O LADO REACIONÁRIO DA IMPRENSA

Cartas Ácidas - Agência Carta Maior


Estive fazendo a retrospectiva das Cartas Ácidas escritas em 2002 pelo titular desta coluna, Bernardo Kucinski. É difícil dizer qual foi a pílula que o lado reacionário da imprensa brasileira teve de engolir: se a derrota do golpe para derrubar Hugo Chávez na Venezuela, em abril, ou se a vitória de Lula, no final do ano.

Defino: o "lado reacionário" é na verdade uma prática, aquela que quer dar uma interpretação do acontecimento como sendo o acontecimento. É a prática que quer, por assim dizer, "pautar a realidade", visando criar um senso comum derivado de interesses que não podem aparecer como tais. Este "lado reacionário" não é privilégio da direita; pode aparecer pela esquerda também.

Nos casos de direita, por exemplo, a prática do "lado reacionário" consiste em geral em definir o que é "moderno", o que é "atual", o que são "mudanças necessárias", o que são as "reformas imprescindíveis"; o que não se enquadra nestes moldes é "coisa de dinossauro", "populismo", "assistencialismo", "paternalismo", "lixo", e outros xingamentos.

À esquerda, o "lado reacionário" apresenta em geral na boca do povo, ou da classe, ou outra entidade, a posição que se sabe ser de uma facção; todas as outras posições são vis artimanhas de seres ignóbeis para deter a marcha da história etc. Este "lado reacionário" não se confunde, por exemplo, com uma posição que um jornal assuma explicitamente, por exemplo, num editorial. Esta posição pode ser conservadora, socialista, radical ou outra; desde que explícita, a posição se legitima. Nos exemplos a que me refiro (Chávez e Lula), os interesses manifestos eram claramente de direita. O caso mais espetacular talvez tenha sido mesmo o do golpe na Venezuela, porque ele fez o "lado reacionário" de nossa imprensa reviver, talvez mesmo sem querer, uma espécie de nostalgia do seu braço armado, o "instinto golpista", que há muito ela não conseguia usar. Esse lado esteve presente várias vezes em nossa história mais recente: em 54, na tentativa de golpe que culminou com o suicídio de Vargas; em 64, com o apoio explícito ao golpe e depois com o apoio também ao regime e até à censura posta em prática. Esse apoio teve maior ou menor duração, de acordo com o órgão e até de acordo com o veículo. O apoio na televisão, por exemplo, durou mais do que na imprensa escrita. Nesta, a retórica de apoio à ditadura entrou em franco declínio a partir da edição do Ato Institucional nº 5, nos fins de 1968.

Depois o "instinto golpista" reapareceu na eleição de 82, quando foi conivente com a frustrada tentativa de garfar a eleição de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, só neutralizado pela convocação da imprensa estrangeira. Ele entrou em franca atividade com a ascensão do PT e de Lula, atingindo talvez seu apogeu na eleição de 89, quando ajudou a eleger o "caçador de marajás", este, uma autêntica criação sua.

Desde então, embora o "lado reacionário" tenha permanecido em atividade, distribuindo anátemas a quem se opunha ao Consenso de Washington, à primazia do mercado e ao neoliberalismo, o "instinto golpista" fora posto na geladeira, talvez pela fubecada que levou com os resultados do governo Collor.

Mas com Chávez ele pode renascer e florir, e derramar-se em capas esfuziantes e editoriais saudando a queda do "dinossauro populista", enquanto o presidente constitucionalmente eleito da Venezuela reentrava em seu palácio de governo nos braços do povo em pé de guerra, contra os golpistas. Ficou a lição: desta vez, embora as manobras golpistas continuem na Venezuela, a imprensa como um todo está mais cautelosa em relação ao desfecho da crise e suas conseqüências.

O affaire Lula

Com Lula a coisa foi bem mais complicada. O "instinto golpista" não podia evidentemente se manifestar. Mas então o "lado reacionário" tinha tarefas redobradas, e para serem desempenhadas com mais sutileza. A Carta Ácida escrita em 18/09/2002, em plena campanha do primeiro turno, é muito elucidativa a este respeito. Ela mostra os mecanismos que ajudavam certas matérias a serem pautadas pela ótica de favorecer a campanha de Serra, sem evidenciar essa tendência; ao contrário, aparentavam isenção.

Valia de tudo: fotos eloqüentes, manipulação de números, das datas em que os números tinham sido obtidos, tudo aparentando "objetividade". A revista "Época", por exemplo, estampou uma foto de Lula se olhando no espelho, com a legenda "obstinação refletida", e uma de Serra examinando documentos, com a legenda que diz "centralizador e metódico"; coisas assim.

O que interessa focalizar aqui é que nada deu certo para este "lado reacionário" da imprensa, nem para outros, como o das investigações que montaram dossiês sobre Roseana Sarney e também, é bom lembrar, sobre Celso Daniel, o prefeito de Santo André assassinado no começo do ano. Derrubaram Roseana, Ciro cresceu; houve um esforço concentrado para derrubar Ciro, mas quem cresceu foi Lula. E o fato maior, que nenhum "lado reacionário" poderia prever, é que a candidatura de Lula cresceu por si mesma, ela mesma despertou novas energias pelo Brasil afora.

Por que o "lado reacionário" não podia prever? Porque ele tem algo de escorpião, que pica a própria cabeça. De tanto pautar os outros, termina por pautar a si mesmo: só acredita no que sua fórmula aceita. E um Lula com aura de estadista moderno, para esta fórmula, é inaceitável. E um Lula com ares de maior estadista desde Vargas, ao lado do povo com esperanças que parelhas não se viam talvez desde os tempos de Juscelino, então é demais. O "lado reacionário" enfartou, entrou em colapso, foi para a UTI.

É, mas não morreu. Ele é "imorrível". Está com as pontes safenas em dia, agora tentando pautar o próprio governo Lula, apontando-lhe de novo o que é "moderno" [para o mercado], as "reformas necessárias" [ao mercado], as "mudanças imprescindíveis" [para o mercado] e assim por todos os séculos dos séculos amém.
De qualquer modo, o ano se desenvolveu entre boas e más notícias; estamos entrando em 2003 com umas "boas festas" como jamais se viu neste País. Deixo aqui, para meditação, um fragmento do Martin Fierro, de José Hernández:

Derecho ande el sol se esconde
Tierra adentro hay que tirar;
Algún día hemos de llegar
Después sabremos adónde.