A vera história do manganês

Chegaram no final dos anos quarenta. Perfuraram a epiderme da terra para ver o negro minério da Serra, que Antônio James, caboclo de Mazagão, achara no Amapari e entregara a Mário Cruz. Passa tempo, é o Território. O Mário, muito esperto, foi ao Janary: " Capitão, olhe o que descobri". A essa altura a história apagou o nome do garimpeiro, e o Mário emprego e pensão ganhou. Vieram com uma mão na frente e outra atrás, lá das Minas Gerais. Após constatar que o manganês bamburrava, assinaram contrato com o Governo. Via Congresso, conseguiram 65 milhões do Eximbank. Amigaram-se à Bethlehem Steel, e a Foley Brothers surgiu para construir a estrada de ferro. Operários armaram o cais, levantaram vilas para os funcionários. Máquinas vorazes começaram a abocanhar a terra e os vagões a levar rumo ao Rio-Mar, além Atlântico, as pedras negras do lugar. A empresa tornou-se forte. Emprenhava os cargueiros, exportava para a Europa, Oriente, América do Norte. E o “good american friend” foi nos comendo na conversa, o bom sacana, pagando a tonelada a preço de banana. Assim os anos rolaram e eles enricaram. Um dia amordaçaram a Liberdade. Denunciaram as falhas do contrato, tentaram revisá-lo; não puderam. Nomes da imprensa e um poeta protestaram, mas no Congresso as vozes se calaram. Eu mesmo amarguei na Fortaleza oitenta dias miseráveis porque escrevera contra a safadeza. Agora o que resta são crateras. Na face magra do chão a marca de exploração, um manganês fracassado. Mudaram pra cromita, pinho, dendê, celulose, outras pastagens. Dispensaram operários, venderam a Vila, planejam novas sacanagens. Essa história não muda, meus senhores. Vem do Brasil Colônia, é secular. Não são nossos amigos, nunca o foram. É preciso por isso examinar os projetos que trazem na bagagem essa sede infinita de enganar. Nem sequer olham o homem, a terra, a gente. A eles interessa simplesmente o que de nossa terra vão levar.

Isnard Lima Filho