Mau jornalismo: a arma que mata o espírito

*Emanoel Reis - Macapá (AP)

Não tecerei considerações sobre a decisão do governo Lula da Silva em cancelar o visto do correspondente do jornal americano "The New York Times", Larry Rohter.
Nem cabe aqui, após uma semana de polêmica internacional, retomar o assunto. Que Lula errou feio (infelizmente, mais uma vez), disso todos sabemos. Ele simplesmente sapateou na Constituição que ajudou a escrever e junto com Ulysses Guimarães festejou sua promulgação em 1988.

Uma pena Lula ter ignorado as admoestações de Ricardo Kotscho, secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência. Aos 55 anos e 40 de profissão, Kotscho, que é amigo pessoal do presidente, foi a única voz dissonante na reunião de terça-feira, 11, da qual também participaram o porta-voz André Singer (jornalista e cientista político) e o ministro Luiz Gushiken, titular da Secretaria de Comunicação.

Nesse encontro, Singer e Gushiken, ao que parece, induziram Lula a atropelar o inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal ("... é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de
comunicação, independente de censura ou licença").

Apesar de ter alertado o presidente sobre o exagero da medida (expulsar do Brasil o jornalista americano), Kotscho foi voto vencido.
Aliás, nem era preciso cancelar o visto de Larry. O texto dele, sobre supostos excessos alcoólicos de Lula da Silva, tem pouca consistência jornalística. Trata-se de um imenso "nariz-de-cera" (é um preâmbulo muitas vezes desnecessário, longo e vago; ou seja, prolixidade). Em bom "comuniquês", Mr. Larry encheu lingüiça para garantir os caraminguás do mês - e que caraminguás!

Ao "construir a reportagem" sobre Lula, o correspondente do NYT abjurou das mais elementares regras do jornalismo. Quem leu o texto de Larry publicado no jornal americano, edição de domingo, 9 de maio, perceberá certo esmero na elaboração dele. Mas, só isso. Dissecado numa primeira leitura, logo se observa falhas gravíssimas. Por exemplo: omissão de fontes, juízo de valor em excesso, frases de duplo sentido, parágrafos sinuosos. Apesar de veterano (e talvez por considerar-se acima do bem e do mal) Larry tratou seu ofício com desdém.

Portanto, um texto facilmente desmontável. Para Ricardo Kotscho isso não seria problema. Afinal, jornalismo para ele é uma "opção de vida" e não um "mero ganha-pão". Ou, como fazem em terra tucuju, instrumento de barganha para obtenção de vantagens espúrias. Kotscho trabalha desde os 15 anos. Durante o regime militar (1964-1985), coordenou a série de reportagem "Mordomias" sobre gastos, compras e hábitos de políticos do país. A série teve de esperar para ser publicada pelo resultado "explosivo" para a época.

Apontar essas incongruências no texto de Larry Rohter seria mais eficaz pois o atingiria em seu ponto nevrálgico: a vaidade. E de quebra, colocaria em dúvida a credibilidade do correspondente na imprensa internacional, principalmente porque outras reportagens dele, produzidas na Argentina, durante o governo Carlos Menem, também foram danosas à imagem daquele país.

Devemos aproveitar o episódio Larry Rohter para refletir sobre o exercício do jornalismo. E como continua atual a história do "foca" (repórter novato) que, de tanto insistir junto ao redator-chefe conseguiu seu primeiro emprego no jornal. Como era Semana Santa, ele deveria escrever sobre Jesus Cristo.

Mas antes de deixar a redação para fazer a reportagem quis saber se deveria falar bem ou mal do Filho de Deus.
Já me perguntaram incontáveis vezes se é possível "falar mal" de Jesus Cristo. Minha resposta sempre provocou polêmica porque meus interlocutores querem saber como materializar um ataque contra alguém cuja conduta moral não permite questionamentos. Ou seja, para eles Jesus nunca cometeu uma falha. E estão certos. Mas ao estudioso da hermenêutica é fácil alterar o sentido das palavras e fazer o leitor concordar com a conclusão que se quer dar ao texto.

