"Jabá Legal", um escândalo no Jornalismo

Indecência jornalística. Corrupção editorial. Uma afronta ao Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Estas e outras frases poderiam definir a verdadeira discrepância que é a relação de muitos jornalistas amapaenses com o Governo do Estado do Amapá. Vários "profissionais" da área têm um relacionamento com o Poder Executivo estadual de lá que faria com que editores, repórteres e jornalistas de outros Estados, verdadeiramente comprometidos com a luta pela ética no Jornalismo, dessem murros em suas mesas ou até pensassem em desistir da profissão.

Um esquema já apelidado de "Jabá Legal" é sinônimo de complacência e subserviência de jornalistas e isenção de responsabilidade para donos de veículos de comunicação no que diz respeito ao pagamento de salários a empregados. Funciona da seguinte forma: o repórter faz suas matérias sempre sob a ótica do governo, escamoteando informações e suprimindo dados que "comprometam a reputação" do senhor governador ou dos que fazem parte de sua administração. Em troca, têm seus nomes incluídos na folha de pagamento de uma agência de comunicação que presta serviços ao Governo do Estado.

E os "salários" variam de acordo com a "importância" do "profissional" na área de comunicação. Um repórter de jornal escrito (se é que assim podemos chamar, pela parca qualidade dos textos) ganha em torno de R$ 800, 00 a R$ 1.000,00; já um radialista titular de um programa "jornalístico" ganharia uma soma mais vultosa, um valor que tem muitos zeros, só não mais zeros do que as cifras embolsadas pelos que apresentam um telejornal ou têm um programa de TV.

E nem precisa ser, necessariamente, um bom profissional, ter o nome respeitado ou saber escrever/falar direito. Basta ter espaço em qualquer veículo de comunicação e o mais importante: ser "apadrinhado" do secretário de Comunicação do Estado ou de alguém tenha influência junto ao governador.

Ótimo para empresários de comunicação do Amapá, que além de já receberem uma generosa soma de dinheiro por mês só para falar bem do governo e calar qualquer voz que contra o Estado se levante, ainda se livram da responsabilidade - ou do peso - de pagar salários aos seus "jornalistas".

E as matérias que eles produzem? Quando citam o nome do senhor governador tratam de escrever na seqüência um turbilhão de adjetivos, obviamente todos de elogios. Falar a verdade, só se for a verdade do governo.

Nosso informante no Amapá conta que recentemente o único jornal escrito que faz oposição ao governo (e tem a linha editorial mais próxima da coerência) desnudou um escândalo de desvio de dinheiro num banco estatal, o qual pode chegar a R$ 900 mil. O dinheiro apropriado indebitamente pertencia a um fundo que beneficiaria artesãos, que ficaram a ver navios.

Nenhum outro jornal publicou um parágrafo sobre as denúncias. O único veículo de comunicação que se aprofundou no assunto foi a emissora de televisão TV Amapá, afiliada local da Rede Globo.

Moral da história: lá no Amapá, se algum profissional quiser fazer jornalismo de verdade, fica maniatado para tal. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come! É uma discussão muito maior do que se imagina, com direito a achaques à autoridades para exigir "o leitinho das crianças".

Há pouco tempo escrevi um artigo sob o título "Parem com a hipocrisia!", o qual mandei para todos os endereços de e-mail de veículos de comunicação que conheço no Amapá. O conteúdo do texto falava da hipocrisia e falta de ética, de bom sendo e até de caráter de "figuras" que se dizem jornalistas no Amapá, citando nomes como Luiz Melo (mais de R$ 100 mil mensais do governo), Carlos Bezerra (um subprojeto de jornalista que anda engravatado e se diz amigo íntimo do governador) e J. Ney, este último além de receber muito dinheiro dos cofres públicos tem um irmão ocupando cargo no primeiro escalão do governo, mas ainda tem o cinismo de dizer que "precisamos parar de confundir jornalismo com política". Ora, me poupem!

Recebi várias respostas ao artigo, algumas com argumentos inconsistentes, dizendo que era melhor eu não espinafrar os "jornalistas" do Amapá, outras com grosserias e até com termos chulos. Mas nenhum me provando o contrário, como propus no campo "Assunto" do e-mail enviado.

O fato é que mesmo com uma extensa coleção de erros e barbeiragens do Governo do Estado - que transformados em matérias jornalísticas virariam escândalos -, os jornalistas que ali atuam querem mais é saber de ter o seu "jabazinho" na época do repasse de dinheiro à tal agência. O jornalismo de qualidade que vá pro inferno...

E ainda tem mais: quem não participa do conluio fica impedido de atuar e tem espaço para trabalhar cerceado; é perseguido, mesmo que para isso seja necessário o uso de "influência" de assessores do governo junto aos donos de rádios, jornais e televisões. Um exemplo: o fim do programa radiofônico jornalístico e do jornal escrito, ambos produzidos por Douglas Lima. O "calaboca" seria resultado de uma articulação do agora candidato apoiado pelo governo à Prefeitura de Macapá junto ao dono da rádio FM onde ele atuava e junto ao secretário de Comunicação.

Lembrando que Douglas é o mesmo ex-editor do jornal diário impresso de Luiz Melo que foi acusado de escrever uma legenda que "feria sua honra" do governador. Apesar de negar ter sido o autor do texto "criminoso", o editor foi expurgado da redação do jornal, para não abalar o "namoro" entre Luiz Melo e o senhor governador - leia-se dinheiro do Estado.

Recebi ainda a informação de que no fim deste ano se constituirá a primeira turma de jornalistas formadas no Amapá. Se isto for verdade, tomara que este texto chegue até os formandos, para que a primeira turma de jornalistas "Made in Amapá" não seja de novos Luiz Melos, Carlos Bezerras e J. Neys. Claro que aqui não generalizo, mas são muitos os jornalistas que têm o nome na tal lista do "Jabá Legal", infelizmente arranhando e comprometendo a imagem dos profissionais amapaenses pautados com a ética e com a responsabilidade com a informação imparcial. Estes pseudo-assessores de imprensa do Estado fazem um péssimo jornalismo? Não importa. Não importa também que escrevam errado, que façam quer texto inconsistente, que gaguejem ao microfone, que falem asneiras TV, mas que falem bem do Governo do Amapá!

Enquanto o Congresso não aprova o projeto que cria os conselhos de jornalismo para pôr um fim à situações estapafúrdias como o "Jabá Legal", parece que por aí pelo Amapá ainda há muito, muito mesmo o que se fazer para que o cidadão amapaense tenha informação de boa qualidade pautada na ética e, acima de tudo, no respeito ao leitor, ao ouvinte ou ao telespectador.

Carla Munhoz - Jornalista
Reg. Prof. 1598/ DRT-AL