Ilusões Perdidas

* Estilac Xavier

"Cuba não venceu nenhuma batalha heróica fuzilando esses três homens, mas perdeu minha confiança, estragou minhas esperanças, defraudou minhas ilusões"

As palavras de José Saramago ecoam o horror pela morte de três homens em um processo sumário num país que se chama Cuba. A sentença exterminou o sonho do grande escritor português no regime cubano e fuzilou a esperança de um povo. A pena de morte é um castigo cruel e desumano seja qual for a sua motivação. Toma um caráter mais absurdo quando é decretada contra dissidentes e recebe a chancela oficial de um governo. Não vejo fundamento ético para condenar alguém à morte e assassiná-la legalmente. Assassinato legal continua sendo assassinato.

Poderia ser um acompanhante da desilusão do escritor português. Não posso.
Cheguei à mesma conclusão há mais de dez anos. Defendi e defendo o povo cubano contra o embargo americano e sempre me solidarizei com o seu sofrimento, mas há muito tempo não concordo com o seu regime. Em 1993, como Secretário Municipal de Obras e Viação de Porto Alegre, assinei um manifesto encabeçado pelo então prefeito da capital, Tarso Genro, defendendo eleições livres e gerais para Cuba.

Agora a questão ressurge, na esteira da aterradora invasão americana ao Iraque e num momento de angústia em razão da crescente violência e insegurança onde as soluções pregadas quase sempre apontam para medidas mais violentas, num círculo de fogo sem fim. É neste contexto que li, revoltado, justificativas a respeito do fuzilamento. Quanto erro, quanta contradição! A esquerda, para continuar sendo de esquerda e lutar por um futuro mais luminoso para a Humanidade, não pode se omitir, justificar ou referendar o injustificável. Milhares de homens e mulheres, através da história, sacrificaram suas vidas para defender a vida e a liberdade. É revoltante assistir acrobacias verbais de alguns quando deveriam bradar a sua veemente condenação àquelas mortes.

Repugnante é assistir, também, o governo dos Estados Unidos condenar as execuções e falar em direitos humanos, democracia e liberdade para Cuba. O EUA adota, em vários dos seus estados, a pena de morte. Na Pensilvânia se condenou à morte o jornalista e ativista político Mumia Abu-Jamal, que aguarda execução mesmo com evidências de ser inocente do crime que o acusam.

Como Império, o EUA executou - contra o direito internacional humanitário - um ataque assassino contra o Iraque. Falta-lhe autoridade moral para emprestar credibilidade a denúncias visivelmente oportunísticas e retóricas.

A triste imagem do menino Ali Ismaeel Abbas, que perdeu os braços e estarrece o mundo, é uma denúncia incandescente do poder de morte e destruição desta Nova Roma, que cinicamente age invocando belas palavras do direito sem ter, no entanto, qualquer afeição por ele, pela paz, pela liberdade e pela democracia. É o povo cubano e somente ele quem deve construir o seu futuro através de métodos democráticos como o das eleições livres e gerais, terminando com o regime de partido único. E que, assim, resgate as generosas idéias de justiça e liberdade que fizeram, um dia, os saramagos do mundo apoiar Cuba.

* Deputado Estadual do PT e Presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.

(Artigo publicado na Zero Hora no dia 24 de abril)