E pela primeira vez vou mostrar o caminho das pedras.
A princípio é mister determinar uma linha de raciocínio, em seguida selecionar o máximo de informações, ter amplo domínio do léxico, empregar técnicas de persuasão (manipulação dos vocábulos para construção de frases claras, fluentes e eufônicas) e utilizar o argumento da autoridade (parecer de especialista renomado, de preferência com títulos de mestre/doutor...).

O texto abaixo pretende ilustrar esse conceito, evidente que não traduz o meu pensamento. Eu o produzi somente para exemplificar como o jornalismo, se utilizado como instrumento de manipulação de consciências, é capaz de conspurcar a vida de um inocente de maneira que reduza ao mínimo as chances de defesa dele. Para escrevê-lo, apenas obedeci à estrutura anteriormente delineada: idéia central ou linha de raciocínio, coleta de informações, boa construção de frases e o argumento da autoridade.

Um desconhecido chamado Jesus

Quem era, afinal, Jesus Cristo? O que se conhece desse homem que viveu na Palestina há mais de dois mil anos está registrado na Bíblia, o livro sagrado da cristandade. Mas é uma visão maniqueísta, portanto não isenta, conforme afirmavam estudiosos como o matemático, físico, filósofo e escritor francês, Blaise Pascal, conhecido agnóstico ("aquele que só aceita como objetivamente verdadeira uma proposição que tenha evidência lógica satisfatória" - Novo Dicionário Aurélio).

Flávio Josefo, importante historiador judeu, herdeiro de uma rica família da aristocracia sacerdotal asmonéia, reservou um parágrafo de cinco linhas para comentar sobre "um certo Galileu" que fora crucificado em Jerusalém, no dia 14 de nisã (abril) de 33. Nada mais além do que isso. Para um observador perspicaz dos acontecimentos, como era Josefo, admirado inclusive pela imperatriz Popéia, esposa de Nero, a morte do "rei dos judeus" não teve tanta importância, caso contrário, seria investigada e certamente ganharia espaço mais amplo.

Novamente, a pergunta ecoa: Afinal, quem era Jesus Cristo? Na opinião dos crédulos, a Bíblia é a fonte mais confiável para quem deseja conhecê-lo. Mas, qual Bíblia? Bem, a tradução Ferreira de Almeida, com seus 66 "livros", é apresentada pela comunidade evangélica como a "verdade viva". Também pode ser encontrada nas livrarias a Tradução Ecumênica, a bíblia dos Católicos com seus 76 "livros". Esses dez a mais são veementemente recusados pelos evangélicos. As Testemunhas de Jeová aboliram tanto a Ferreira de Almeida quanto a Tradução Ecumênica, dos Católicos, e editaram sua própria bíblia, a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, com uma linguagem totalmente peculiar. Os mórmons igualmente seguiram caminho adverso e produziram o Livro de Mórmon - Um Outro Testamento de Jesus Cristo.

Todos esses e outros textos sagrados dos cristãos têm Jesus Cristo como personagem central. A existência dele é inquestionável, conforme afirma o historiador e filólogo francês Ernest Renan, autor da obra Vida de Jesus, publicada pela primeira vez em 1863. "[As anotações de Josefo (...) sobre Jesus, João Batista, Judas, o Galonita, são secas e sem cor. Sente-se que ele procura apresentar esses movimentos, de caráter e espírito tão profundamente judeus, sob uma forma que seja inteligível a gregos e romanos. Creio ser a passagem sobre Jesus autêntica em seu conjunto. Ela se encaixa perfeitamente no gosto de Josefo e, se esse historiador fez menção a Jesus, é porque ele teve de falar disso".

Renan cita outro contemporâneo de Flávio Josefo, Fílon,como fonte confiável para comprovação da existência de Jesus. Igualmente historiador de seu tempo, Fílon fez referência ao rabi da Galiléia. Para o filólogo francês, não há dúvida de que Jesus Cristo realmente existiu. Contudo, questiona Renan, será que os "livros" sagrados contemplam o Jesus verdadeiro?

