O triste fim de Joana D'Arc
autor desconhecido

Ela subiu nas pesquisas impulsionada pelos filmes do marqueteiro Nizan Guanaes que a mostravam como uma Joana D'Arc brasileira: a grande novidade da campanha, a mulher guerreira competente e sem medo, que veio resgatar o Brasil da corrupção e da desonestidade que predominam no mundo político controlado pelos homens. A Roseana
Sarney dos filmes de Nizan Guanaes simbolizava a mudança, mas também passava a sensação de que iria conservar os avanços da Era FH. Uma Joana D'Arc construída sob medida para conquistar os corações e mentes dos eleitores ávidos por boa alternativa à Presidência da República.

Essa imagem, que transformou Roseana Sarney no grande fenômeno eleitoral das eleições presidenciais, vem se desfazendo desde a operação da Polícia Federal que apreendeu R$ 1,34 milhão nos cofres da empresa de sua propriedade e do marido, Jorge Murad, em São Luís, detonando a crise que levou o PFL a deixar o governo. A
transformação de Roseana em personagem de um caso com ingredientes do Brasil do atraso e da impunidade destruiu as ilusões dos eleitores enfeitiçados com os encantos televisivos da candidata do PFL.

É o que revelaram as pesquisas qualitativas, feitas pelo GPP e outros institutos de pesquisa junto a grupos de eleitores na semana passada. O sentimento manifestado por boa parte dos participantes das discussões sobre o caso é de frustração e decepção com quem lhes parecia ideal para comandar o Brasil. Muitos integrantes dos grupos começaram suas intervenções dizendo que já haviam deixado de ser eleitores de Roseana Sarney.

Na vida real, fora dos comerciais da televisão, a candidata do PFL é coadjuvante, com o ex-senador Jader Barbalho, do triste filme sobre o gigantesco rolo da extinta Sudam. Um rolo de tráfico de influência e desvio de dinheiro público que está sendo desvendado por inquérito do Ministério Público de Tocantins, cujo último capítulo foi a batida na empresa de propriedade de Roseana, que desencadeou toda a confusão.

Um veterano especialista em pesquisa eleitoral diz que é irreversível o estrago na imagem de Roseana provocado pela exibição, no Jornal Nacional de quinta-feira, da foto dos pacotes de dinheiro apreendidos na empresa de Roseana. A cena é muito mais forte do que as indignadas declarações com que a candidata tentou convencer os brasileiros de sua inocência, atribuindo tudo a uma trama diabólica engendrada pelos gênios do mal do PSDB.

As primeiras pesquisas após o ruidoso caso envolvendo a filha de José Sarney mostram o começo do desabamento de sua candidatura entre os eleitores. Em pesquisa nacional feita pelo Instituto Vox Populi, Roseana obteve 20% das intenções de votos, cinco pontos percentuais abaixo dos 25% alcançados em pesquisas antes da crise.

Outros especialistas em opinião pública admitem que a queda de Roseana poderia ser estancada, se ela apresentasse logo explicações contundentes que a tirassem de vez do escândalo das fraudes da Sudam. Mas não é esse rumo que o caso vem tomando.

A liminar conseguida por Roseana, suspendendo as apurações do Ministério Público que envolvem o seu nome, não surtiram qualquer efeito no noticiário. Os jornais avançaram nas investigações e as revistas do fim de semana trouxeram revelações que enredam ainda mais a candidata do PFL no enorme rolo da Sudam.

Roseana ainda não conseguiu responder à questão mais importante aos olhos do público: a origem dos R$ 1,34 milhão apreendidos na sua empresa. Já foram apresentadas várias versões para explicar a procedência da grana. Nenhuma é convincente, e algumas chegam a ser ridículas. O assunto já virou motivo de piadas.

Na entrevista em que anunciou o rompimento do PFL com o governo, Roseana se recusou a falar sobre a origem do dinheiro. ''Não é crime ter dinheiro em caixa'', alegou. Não é crime, mas, no mínimo, representa uma tentativa de burlar a CPMF criada pelo governo do qual o PFL fazia parte até quinta-feira passada. A CPMF volta à votação
na Câmara dos Deputados esta semana. Como o PFL vai explicar seu voto num imposto que a empresa de sua candidata a presidente faz malabarismos grotescos para não pagar (se é que foi essa mesma a razão de o dinheiro não ter sido depositado num banco)?.

O sensato presidente do PFL, Jorge Bornhausen, declarou que o partido não deixará Roseana Sarney ser queimada como a heroína francesa Joana D'Arc. É louvável o esforço de Bornhausen para salvar a candidata, mas a fogueira que consome a imagem de Roseana Sarney como a heroína das eleições de 2002 está longe de ser apagada. E não adianta chamar Nizan Guanaes. Num caso como esse, a melhor solução é abandonar a disputa.

Os ex-Roseana

Pela pesquisa do Vox Populi, os cinco pontos perdidos por Roseana foram distribuídos entre os demais candidatos. Os especialistas avisam, porém, que ainda é cedo para saber o destino dos eleitores desiludidos com a candidatura de Roseana. Eles são, em sua maioria, cidadãos desprovidos de ideologia e, por isso, podem desembarcar em
qualquer candidatura.

Pergunta inocente

Você guardaria R$ 1.000 na gaveta de seu armário?