Jornalismo amapaense - ficção ou surrealismo?

"Hoje, os formados são a regra. Com mais gentlemen e menos boêmios na profissão, a imprensa melhorou, e a ética e o status do jornalista subiram."

Não, a frase acima não foi dita pelo Chris Natal durante o tal do colóquio realizado na Seama que tanta polêmica gerou. A frase foi escrita no The Journalist, publicação norte-americana especializada, na década de 80... do século 19. O autor fazia referência a entrada de jovens diplomandos nas redações da penny press, que passava então a contratar repórteres em vez de alugá-los como free lancer. Segundo Luiz Amaral, autor do livro A Objetividade Jornalistica (Sagra-Luzzzato Editores - 1996), que cita a frase em questão, data também dessa época a exploração sistemática do sensacionalismo. Toda semelhança não passa de mera coincidência.

O fato é que a discussão sobre a qualificação profissional é antiga. Começou na esteira da revolução industrial que deu início ao processo de massificação da imprensa. No Brasil, a questão foi polarizada, nas duas últimas décadas, entre a obrigatoriedade ou não do diploma de Comunicação Social (Jornalismo) para o exercício da profissão, e chegou ao Amapá alguns séculos depois na forma de tempestade em copo d’água. Enquanto isso, o resto do Brasil discute a criação de um Conselho Federal de Jornalistas para botar ordem na profissão e baixa o pau na juíza paulista Carla Rister que, através de liminar, pretende transformar o jornalismo em casa da mãe-joana.

Precisava um Natal afirmar que a sociedade amapaense precisava aprender a esperar os estudantes do Seama se formarem para saber o que era jornalismo de verdade para que zelosos guardiões do templo desencadeassem uma guerra santa contra o infiel que ousou questionar a qualidade do trabalho de alguns coleguinhas - chegaram mesmo a afirmar que isso representa quebra da ética profissional. Ah, bom?!...De que ética estão falando? A da lei do silêncio?

No que me diz respeito, até hoje ainda sei o que é ser um jornalista de verdade, ainda que nos anos oitenta estivesse nos congressos e encontros da Fenaj a fazer coro: Réporter-fotográfico - Jornalista de verdade! Réporter-fotográfico - Jornalista por inteiro! De tanto ouvir as nossas palavras de ordem, ou de saco cheio, os colegas de outras funções acabaram acreditando e os fotógrafos se transformaram em jornalistas de verdade, com direito a carteirinha, carimbo e obrigatoriedade de créditos nas fotos. E foi por causa dos créditos que até hoje tem colega de texto enciumado a chamar o Réporter-fotográfico de meu fotógrafo. Isso quando não o chamam de lambe-lambe.

Não conheço o Chris (ou Kris? ou Cris?) Natal, mas penso que transformaram as opiniões pessoais de um professor em ataques à toda a imprensa, como se a mesma tivesse sido eleita pela sociedade como sua única e legítima representante. O interessante é que um dos criticados, que vem utilizando poéticos argumentos eivados de xenofobia e chauvinismo para crucificar o Natal (acusado de ser australiano), foi candidato a deputado estadual e não obteve mais de 390 votos de seus leitores e ouvintes. O que nos leva a concluir que a sociedade anseia por mudanças na imprensa... A começar pelas liberdades de opinião e de expressão, inclusive sobre a forma e o conteúdo do jornalismo praticado por quem quer que seja.

A história passou a ganhar episódios cômicos quando um deputado propôs aos seus pares da Assembléia Estadual uma moção de repúdio às declarações natalinas. Por unanimidade os deputados decidiram que o jovem professor representa uma ameaça à nossa brava imprensa. O Sindicato dos Jornalistas do Amapá também deu o ar de sua graça e publicou um grandiloqüente manifesto de repúdio, enviado em três vias a diversas instituições, inclusive a Fenaj. O manifesto, entre outros chavões, acusa Natal de corromper os futuros focas e não aceita a postura arrogante, autoritária e antidemocrática do dito cujo que se pretende acima da sociedade amapaense. Daí pensei estar em preparação um novo golpe de Estado. Cheguei a ver o Natal saindo dos porões da Gloriosa, à frente de tanques, disposto a derrubar um dos baluartes da democracia. Por precaução, telefonei ao consulado francês para perguntar se a França chiraqueana ainda me aceitava de volta. Nunca se sabe...

Só me tranqüilizei quando um estudante de Comunicação da Seama, emprestando a voz de todos seus colegas de classe, veio a público pedir desculpas pelas infâmias cometidas pelo coordenador do curso. Foi bonito, parecia o Mitterand em lágrimas pedindo perdão ao povo francês por ter participado do governo colaboracionista de Vichy.

No meio de toda essa confusão, com todo mundo zelando pelos princípios éticos e profissionais, acabei não sabendo direito porque estão linchando o Natal em praça pública. que deve agora estar sofrendo da Síndrome de Repúdio. Mas ficou uma indagação, eco daquela colocada pelo Corrêa Neto na sua coluna Geléia Geral (www.correaneto.com.br ): será que o Sindjor-Ap iria às redações para repudiar o Natal, caso ele tivesse "detonado" meios de comunicação outros que os do sócio-proprietário de uma rádio e de um jornal local?

Os quatro dias de silêncio impostos à Rádio Difusora durante as eleições, sem direito a nenhuma defesa, me dizem que não. No fundo, somos como os latifundiários - todos a favor da reforma agrária, desde que ela seja feita além de nossas cercas.

De toda maneira, as inábeis colocações do Natal tem o mérito de iniciar a derrubada de um dos tabus do jornalismo amapaense - o da recusa em discutir a si mesmo. O debate está aberto. Que os sem-vozes transformem o latifúndio em terras produtivas...


Herbert Marcus

Jornalista. Reg. Prof. n.º 740 DRT-Pa