É hora de resgatar a memória amapaense

Emanoel Reis

A idéia surgiu numa manhã ensolarada de sábado, durante um bate-papo regado a "louras geladas",
no "Sovaco de Cobra", ali, pelas bandas do Macapá Hotel (preciso lembrar de cobrar o merchandising do Zé Alcolumbre). Na verdade, ela - a dita cuja - não é minha. Não sou o pai da criança. Mas, a acalento desde então.

Bem, não saí de casa para ir ao "Sovaco". Fui consertar meus óculos, numa pequena ótica localizada às proximidades do bar. E como estava por perto aproveitei, é claro, para molhar o bico enquanto o serviço ficava pronto. Saboreava o sexto trago quando vi o Meton Jucá despontar na esquina.

Conheci o Meton no Instituto Macapaense de Ensino Superior (IMMES), no primeiro semestre de 2003.
Ele, cursando Administração Sócio-Ambiental. Eu, professor de Produção de Texto Científico e Acadêmico.
Foi amizade à primeira vista. Meton por perto é certeza de boa conversa e muitas gargalhadas.
Depois dos salamaleques e rapapés iniciais, enveredamos por assuntos diversos. Lá pelas tantas, chegou o Zeca e, atrás dele (??), o Arimatéia. Se combinado, como vaticinam os filósofos de botequim, o encontro etílico não teria dado certo.

Como espectador privilegiado, ouvi histórias de antanho contada pelos três convivas. Do tempo em que Macapá vicejava as margens do Amazonas e se estendia um pouco mais para além da Igreja de São José. "Causos" hilários, picantes, bizarros. À escolha do freguês.

Personagens reais, protagonistas de uma época remota na memória de alguns e desconhecida para muitos. Pioneiros que aqui desembarcaram determinados a vencer as vicissitudes para amealhar fortunas.

Vieram sozinhos ou com as famílias a tiracolo. Todos visionários e empreendedores.
Então, aproveitando uma pausa na sessão nostalgia comentei que boa parte dessa história, hoje narrada pelos filhos/herdeiros desses desbravadores, está se dissolvendo em poeira de tempo. Então, é necessário promover esse resgate, colhendo depoimentos dos que ainda vivem e, evidente, não estejam tão senis para mergulhar no passado.

Meton entendeu a mensagem e sugeriu que essas pessoas fossem entrevistadas e o resultado dessa coleta de informações transformado em livro. Uma obra para a posteridade sem o ranço do academicismo, apenas transcrevendo as histórias como aconteceram, com todas as nuanças dos personagens.

O Arimatéia propôs que eu capitaneasse esse trabalho, inclusive comprometendo-se, apoiado pelo Meton, em listar os entrevistados. Gostei da idéia, até porque, embora neófito em Amapá, reitero meu amor por este Estado e por sua gente. Mister é iniciá-lo logo, mas que outros também estejam comprometidos com a proposta.

Uma semana mais tarde, conversei com o Edi Prado sobre o assunto. O "Lia" se mostrou interessado na idéia. Falou do arquivo dele (espécie de hemeroteca) laboriosamente montado ao longo de 19 anos contendo entrevistas de figuras emblemáticas da história macapaense.

Algumas já habitam o andar de cima, outras ainda estão entre nós, resistindo bravamente às investidas do tempo. Ideal seria aproveitar enquanto podem falar sobre o passado, gravá-las em vídeo, salvaguardar essas lembranças. Afinal, suas vidas se fundem com a história do Amapá. Assim, logo teríamos um acervo considerável para principiarmos a criação do Museu da Imagem e do Som do Amapá.

Quis saber com o "Lia" se, em Macapá, existe algo parecido, onde se possa encontrar esse material.
Bem, se o "Lia" que é o "Lia", caboclinho nascido nos fundões do Laguinho, não soube responder, então...
Comentou que esse patrimônio existe, mas está disperso, com pessoas como ele, catadores de minudências históricas.
Expus o assunto ao Osmar Júnior, no balcão do Abreu. O bardo validou a iniciativa e, de pronto, colocou-se à disposição. Falta ouvir o Fernando Canto, o David Miguel, o Joseli Dias, e os demais expoentes da cultura tucuju. Todos precisam estar mobilizados contra o mal de Alzeimer que aflige a memória amapaense. Essa idéia não pode passar em "branco".