“Made in USA”

Passei um mês nos Estados Unidos da América e não consegui comprar uma lembrança “made in USA”. A camisa adquirida num shopping yanque por 20 dólares era fabricado no Sri Lanka, uma pequena ilha localizada ao sul da Índia. Mesmo contendo impresso símbolos do orgulho norte-americano, como do Parque de Yellowstone, os bonés que comprei para presentear os amigos eram todos de Bangladesh. Mas o sapato...de Taiwan. O relógio... da China. Um amigo da Jordânia tinha me alertado que os USA vendem em dólares o trabalho dos outros.

Uma lata de “Brazilian Nuts” que havia comprado por 12 dólares para saborear as castanhas-do-Brasil, quando abri encontrei nozes e somente 6 castanhas. Depois soube de um professor dos USA que a castanha-do-Brasil estava em falta. Até brinquei com o professor citando que era porque ainda não descobriram o Iratapuru.

Já no Amapá recebi uma matéria publicada no “The New York Times” divulgando que realmente a castanha-do-Brasil estava em falta, pois o fornecimento de castanha para o mercado externo é monopólio da família Mutran e os castanhais existentes no Pará estão sendo dizimados pelo desmatamento.

Soube nos USA que a castanha é muito apreciada por lá, principalmente durante as festas de final de ano para consumo da amendoa desidratada “in natura”. Fiquei imaginando o quanto as cooperativas do sul do Amapá poderiam faturar se conseguissem quebrar o monopólio da exportação da castanha dos Mutrans e produzisem o “Brazilian Nuts” ás margens do Rio Jari.

Além do mais, a região do sul do Amapá passa a ser estrategicamente a mais importante da Amazônia, pois é a única que abriga concentração de castanhais ainda preservados, o que teoricamente facilitaria a coleta do fruto e a produção da castanha. O problema é que as cooperativas de castanheiros do sul do Amapá passam por dificuldades, inclusive uma delas está negociando o arrendamento de sua estrutura com os Mutrans.

A castanha do Sul do Amapá, a camisa do Sri Lanka, o boné de Bangladesh, o sapato de Taiwan e o relógio da China, todos são produtos “made in globalização”, articulados sob a égide dos países ricos que deslocam sua base produtiva e de exploração de recursos naturais para os países pobres, onde os serviços são baratos, sem entretanto, compartilhar os benefícios econômicos da comercialização desses produtos.

O capital é global e seletivo, ao passo que o trabalho, via de regra, é local. E assim vai-se consolidando as relações norte e sul, ricos e pobres, aumentando a pobreza e acentuando a crise ambiental. O efeito disso tudo é que os recursos vão dos pobres para os ricos, enquanto a devastação e a poluição vai dos ricos para os pobres.


Marco Antonio Chagas é mestre em desenvolvimento sustentável pela UNIFAP/UnB