"A Paixão de Cristo", filme de Mel Gibson, só serve para atiçar os fundamentalismos.

Editorial - Le Monde

"A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, que estréia na França após o seu triunfo americano, é uma dupla regressão. Primeiro, no plano estético: embora ninguém possa ignorar a violência do suplício da crucifixão na época romana, nenhum profissional do cinema até então havia abordado a morte de Jesus com uma tal prevenção em favor da morbidez e da bestialidade.

Em segundo lugar, trata-se de uma regressão no plano teológico: se a violência de "A Paixão" está encharcada tanto da violência que existia no tempo de Jesus quanto da violência do mundo moderno, este culto hipertrofiado da dor é anticristão. Não há nada nos textos da tradição cristã que
permita afirmar que a redenção do mundo tivesse sido medida em função dos sofrimentos suportados, ou que leve a acreditar que, ao perdoar aos seus carrascos, o Cristo tivesse se tornado cúmplice de um tal sadismo escancarado.

A regressão mais grave do filme de Mel Gibson está no seu anti-semitismo insidioso. Se houver uma vítima, existem forçosamente os seus carrascos.
Nada diz no texto original da "Paixão" que o povo judeu foi coletivamente responsável pela morte de Jesus. Mas Gibson não nos poupa nem dos textos, nem dos estereótipos que, ao longo dos séculos, foram utilizados pela propaganda antijudia.

A maldição vinculada aos judeus desde o Evangelho de Mateus ("Que o seu sangue recaia sobre nós e sobre os nossos filhos!") foi mantida, apesar das críticas das organizações judias americanas. Pôncio Pilatos, o prefeito romano da Judéia, que toda a historiografia pinta como um personagem de uma crueldade repugnante, passa aqui por um gentil humanista.

Os torturadores são os ocupantes romanos, mas os que dão as ordens são os grandes sacerdotes judeus, presentes em todas as etapas do processo de Jesus e até ao pé da cruz. Quem poderá sustentar que tal filme não reforça os piores clichês sobre os judeus cúpidos, intolerantes, manipuladores, conspiradores, sedentos por sangue, o que é um cúmulo para todo judeu respeitoso da lei?

Este coquetel de culto da dor cristão e de antijudaísmo é explosivo. Ele alimentou todas as representações da Paixão na Idade Média que acabavam sempre em motins antijudeus, até aquelas que, na Bavária, faziam correr as multidões nazistas.

No momento em que o extremismo religioso está vencendo em todo lugar, no momento em que a confusão entre sagrado e violência se instala em todas as mentes, este filme pode ter efeitos devastadores, seja nas periferias onde tudo pode ser pretexto para o ódio aos judeus, seja nos países árabes (nos quais os meios de comunicação divulgaram que Iasser Arafat teria assistido ao filme de Gibson e aprovado) seja nas relações entre judaísmo e cristianismo.

Com base em arrependimentos e em revisões dos textos, estas relações haviam melhorado desde o concílio Vaticano 2 (1965). Quem ainda acredita que este progresso seja uma conquista irreversível?

Como se surpreender com o fato de que os que apóiam Gibson estejam nas fileiras dos católicos tradicionalistas, os quais não têm a menor dúvida quanto à culpabilidade dos judeus na morte de Jesus? Ou ainda em meio aos protestantes evangélicos, incapazes de se desvincular de uma leitura literal das Escrituras?

Este filme alimenta as piores tendências fundamentalistas do mundo moderno.