empresas multinacionais é naturalizada. Golbery ganhou uma grana preta quando foi presidente da Dow Química, mas Gaspari não viu problema nisso. A Dow deu esses salários para Golbery pela sua competência como administrador ou pela sua influência no governo ditatorial?

Mas, de raspão, acaba escapando um pequeno exemplo do tipo de trabalho que Golbery fazia para a Dow: “O general não tinha simpatia pelo fortalecimento do BNDE e detestava Marcos Vianna. Haviam se desentendido num episódio em que Golbery defendia os interesses da Dow, cuja presidência só abandonaria nos primeiros dias de fevereiro. Numa simplificação grosseira, a Dow queria montar - com financiamento do BNDE - um pólo petroquímico próprio na Bahia. Vianna respondeu com uma carta dura. Golbery não o esqueceu(30)”. Golbery ainda tentou perseguir Marcos Vianna, que impediu a mamata, pois nunca o perdoou por não deixar que a “viúva” (o governo federal) fosse saqueada pela empresa à qual Golbery devia os melhores salários de sua vida. Em nenhum momento Gaspari questiona se era imoral o golpista (e lobista) estar ganhando essa grana preta. Pelo contrário, Gaspari naturaliza o fato, dizendo que a briga com Marco s Vianna foi uma questão pessoal e não coloca em xeque a honestidade de Golbery. Aliás, quem indicou Golbery para a Dow foi o senhor Roberto Campos, vulgo Bob Fields (31).

Geisel também recebeu salários do capital multinacional: “Em junho de 1980, Geisel assumiu a presidência de uma empresa privada na área de química fina, a Norquisa, criada por um grupo de seus antigos colaboradores e funcionários na Petrobrás. O capital principal da Norquisa resultara de ações da Companhia Petroquímica do Nordeste (Copene), conglomerado de empresas estatais e privadas nacionais e estrangeiras, cujo conselho de administração também presidiu.(32)”

O obscuro Heitor Ferreira, uma espécie de co-autor do livro de Gaspari, segundo ele próprio, foi secretário de Golbery e Geisel e também trabalhou para o capital estrangeiro. Desligou-se do exército para ganhar dinheiro no projeto Jari, “investimento bilionário de um magnata americano (33)

Como evidência de que as interpretações de Dreifuss e Ianni acerca da ligação entre o golpe, a ditadura e as empresas multinacionais estava correta, todos os mocinhos da estória de Gaspari - Golbery, Geisel e Heitor Ferreira - receberam salários das empresas multinacionais; Geisel e Golbery foram golpistas de carteirinha e Heitor, um típico cogumelo da ditadura.

Em suma, Gaspari conta a versão da história que interessa ao “andar de cima”, ou seja, às grandes empresas transnacionais, à “máquina de informação americana” e aos poderosos em geral. O “andar de cima”, comovido, agradece.

Notas bibliográficas
(1)http://ultimosegundo.ig.com.br/useg/brasil/artigo/0,,1002996,00.html
(2) http://ultimosegundo.ig.com.br/useg/cultura/artigo/0,,1001586,00.html
(3) http://www.academia.org.br/2000/aniversario.htm
(4) Globo do dia 6 de novembro de 2003, página 10 do primeiro caderno, sob o título Historiadores: livro abala imagem de Geisel.
(5) http://www.colegiodosjesuitas.com.br/nossocolegio/setores/biblioteca/novas_aquisi.php
e http://www2.unoescvda.edu.br/bib/aquis_2003/superacaol.htm
(6) www.lainsignia.org/2003/mayo/cul_010.htm
(7) 1964: A conquista do Estado, René Dreifuss, página 105.
(8) Idem, páginas 373 a 397.
(9) O ensaio intitulado A Historiografia envergonhada, de Mário Maestri e Mário Jakobskind pode ser encontrado nos seguintes endereços eletrônicos: http://brasil.indymedia.org/pt/blue/2003/05/253866.shtml e http://www.espacoacademico.com.br, como também no site do La Insignia.
(10) O Globo 23 de novembro de 2003.
(11) 1964: A conquista do Estado, René Dreifuss, Editora Vozes, 1981. Página 485.
(12) A Ditadura Derrotada, da página 155 a 165.
(13) Otávio Ianni, O colapso do populismo no Brasil, Civilização Brasileira 1968, Pág. 174
(14) A Ditadura Derrotada, Elio Gaspari, página 163.
(15) A Ditadura Envergonhada, Elio Gaspari, página 20.
(16) Idem, página 41.
(17) A Ditadura Escancarada, página146.
(18) Ditadura Envergonhada, Páginas 325 e 326.
(19) Combate nas trevas, Jacob Gorender, página 237
(20) A ditadura Escancarada, página 397
(21) Idem, páginas 395 e 396
(22) ) Combate nas trevas, Jacob Gorender, página 237
(23) O governo João Goulart e as lutas sociais no Brasil, Moniz Bandeira páginas 169 e 170.
(24) A ditadura Escancarada, páginas 344 e 345
(25) Idem, páginas 346 e 347
(26) Memórias de um repórter, Edmar Morel, páginas 250 e 251.
(27) A ditadura escancarada, páginas 298 e 302.
(28) Memórias de um repórter, Edmar Morel, página 251.
(29) A Ditadura Escancarada, página 302.
(30) A Ditadura Derrotada, página 300.
(31) Idem, nota na página 111.
(32) http://www.cpdoc.fgv.br/dhbb/verbetes_htm/2304_9.asp
(33) ) A Ditadura Derrotada, página 201.