Minha história com o francês - Le français mon amour

Quem pensou encontrar aqui um relato amoroso com um gaulês, pegou o concorde errado. A paixão é outra, é a língua e a cultura francesa.

Quando escrevi o pronunciamento de lançamento em Macapá, do meu livro França: um sonho de viagem, achei por bem esclarecer essa história, já que invariavelmente, inspiradas pelo senso comum, que associa Paris como sinônimo de chique, muitas pessoas são levadas a pensar, que gostar de francês, falar francês é bestice, esnobismo.

Não foi paixão à primeira vista. Estudei Secretariado no CCA. No terceiro ano o estudo da língua francesa era obrigatório. Era final dos anos 70, eu jogava voleibol pela seleção do Amapá, e estávamos treinando para um campeonato disputado em Aracaju-SE, sob o comando de Marly Gibson. Os treinos eram no horário de meio-dia às 14 horas, com isso eu perdi as primeiras aulas de francês e fui mal na primeira prova. Fiquei chateada e detestando francês.

Em Sergipe, não vencemos nenhuma partida e, o pior, a Técnica, para nos punir, não nos deixou sequer pisar na areia da praia. Na volta para casa, sem vitórias, sem banho de mar e mal no colégio, matriculei-me num curso pré-vestibular. Pensava fazer espanhol, mas optei pelo francês quando soube que Fernando Medeiros, meu professor no colégio, também estava no cursinho do Professor Edésio, o "Lobatão". Vi ali a chance de recuperar as aulas que eu havia perdido no colégio. Foi o começo de uma longa trajetória de aprendizado da língua francesa, que revivi naquele breve pronunciamento: as aulas no Centro de Línguas da UFPa., o curso por correspondência em Rondônia, e os contatos via internet que me levaram à realização daquele sonho.

Era um sábado de agosto de 2003. Para sorte da platéia, fui obrigada a falar pouco: havia amanhecido afônica, depois de ter ficado até meia-noite comendo camarão e tomando água de coco na Fazendinha. Tentei ser sucinta, falando de apenas três coisas.

Em primeiro lugar falei da satisfação de estar lançando o livro na minha cidade de Macapá, onde tenho meu umbigo enterrado, onde moram meus pais e demais familiares, e onde tenho poucos mais fiéis amigos. Em particular, por estar fazendo aquele evento na UNA-União dos Negros do Amapá. Sinto-me orgulhosamente negra e amapaense, mesmo tendo saído de casa aos 18 anos para estudar em Belém e emendado caminho para trabalhar em Rondônia.

Me perguntaram o que o livro trazia de interessante que pudesse despertar o interesse do leitor, afinal, um livro escrito a partir de um diário de viagem parece ser algo muito pessoal e a prova disso é que os personagens são meus familiares e amigos. Acredito que foi conseguir transmitir a emoção e o humor que as situações vividas me inspiraram. Devo isso a influência de Lindanor Celina, cronista paraense, que no início de 2003 morreu em Paris. Viajei muito através de uma série de crônicas por ela publicadas, denominadas "Crônicas de Paris e além".

Finalmente, achei por bem esclarecer que, quando digo: " o próximo sonho é a volta para Macapá, para uma casinha de varanda de frente para o Amazonas". Quando me pergunto: "porque Macapá me chama para essa volta?", não é só por estar mais perto da França, mas sobretudo, Macapá me chama para essa volta porque: aqui se come o melhor camarão, aqui sufla o melhor vento que vem do Amazonas e porque a melhor mãe do mundo, também mora aqui.

Vânia Beatriz www.vbeatrizbr.blog.uol.com.br