Olhar frívolo sobre o Legislativo

Chico Bruno (*)

A deputada federal Denise Frossard profere um discurso brilhante na Câmara Federal sobre o crime no país e a mídia passa batida. Agora, o senador João Capiberibe apresenta, no Senado, um projeto de lei em que ficam obrigadas todas as instâncias de poder do país a apresentar seus gastos públicos, em tempo real pela internet. Mais uma vez a imprensa desconhece o assunto. Sequer uma linha é dedicada ao assunto empolgante, que torna pública a principal caixa preta que constrói a corrupção nos meandros do Estado: a execução orçamentária brasileira em todos os níveis de administração pública.

É curioso como os bons pronunciamentos e os bons projetos legislativos não impressionam a mídia brasileira.
Ao contrário, o que a impressiona são fatos menores, como o do deputado que, ano passado, bisbilhotava, no terminal de computador do cafezinho da Câmara, um sítio pornográfico, ou o fato de a senadora Heloísa Helena aparecer em público trajando um vestido em vez dos tradicionais jeans e blusa branca. Infelizmente, esse é o nível a que chegou a mídia tupiniquim.

Poderiam os defensores das frivolidades na mídia argumentar que o projeto de lei do senador Capiberibe é um tanto fantasioso, ou que não foi divulgado à imprensa. Mas se o fizessem estariam incorrendo em erro mais grave ainda, o da desinformação, haja vista que o projeto de lei foi construído a partir de um exemplo praticado numa das unidades federativas do país, o Amapá. Para comprovar, basta acessar o sítio <www.amapa.gov.br e abrir o acesso aos gastos públicos. Além disso, foi distribuído pelo gabinete do senador um release que pode ria servir como sugestão de pauta.

Mau costume

Se é grave a imprensa não dar atenção ao que a contece de benéfico para o Brasil no Legislativo, mais grave é o vício da imprensa de começar e não terminar uma cobertura.
O costume vigente é o de interrompê-la abruptamente. Agora mesmo, neste feriado da Semana Santa adicionado a Tiradentes, e no caso carioca, a São Jorge, sumiu do noticiário, com as exceções de IstoÉ, A Tarde e alguns colunistas políticos, o caso dos grampos telefônicos baianos, que vem sendo apurado pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal. Ao que parece, a tendência é deixar tudo como dantes no quartel de Abrantes. O principal suspeito de mandante dos
grampos, o senador Antônio Carlos Magalhães, deixou de freqüentar as páginas dos principais jornais e revistas nos últimos dias, embora seja esta a semana marcada para a entrega do parecer do relator sobre o caso no Conselho de Ética do Senado.

Se fosse feita uma varredura nos arquivos destes veículos hoje omissos seria possível encontrar farto material sobre grampos e ACM, que auxiliaria na produção de matérias esclarecedoras sobre os fatos que no momento são objeto de investigação policial.

A título de curiosidade, isso foi feito neste Observatório. Foram encontradas várias ocorrências do assunto, mas uma resume tudo: é um artigo, publicado na edição de 28 de fevereiro de 2001, sob o título "ACM, a mãe de todos os grampos". Só a leitura do texto, que se reporta a matéria de dois antes da Folha de S.Paulo, serve para puxar o fio da meada de uma boa pauta.

Infelizmente a mídia continua cega aos bons feitos do Legislativo, preferindo frivolidades e fatos negativos, e com o mau costume de não concluir coberturas. ( Oservatório da Imprensa)

(*) Jornalista