UMA CONVERSA SOBRE MONOGRAFIAS

Renivaldo Costa - jornalista

Trabalho de conclusão de curso, trabalho de graduação individual, PGE.

Enfim, monografia. A experiência nos diz que tudo o que leva nome pomposo fatalmente esconde algo terrível. Exame de densidade de hemácias, por exemplo (que ninguém sabe o que é, mas que eu só faria sob recomendação de um médico muito, muito forte e que ameaçasse o perfeito alinhamento dos meus olhos).

Como se sabe, o trabalho final surgiu nas primeiras universidades européias, no fim da Idade Média, só para sacanear os alunos. Não poderia ser diferente, afinal, a Idade Média é o período de maior sadismo da história, em que foram inventados a vassalagem e o cinto de castidade. Ou você acha que uma monografia serve realmente para alguma coisa? A única função de uma monografia, óbvio, é fazer pressão psicológica sobre o estudante. Ainda por cima (sacanas!), querem que o coitado faça uma apresentação a um pelotão de fuzilamento, quer dizer, a uma banca. E que tenha uma encadernação bonitinha, senão...

Um monógrafo é um ser diferente do resto da humanidade. Todas as demais pessoas têm interesses, vontades, alegrias, decepções, contatos, dores, etcéteras. Mas um monógrafo só tem o seu TCC. Nada mais. Um único tema preenche toda a sua pobre existência:

- E aí, cara, terminou sua monografia?
- Não, estou fazendo ainda...
- Claudiéverson, mas já fazem 3 anos!
- Pois é, estou esperando o tema amadurecer... mas acho que vai ser algo sobre "O Pêndulo Romanesco".
- O quê?
- De novo não! Não pede pra explicar, não pede pra explicar !!!

Ou então:
- Oi ! Você vem muito aqui?
- N-não, na verdade não venho aqui há 10 meses. Estou fazendo minha monografia, e, sabe como é, não sobra tempo...
- Ahnnn, e sobre...
- Pssssssssssst !!!
- Hein?
- Não fale muito alto!
- Por que?
- Meu orientador não pode saber que estou aqui. Vim escondido. Não aguentava mais escrever aqueles parágrafos rebuscados. E, se ele me pega neste bar, me dá mais 2 bibliografias de castigo!

Felizmente, é muito fácil identificar alguém assim e se livrar de sua monotonia. Na primeira citação das expressões "meu trabalho final", "orientador" e "banca", pule fora. Ou você entrará no mundo monotemático do monógrafo.

- Oi, tudo bem?
- Mais ou menos. Tenho que terminar meu TCC.
- Tá... mas vamos bater uma bolinha?
- Não, não dá, porque meu orientador já me avisou que, seu eu não desenvolver bem a justificativa, minha pesquisa não valerá de nada. Além disso, as conclusões que eu estou obtendo não estão lá muito interessantes, e aí acho que vou mudar um pouco o foco.
- Ahnn... e a Patrícia Paola?
- Bom, a gente terminou, porque ela não queria me ajudar a tabular os dados... sabe, tudo fica muito complicado quando nem sua namorada te compreende. Cara, sabe quanto tempo eu parava de escrever meu trabalho só pra ficar com ela? Quinze minutos! Quin-ze-mi-nu-tos toda semana, e a ingrata ainda reclamava!

Monografias causam problemas graves ao cérebro desses pobres estudantes.
Seus neurônios formam sinapses que nunca mais serão apagadas, e o monógrafo continua em um mundo rodeado por referências bibliográficas, transparências impressas de última hora, e pessoas que foram esquecidas nos agradecimentos. Alguns deles se curam magicamente, logo após a colação de grau. Outros, entretanto, mantêm as conseqüências dessa monotonia durante muito tempo, e (absurdo!) chegam até a escrever crônicas sobre o assunto, como eu.
Lastimável, realmente lastimável.