Deve-se levar em consideração que os textos dos evangelhos foram elaborados dezenas de anos após a morte de Jesus. O "livro" de Mateus foi produzido na Palestina, em 41; o de Marcos foi concluído em Roma, em 65; Lucas, em 58; e João, escrito nas proximidades de Éfeso, em 98.
Na opinião de Ernest Renan, os quatro evangelhos diferem em estilo e precisão. Eles "(...) mostram uma inteira indiferença por tudo o que não é próprio do espírito de Jesus. As contradições sobre os tempos, os lugares, as pessoas, eram vistas como insignificantes (...)".
Por exemplo, a obra de Lucas é considerada por Renan documento de segunda mão. "(...) ele [Lucas] dilui os detalhes para conseguir uma concordância entre os diferentes relatos: ameniza as passagens que se tornaram embaraçosas segundo a idéia mais exaltada que havia em torno dele a respeito da divindade de Jesus; exagera o maravilhoso; comete erros de cronologia e de topografia; omite as glosas hebraicas, parece saber pouco de hebreu, não cita nenhuma palavra de Jesus nessa língua (...)".
Essas contradições podem ser observadas, afirma o historiador francês, porque uma parte das idéias preconcebidas deve ter se misturado às lembranças dos evangelistas durante a produção dos textos. "Vários relatos, principalmente de Lucas, são inventados para fazer ressaltar vivamente certos traços da fisionomia de Jesus". Conforme Renan, "[os evangelhos] foram concebidos para provar que [em Jesus] as profecias vistas como messiânicas foram cumpridas".

Teria sido Jesus um louco genial ou realmente o Messias? Quando abandonou a profissão de carpinteiro, no outono de 30, para disseminar suas idéias pela Palestina, todos, inclusive sua família, achavam que havia enlouquecido. De acordo com Renan, "(...) é notável que sua família lhe tenha feito forte oposição e recusado claramente admitir sua missão divina. A um dado momento, sua mãe e irmãos declararam que ele perdera a razão e, tratando-o como um sonhador exaltado, pretenderam detê-lo à força ("E, quando sua mãe e irmãos ouviram isto, saíram para o prender, porque diziam: Está louco" - Marcos, 3:21 - Tradução Ferreira de Almeida).

Apesar da forte oposição familiar, se manteve firme em não mais voltar a trabalhar e, durante seus três anos de pregação, sobreviveu das doações de mulheres ricas que se tornaram suas discípulas. De acordo com Renan, "Joana, mulher de Kuza, um dos intendentes de Antipas, Suzana e outras não famosas o seguiam constantemente e o serviam. Algumas eram ricas e proporcionavam, com sua fortuna, meios para o jovem profeta viver sem exercer o ofício que ele desempenhara até então" (consultar Lucas, 3:3).

Foi isso que o correspondente, Larry Rohter, fez com o presidente Lula da Silva. Na ânsia de mostrar trabalho, com certeza para justificar o alto salário, construiu um texto pérfido. Ignorou uma importante regra do bom jornalismo: "Quando tiver de prejudicar alguém no interesse público, pense duas vezes. Quando tiver de favorecer alguém, em particular, pense dez vezes. Quando tiver que prejudicar o interesse público, nem precisa pensar: delete o que escreveu".
Infelizmente, o jornal americano "The New York Times" se comportou arrogantemente no episódio bradando, através de suas páginas, que o jornalista nada mais fez do que cumprir o seu dever. Agora é possível entender porque o jornalismo norte-americano, que já foi o melhor do mundo, está caindo pelas tabelas.

Na sexta-feira, 14, o jornalista enviou carta ao presidente da República afirmando não ter tido a intenção de ofendê-lo, tampouco ao povo brasileiro.
Mas em nenhuma linha reconhece, explicitamente, ter cometido erros tão crassos. Assim como Lula e seus assessores erraram ao determinar o cancelamento do visto de Larry, este também perdeu uma grande chance de melhorar sua imagem enquanto profissional de imprensa reconhecendo, na carta, ter enveredado para o mau jornalismo. Isso confirma, mais uma vez, a máxima de que "grandes jornalistas há diversos que são ou que se julgam. Bons jornalistas, muito poucos. Verdadeiros jornalistas, quase nenhum". Se um dia Larry foi um grande jornalista, com a reportagem sobre Lula deixou de ser.

* Jornalista graduado pela UFPA e Bacharel em Teologia.
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