Marabaixo: a mais importante manifestação do folclore amapaense

Angela Gonzalez

No Amapá, o Marabaixo é uma das mais vivas e belas manifestações da cultura herdada dos negros africanos. Em algumas comunidades como Curiaú e Igarapé do Lago essa dança é mais comumente praticada. Em Macapá, os bairros do Laguinho e da antiga Favela (Santa Rita) também conservam fortes tradições do Marabaixo.

Essa dança possui uma coreografia que imita os passos dos negros escravos com os pés presos por correntes. O batuque é comovente e cadenciado, sendo marcado por tambores chamados de “caixas”. O canto, ou “ladrão” , como é comumente chamado, lembra o lamento firme e vivaz de quem vivia na senzala cultivando esperanças em voltar para o continente africano. O termo “ladrão” para designar as músicas cantadas durante a dança é devido à forma improvisada como as músicas se desenvolvem. Um participante “rouba” a deixa do outro que vai completando a música na improvisação.

Uma das explicações para a origem do nome Marabaixo diz que significa “mar abaixo”, dando a idéia do trajeto dos negros da África para o Brasil. Outros dizem que vem de “marabiti”, termo da língua árabe que quer dizer "saudar os deuses".

No Amapá, existe um calendário oficial do Marabaixo que começa no domingo da Páscoa, no bairro Laguinho, em Macapá. Depois da missa na Igreja de São Benedito, o Marabaixo é dançado de manhã e à tarde na casa do “festeiro”. Cinco semanas depois da Páscoa, num sábado, é feita a chamada “Cortação do Mastro”. Os participantes da festa cortam o mastro e o guardam para o dia seguinte quando acontece o “Domingo do Mastro”. No domingo, munidos com bandeiras do Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade, os brincantes vão buscar o mastro, dançando, cantando e soltando foguetes. Pegam o mastro e levam para a casa do festeiro.

Dali a três dias, é a “Quarta-feira da Murta”. Murta é o nome de uma planta cheirosa que, para os dançantes do Marabaixo, tem o significado místico de limpeza espiritual. Na tarde de quarta-feira, os participantes vão fazer a colheita da murta para ser usada no dia seguinte, chamado de “Quinta-feira da Hora”. É quando ocorre o “levantamento do mastro”: enfeitado com os galhos de murta e a bandeira do Divino no alto, o mastro é fixado. Nesse dia, a festa dura até a madrugada. Nos 18 dias seguintes, são feitas ladainhas ao Divino e à Santíssima Trindade na casa do festeiro, onde é montado um altar. E todas as noites, depois da ladainha, há festas.

Exatamente 9 dias após a quinta-feira da Hora, acontece o “Sábado do Divino Espírito Santo” quando há uma grande festa na casa do festeiro. No dia seguinte, “Domingo do Divino Espírito Santo”, o Marabaixo é dançado novamente. E as ladainhas continuam até o final de semana seguinte, encerramento da festa, com o “Sábado da Trindade” e o “Domingo da Trindade”.

No “sábado da Trindade”, há mais uma festa na casa do festeiro. E no domingo, uma missa matinal. No domingo à tarde é feita novamente a "quebra da murta", dessa vez para enfeitar o mastro à Santíssima Trindade. Durante a colheita da planta, muita dança, canto e foguetes com a bandeira da Santíssima Trindade empunhada pelos participantes.

Na noite de Domingo, finalmente, acontece a ladainha de encerramento em louvor à Santíssima e o baile. Mas quem pensa que o calendário acaba aí, se enganou!

No dia seguinte, “Segunda-feira do Mastro”, é feito um buraco à frente da casa do festeiro para a fixação do Mastro da Santíssima. É feita a levantação do segundo mastro, que é fixado ao lado do primeiro, erguido semanas antes. Os mastros do Divino e da Santíssima Trindade ficam lado a lado. Isso é feito de manhã bem cedo. Até o meio dia dança-se o Marabaixo.

A finalização do período de festa se dá no domingo seguinte ao levantamento do mastro à Santíssima. Os participantes chamam de “Domingo do Senhor”. Nesse dia, o Marabaixo é dançado até as 18 horas, quando acontece a "Derrubada do Mastro", quando os dois são derrubados. A dança segue até altas horas. E a tradição segue através dos séculos.