MODERNISTAS, LIVROS E CULTURA

Paulo Tarso Barros (*)

Após a Semana de Arte Moderna, realizada em 1922 na cidade de São Paulo, quando alguns artistas resolveram provocar um frisson na cultura brasileira, as nossas artes deram uma guinada para melhor. Isso ocorreu porque os idealizadores, na maioria jovens intelectuais e burgueses da elite paulistana (mesmo pobre, Mário de Andrade se enquadra perfeitamente nesse perfil), que viajavam pelo velho mundo, mantinham intercâmbio com as vanguardas européias, também queriam para o nosso país uma arte de qualidade, nada comodista e que não fosse tão atrelada ao academicismo conservador e aos defensores perpétuos da lusofonia.

Após 22, a Literatura nacional se fortaleceu, bem como as artes de modo geral. Mário de Andrade, através de sua militância e da sua liderança intelectual, conseguiu influir de maneira ampla e profícua em nossa cultura. Quem já teve oportunidade de ler a vasta epistolografia trocada entre ele e nomes como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fernando Sabino e Cecília Meireles pode ter idéia da dimensão do seu conhecimento. Ele opinava sobre tudo e todos; sugeria emendas em poemas de Drummond; reclamava, criticava, enfim: metia a colher no angu dos seus confrades. Por isso, a importância desse intercâmbio deve servir de estímulo para as gerações presentes que devem lutar por produzir arte a aprtir de um bom preparo, o longo e penoso aprendizado que todo artista - mesmo aqueles recheados de talento - deve conduzir durante toda a vida, com o espírito aberto e tendo a noção de que a Arte é algo universal, complexo, instigante, fruto das transformações e da evolução do homem enquanto ser pensante. Mário de Andrade nos deixou um exemplo de vida e dignidade intelectual. Um exemplo de amor aos estudos, do verdadeiro papel do intelectual na sociedade, pensando a cultura não como um referencial de status vazio e inútil, mas sim como um modo de existir capaz de gerar reflexões e estimular o crescimento de um povo através do conhecimento.

Acho que o escritor, ao enveredar pelos caminhos das letras, deve ter a consciência de que não basta apenas a boa vontade, o desejo íntimo e às vezes até egoísta de produzir uma obra, sair por aí alardeando o feito. Isso é apenas um ponto de partida, não o de chegada. O essencial é uma conscientização de que, diferente da música, da pintura e de outras formas de arte, o livro ainda é considerado um objeto sagrado, pois simboliza o saber, o conhecimento, o suporte material onde se deixam registrados os conhecimentos da humanidade; onde estão registradas as grandes obras, o que há de mais superior do engenho e do espírito humano. Quem não lamenta até hoje o incêndio da biblioteca de Alexandria? Quem não se emociona ao percorrer uma grande biblioteca ou manusear uma obra de Machado de Assis, Dante, Nietzshe, Jorge Luís Borges, Garcia Márquez, Clarice Lispector? Nos livros sagrados das grandes religiões os fiéis acreditam ter o Criador, o Ser Supremo do Universo, utilizado-se para deixar seus ensinamentos. Por isso a nossa extrema preocupação com a qualidade de nossa literatura, o que tem gerado algum mal-estar entre algumas pessoas. Seríamos hipócritas e omissos se ficássemos calados. Talvez por isso, e por exercer o nosso papel de professor e escritor, muitas pessoas nos julguem preconceituosos. Mas quem nos conhece, quem convive conosco sabe que isso não é verdade. Apenas somos coerentes com a nossa formação, pois desde criança fomos sempre acostumados a ler bons livros e queremos permanecer nessa companhia tão preciosa. Essa utopia é uma obsessão, um vício que pretendemos manter. Por isso vamos continuar ajudando a produzir livros, a divulgar as letras e buscar fazer chegar até o leitor o maior número possível de obras.

(*) Escritor, professor e membro da Academia Arariense-vitoriense de Letras, União Brasileira de Escritores e Associação Amapaense de Escritores.