MEMÓRIA FRACA

João Silva

E lá vou eu de novo pegar no pé do senador José Sarney, do PMDB do Amapá e atual Presidente do Congresso Nacional. Aliás, quando ele vai à tribuna quase sempre tenho sobressaltos, quase sempre vejo minhas expectativas frustradas. Tanto é que ainda não assimilei aquele discurso em que utilizou o mandato dado pelo povo do Amapá para fazer a defesa da “Lunus” no escândalo da Sudam, afinal habilmente engavetado e varrido pra fora da grande imprensa.

Na sexta-feira 30, não foi diferente. Sarney foi a tribuna do Senado para lembrar os l30 anos das primeiras ferrovias no Brasil. Daí é que abriu um baú enorme para enaltecer o governo federal e alguns governos estaduais que espalharam ferrovias pelo território nacional como solução para o transporte de passageiros e o crescimento da economia.

O ex-presidente falava com toda razão: ao privilegiar o sistema rodoviário, em detrimento do ferroviário que não corresponde sequer a 20% do transporte nacional, o Brasil viu-se excluído dos avanços proporcionados pela tecnologia que no século XXI opera revolucionário sistema de transporte sobre trilhos, puxado pelo trem intermodal, como ocorre na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos, salientando o quanto suas economias ganharam em agilidade, eficiência e modernidade.

Ainda ressaltou que a riqueza nacional infelizmente percorre grandes distâncias sobre estradas esburacadas, precárias, quadro que se agrava todos os dias por falta de conservação, por falta de novos investimentos e, como não é de ferro, aproveitou para vender o “peixe” requentado da Ferrovia Norte-Sul, projeto do seu tempo de Presidente da República e que não conseguiu se consumar, entre outras coisas, por causa da forte oposição de Lula e do PT.

O Presidente do Senado e senador pelo PMDB do Amapá parecia bem humorado e, aos desavisados, deu um show de boa memória...Citou ferrovias no Piauí, no Maranhão, no Pará, no Rio de Janeiro, no Paraná, em São Paulo, e até lembrou-se do fato de que Alberto Silva, ex-Governador do Piauí, construiu metrô em Terezina. Foi a senha para a rasgação de seda, que começou com Heráclito Fortes, prosseguiu com Mão Santa e tirou da sonolência o senador Alberto Silva, sempre disposto a propagar os números da tragédia brasileira a que se restringe a situação de abandono das estradas federais no nosso País.

Boa memória em parte, porque, quando se trata de Amapá, Sarney é um desastre! Simplesmente não consegue se ligar na gente e, de novo, deixa escapar clara demonstração de que o coração e a mente dele estão voltados para longe de nós.

E olha que cabia uma referência ao Amapá, sim, senhor! A assessoria de José Sarney poderia sugerir ao chefe, só para justificar, atencioso comentário sobre a Estrada de Ferro do Amapá e da sua importância para o desenvolvimento do extremo norte, com a exportação de riquezas minerais para os Estados Unidos, através do Porto de Santana, e a conseqüente captação de divisas que deram grande contribuição ao produto interno bruto nacional, em mais de 50 anos de exploração das jazidas de ferro de Serra do Navio.

Ficou patenteado, uma vez mais, que, se de fato - e não apenas de direito - fizéssemos parte das preocupações de Sarney, ele teria dedicado um tempinho do seu discurso para tratar do assunto que envolve o Governo do Estado, diante do desafio de revitalização da Estrada de Ferro do Amapá como meio de transporte barato para escoar a produção, incrementar o turismo e a integração das comunidades que ficam ao final e ao longo do seu trajeto, subindo a bela região de Serra do Navio.

Sobre a mais que visível falta de empatia com o nosso povo, já que no Senado todos o identificam como político e representante do Maranhão - sem nenhum reparo, pelo menos audível - e não do Amapá, bem que o séqüito de Sarney por aqui, com ajuda de assessores, ou “anjos da guarda” - para lembrar Darcy Ribeiro ao dizer que estar no Congresso é viver no paraíso sem necessidade de desencarnar- bem que poderiam, sempre que fosse necessário, aconselhar ao ex-Presidente providencial exercício mental, como repetir várias vezes, todos os dias, que é senador pelo Amapá, eleito pelos amapaenses, e não pelo povo maranhense, a quem, parece, não teve coragem de pedir o que lhe demos de mão beijada: dois mandatos de oito anos, algo que significa mais, muito mais que alentadora sobrevida a uma carreira que parecia esgotar-se com a impopularidade que marcou o final do seu governo. Ou isso não é o suficiente para lembrar de nós?